Numa investida de várias frentes contra a cultura pop, o governo da China anunciou  na última semana interferências em dois produtos importantes, o aplicativo WeChat e a rede social Weibo. O primeiro seria um equivalente ao WhatsApp, porém usado para mais utilidades, e o segundo, uma versão chinesa do Twitter.

Nos dois casos, o poder estatal demonstra preocupação com a cultura da juventude chinesa, por um flanco atacando a cultura das celebridades, e por outro exigindo maior proteção a menores, inclusive limitando o acesso a jogos online. Os karaokês também foram alvo de censura, segundo publicaram agências internacionais.

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A China recentemente foi apontada também como celeiro de campanhas para distorcer fatos nas redes sociais e forjar uma imagem positiva do país. Usando perfis falsos, mas também recrutando estudantes chineses no exterior e influenciadores, a desinformação seria uma verdadeira tática de diplomacia agressiva.

Governo da China vai contra a cultura das celebridades

No caso do Weibo, a plataforma decidiu remover sua lista de celebridades mais “bombásticas” após o jornal estatal People’s Daily publicar críticas ao “apoio irracional” que fãs estariam dando a pessoas “não dignas de valor”.

O jornal argumentou que adolescentes do país são influenciados pela rede social e escolhem seguir os perfis das celebridades com base na popularidade dos famosos nas plataformas online.

A lista do Weibo classificou estrelas de acordo com a popularidade de suas postagens nas redes sociais e o número de seguidores que receberam.

A rede social Weibo, equivalente chinês do Twitter. (Reprodução)
“WhatsApp chinês” é processado por não proteger crianças

O WeChat está sendo processado por procuradores públicos, que afirma que o modo “youth” (juventude, em inglês), que limita o acesso de menores de idade à totalidade de funcionalidades do aplicativo, não protege as crianças chinesas.

O documento não detalha como o modo youth do WeChat infringiu a lei chinesa. O Ministério Público disse ainda que poderia apoiar outras agências e organizações que pretendam mover ações judiciais contra a Tencent, empresa dona do aplicativo, pedindo que entrassem em contato com a promotoria dentro de 30 dias.

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A agência Reuters relatou em abril que a China estava preparando uma multa “substancial” para a Tencent, como parte de sua ampla repressão antitruste aos gigantes da internet no país. Ainda assim é provável que a cobrança seja menor do que a penalidade recorde de US$ 2,75 bilhões imposta ao Alibaba, gigante do e-commerce.

A imprensa estatal atacou a Tencent também no ramo dos games, chamando a diversão eletrônica de “ópio espiritual” e “drogas eletrônicas”.

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Censura nos karaokês

A China anunciou ainda que estabelecerá uma lista de canções de karaokê com “conteúdo ilegal” a partir de 1º de outubro, de acordo com o Ministério da Cultura e Turismo.

Sem especificar o que exatamente torna uma música passível de censura, o ministério disse que o conteúdo proibido incluiria aquele que põe em risco a unidade nacional, a soberania ou a integridade territorial, viola as políticas religiosas do Estado ao propagar seitas ou superstições, ou que incentiva atividades ilegais como jogos de azar e drogas.

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Os fornecedores de canções para karaokês serão responsáveis ​​pela auditoria, disse o ministério em seu site na terça-feira (10/8), acrescentando que a China tem cerca de 50 mil estabelecimentos do gênero, com uma biblioteca de música estimada em 100 mil títulos, tornando difícil a classificação deste conteúdo.

Imagem de personagem do game Honor of Kings. (Divulgação)
Críticas nos veículos estatais gera prejuízo bilionário

O artigo gerou uma perda de US$ 60 bilhões (R$ 312,8 bilhões), ou quase 11% do valor de mercado da Tencent. As ações da empresa tiveram queda de 6%.

Após as críticas, a Tencent implementou barreiras em seu principal game, Honor of Kings, impedindo menores de 12 anos de gastarem dinheiro no jogo e limitando a 1h30 o tempo de conexão contínua dos jogadores menores de 18 anos. Nos feriados, o tempo é limitado a duas horas.

O serviço estatal de notícias China News, em sua conta no Weibo, disse que “escolas, desenvolvedores de jogos, pais e outras partes precisam trabalhar juntos”.

Em junho, mais de um terço da receita dos 10 principais jogos da Tencent veio de Honor of Kings e do jogo para celular PlayerUnknown’s Battlegrounds. Os maiores jogos da empresa não são projetados para consoles, mas para jogar online ou em telefones celulares com dispositivos Android e Apple.

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