Tucker Carlson, apresentador da Fox News e notório defensor de Donald Trump, anunciou que passará uma semana na Hungria, para gravações e uma entrevista exclusiva com o primeiro-ministro do país, Victor Orbán.

Carlson é conhecido da audiência americana por seu perfil conservador e nacionalista, sendo um crítico da imigração, além de abordagens criticadas em relação a temas como o racismo ou a igualdade entre homens e mulheres.

Leia também: Caso Cuomo: irmão jornalista do governador de NY arrasta CNN para escândalo de assédio sexual

O programa do apresentador na Fox News é uma das atrações que reforça o caráter conservador de direita da emissora, que durante os anos Trump teve status de uma das preferidas do presidente. Carlson é apontado como influenciador de decisões do ex-presidente em assuntos-chave, como manobras militares.

A viagem do jornalista dá prestígio ao governo húngaro, que vem sistematicamente transformando o país em uma autocracia comandada pelo premiê, com diversos episódios de repressão à imprensa e aos direitos humanos.

 Críticas sobre imigração e acusações à NSA

Na última semana um dos temas principais de Carlson foi uma suposta vigilância que a NSA (Agência de Segurança Nacional) viria fazendo sobre seus emails e o conteúdo do programa na TV.

No dia 30, a Fox noticiou que a NSA havia admitido espionar Carlson, porém a informação foi atribuída a apuração de outro veículo de comunicação, e sem confirmação oficial da agência.

Em março, a emissora foi processada por associar duas empresas de tecnologia a fraudes eleitorais nas últimas eleições presidenciais dos Estados Unidos. Somadas, as causas podem custar à emissora US$ 4,3 bilhões. 

Tucker Carlson conversa com o premiê húngaro, Victor Orbán, em Budapeste. (Divulgação)

Carlson tem se dedicado a criticar as políticas do presidente Joe Biden, como por exemplo a postura do democrata de não-deportação.

Em Budapeste, Carlson reforça o papel da Hungria como um dos defensores da direita cristã conservadora mundial, papel cobiçado pelo Brasil.

A ministra Damares Alves e sua pasta, assim como o ex-chanceler Ernesto Araújo fizeram diversos acenos a pautas defendidas por Orbán, como oposição ao aborto e ao casamento de pessoas do mesmo sexo, em eventos noticiados pela imprensa no Brasil.

Viagem gera prestígio ao governo Orbán

Um jornalista de primeiro escalão como Carlson passa nova camada de verniz a um regime que vem sufocando jornais e publicações não simpáticas ao governo Orbán, bem como limitando direitos e implementando políticas de fertilidade em busca de uma Hungria “pura”.

Entre iniciativas do premiê, estão expulsar a Universidade da Europa Central do país, banir o estudo acadêmico de gênero nas faculdades, permitir que o partido Fidesz comandasse 90% da mídia no país e demonizar o investidor húngaro-americano George Soros como mentor de tendências culturais que servem para inflamar a base popular de apoiadores do primeiro-ministro.

Leia também: Ataque de lorde inglês a sotaque de jornalista da BBC em Tóquio mostra que caminho pra diversidade não é linha reta

Carlson fará um discurso no próximo fim de semana no MCC Feszt, uma conferência patrocinada pelo Mathias Corvinus Collegium, think tank que recentemente recebeu US$ 1,7 bilhão (cerca de 1% do PIB da Hungria) do governo.

“A obrigação imposta a jornalistas de obter autorização das autoridades e proprietários de terras para sobrevoo de drones, sob pena de um ano de prisão, demonstra a vontade do Estado de usar todo o arsenal legislativo possível para dificultar o trabalho dos meios de comunicação”, ressalta a organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF).

No ranking mundial de liberdade de imprensa, a Hungria ocupa a posição número 92 entre 180 países. O Brasil é o 111º colocado. Orbán e Bolsonaro estão ainda na lista dos predadores da liberdade de imprensa da RSF, publicada recentemente.

O jornalista Tucker Carlson foi criticado por dizer que a invasão ao Capitólio foi uma “operação do FBI”. (Reprodução/Fox News)
Jornalista recebe críticas, mas é fonte de informação até para colegas

Carlson foi criticado por promover teorias da conspiração sobre a pandemia e que o motim de 6 de janeiro no Capitólio foi uma operação do FBI. Um artigo do New York Times, do repórter Ben Smith, expôs o jornalista como “uma grande fonte” de colegas da imprensa americana, em tópicos que vão de Trump à ”política interna tumultuada” da emissora Fox News .

Em vídeo viral do último mês de junho, em uma loja de artigos esportivos, o colunista é abordado por um cidadão que o chama de “pior ser humano da humanidade”, enquanto Carlson tenta resolver a situação com tranquilidade, e até mesmo continuar suas compras.

O jornalista é autor de dois livros, sendo Ship of Fools (Navio dos Tolos, em tradução livre) bestseller da lista do New York Times. A obra se apresenta como “comentários políticos sobre como a classe dominante da América falhou com os americanos comuns”. Carlson escreveu ainda The Long Slide (O Longo Deslizamento, em tradução livre), coletânea de comentários políticos revisitados pelo jornalista.

Leia também

Bolsonaro entra para lista dos predadores mundiais da liberdade de imprensa, da RSF

Direitos autorais reservados. Reprodução do conteúdo integral não autorizada. Reprodução do primeiro parágrafo autorizada desde que com link para a matéria original.