Edward Snowden, que revelou uma superesquema de espionagem do governo americano, afirmou que o comércio de spyware (softwares capazes de invadir computadores ou telefones) deve ser imediatamente suspenso em escala global. 

O ex-funcionário da NSA (Agência de Segurança Nacional) dos Estados Unidos comentou ao jornal The Guardian a revelação do sistema Pegasus, vendido a governos pela NSO, usado para monitorar 50 mil celulares em todo o mundo, incluindo jornalistas e chefes de Estado.

Para Snowden, essa é uma indústria que “não deveria exisitir”, e da qual o cidadão comum não tem como se defender. “Se nada for feito para impedir essa tecnologia, não serão apenas 50 mil, serão 50 milhões de alvos.”

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50 mil foi o total de números de celular hackeados pelo sistema Pegasus revelado no domingo (18/7) pelo relatório da Forbidden Stories – organização que monitora o trabalho de jornalistas ameaçados, presos ou assassinados–, e distribuída a publicações com o apoio da Anistia Internacional.

A NSO vem alegando que os governos aos quais licencia o Pegasus estão contratualmente obrigados a usar a ferramenta de espionagem para combater “crimes graves e terrorismo”.

Spyware aumenta alcance a pessoas de forma preocupante, diz Snowden

Além das quase duas centenas de jornalistas grampeados, defensores dos direitos humanos, políticos, advogados, diplomatas e chefes de Estado foram grampeados, aponta o material divulgado.

Para plantar escutas ou grampear o telefone de um suspeito, a polícia precisaria “arrombar a casa de alguém, invadir o carro ou o escritório, preferencialmente de posse de um mandado”, argumenta Snowden.

O analista de sistemas aponta que a comercialização de spyware potencializa o alcance da espionagem contra um número muito maior de pessoas. “Se eles [governos] podem fazer a mesma coisa à distância, com pouco custo e nenhum risco, eles começam a fazer isso o tempo todo, contra todos que são de interesse até mesmo secundário”, opina.

“É como uma indústria em que a única coisa que fizeram foi criar variantes personalizadas da Covid para evitar vacinas”, disse ele. “Seus únicos produtos são vetores de infecção. Eles não são produtos de segurança. Eles não estão fornecendo nenhum tipo de proteção, nenhum tipo de profilático. Eles não fazem vacinas — a única coisa que vendem é o vírus.”

(Gerd Altmann/Pixabay)
Outro sistema semelhante ao Pegasus também monitorou centenas

A organização Access Now compartilha da opinião de Snowden e nesta segunda-feira (19/7) se manifestou pela imediata interrupção da indústria de espionagem e a responsabilização de governos pelo uso indiscriminado de softwares de monitoramento de pessoas.

“A indústria [de spyware] mostrou que é incapaz de se policiar, enquanto os governos — incluindo os Estados democráticos — estão se escondendo atrás da segurança nacional para encobrir esses abusos de vigilância. Precisamos de regulamentação, transparência e responsabilização agora”, afirma Natalia Krapiva, consultora jurídica de tecnologia da Access Now.

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A organização ressalta que o esquema do sistema Pegasus vem a público poucos dias após uma investigação do Citizen Lab e da Microsoft sobre outra empresa israelense de tecnologia de vigilância, a Candiru. O spyware da empresa foi usado para atingir pelo menos 100 pessoas de destaque , em países como Cingapura e Palestina, ncluindo defensores dos direitos humanos, jornalistas e ativistas.

Já em Botsuana, a tecnologia Cellebrite foi fundamental na busca pela polícia pelo telefone de um jornalista, enquanto o Vietnã foi exposto em uma longa lista de clientes desta tecnologia. O país comunista acumula um histórico de violações dos direitos humanos contra jornalistas e ativistas.

Pegasus despertou interesse do governo Bolsonaro, aponta reportagem

Pelo menos 180 jornalistas de vários países foram espionados por usuários do sistema Pegasus, uma ferramenta desenvolvida pela empresa israelense de vigilância cibernética NSO. O software infecta celulares, tanto iPhones quanto dispositivos Android, para permitir que os operadores da ferramenta extraiam mensagens, fotos e emails, gravem chamadas e ativem microfones secretamente.

A ferramenta é usada por governos, e o levantamento sobre espionagem aponta para pessoas que seriam alvos de Arábia Saudita, Índia, Hungria, Emirados Árabes e Marrocos, entre outros.

Os profissionais de imprensa grampeados participam de veículos como Wall Street Journal, CNN, The New York Times, Al Jazeera, France 24, El País, Associated Press, Le Monde, Bloomberg, Agência France-Presse, The Economist, Reuters e outros. Governos de ao menos dez países estão sendo acusados de usar o sistema para fins de espionagem.

O programa já foi notícia anteriormente no Brasil. De acordo com reportagem publicada pelo UOL em maio, Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), teria tentado articular a compra do Pegasus sem consultar órgãos brasileiros de inteligência.

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