Com a chegada do Taleban à capital afegã Cabul e tomada das principais cidades do país, a situação dos jornalistas trabalhando no país fica ainda mais crítica, com alto risco tanto para correspondentes estrangeiros quando para profissionais locais. A IJF (Federação Internacional de Jornalistas) lançou na última sexta-feira uma campanha para apoiar as vítimas da onda de violência e contra as ameaças a meios de comunicação do país. 

Membros da organização Repórteres sem Fronteiras visitaram o país na última semana de julho para avaliar a situação, constatando que mais de 50 meios de comunicação (principalmente estações de rádio e TV locais) já tinham naquele momento encerrado operações em áreas controladas pelo Taleban. Segundo a IJF, 10 veículos fecharam no dia 11 de agosto na província de Baghlan, tomada pelo grupo.  

Os que continuaram operando passaram a transmitir apenas conteúdo religioso, semelhante ao transmitido pela “A Voz da Sharia”, a estação de rádio oficial do Taleban- e conteúdo imposto pelos rebeldes islâmicos. 

A entidade formulou um plano de ação para salvaguardar a imprensa, encaminhado às autoridades locais, mas sua aplicação torna-se cada vez mais improvável diante da tomada das principais cidades e enfraquecimento do presidente Ashraf Ghani. 

Assasinatos aumentaram 

Nas últimas semanas foram assasinados dois jornalistas afegãos, um fotógrafo da agência Reuters e o chefe do  Centro de Mídia e Informação do país, Dawa Khan Minapal, em Cabul.

A IFJ ressalta que as jornalistas são particularmente visadas, tanto por seu trabalho quanto por causa da percepção do Taleban sobre as normas sociais.

Nos últimos meses, centenas de mulheres jornalistas foram forçadas a fugir, foram proibidas de trabalhar ou mesmo submetidas a ataques assassinos direcionados.

A organização afirma que todos os profissionais da mídia que cobrem a situação no Afeganistão estão atualmente arriscando suas vidas. A Associação de Jornalistas Independentes do Afeganistão (AIJA) e a União Nacional de Jornalistas do Afeganistão (ANJU) estão fornecendo apoio emergencial para ajudar os jornalistas a tomarem medidas de proteção e buscarem segurança. 

 

Helicóptero Apache, das forças americanas, sobrevoa área do Afeganistão em 2020. (Andre Klimke /Unsplash)

Organizações afiliadas à  IFJ também estão fazendo lobby junto aos governos em vários países para fornecer vistos de emergência e apoio logístico para permitir que os mais ameaçados deixem o país. 

O Reino Unido respondeu a uma solicitação dos órgãos de imprensa e anunciou no dia 5 de agosto a intenção de retirar jornalistas e colaboradores afegãos que trabalharam com a mídia britânica. 

Em carta aberta endereçada ao primeiro-ministro Boris Johnson e ao secretário de Relações Exteriores, 20 veículos, entre jornais e emissoras, tinham destacado a necessidade de garantir a segurança dos repórteres afegãos que ajudaram os correspondentes britânicos: “Há uma necessidade urgente de agir, pois a ameaça às suas vidas já é aguda e está piorando”, diz a carta.

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“Se deixados para trás, os jornalistas e funcionários de mídia afegãos que desempenharam um papel tão vital informando o público britânico ao trabalhar para a mídia do Reino Unido correrão o risco de perseguição, danos físicos, encarceramento, tortura ou morte”, destacaram os órgãos de imprensa.

A coalizão de veículos incluiu as emissoras Sky e ITN e alguns dos principais jornais britânicos: The Guardian, Times , Financial Times, Daily Mail e Sun, e a revista The Economist.

A decisão segue outra iniciativa similar, que resgatou intérpretes que trabalharam com as Forças Armadas britânicas na ocupação. Na última quinta-feira (5/8), um avião com 104 pessoas, entre intérpretes e suas famílias, aterrissou na região de Midlands, Inglaterra.

Os ataques recentes 

A primeira vítima da recente onda de violência do Taleban foi o fotógrafo indiano Danish Siddiqui, morto em confronto entre forças do governo e o Taleban . Fotojornalista veterano e chefe de fotografia da agência Reuters na Índia, ele integrava equipe que ganhou o Prêmio Pulitzer em 2018 por suas imagens da crise Rohingya em Mianmar. 

O repórter fotográfico Danish Siddiqui, morto em confronto no Afeganistão. (Reprodução/Twitter)

Em julho, após a morte de Siddiqui, veículos americanos lideraram uma iniciativa semelhante à do Reino Unido, pressionando o presidente Joe Biden a incluir colaboradores afegãos da mídia no Programa Especial de Vistos de Imigração. New York Times, BuzzFeed, CNN e Fox News estão entre as 21 empresas que assinaram o documento.

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No dia 6 de agosto, o Taleban assassinou o diretor do Centro de Mídia e Informações do Afeganistão, órgão da Presidência. Dawa Khan Menapal. Ele foi morto a tiros quando deixava uma mesquita em seu carro na capital afegã, Cabul. 

Menapal frequentemente criticava o movimento fundamentalista. O Taleban disse que ele foi “punido por seus atos”.

Dois dias depois, Toofan Omar, gerente da estação de rádio Paktia Ghag, foi morto a tiros por homens armados em Cabul. Ele era ,  uma figura importante na luta pela liberdade e direitos de imprensa.

No mesmo dia, na província de Helmand, no sul, autoridades afirmam que extremistas sequestraram Nematullah Hemat em sua casa, em Lashkar Gah, a capital da região.

122º no ranking de liberdade de imprensa da RSF

Em seu relatório anual sobre a liberdade de imprensa no mundo, publicado em abril, a Repórteres sem Fronteiras já antecipava a deterioração da situação, mesmo em um cenário de negociação de paz entre o governo e o Taleban. 

Seis jornalistas e profissionais da mídia foram vítimas de assassinatos seletivos desde o início de 2020. A paz definitiva está longe de estar assegurada e as garantias de liberdade de imprensa e proteção de jornalistas dos últimos 18 anos estão agora ameaçadas.

 A organização observou que o nível de violência e o número de jornalistas mortos em 2020 haviam sido menores do que em 2018, o ano mais mortal para a mídia desde a queda do regime do Taleban em 2001.

Apesar da resistência, as jornalistas continuam vulneráveis ​​em um país onde estão entre os principais alvos da propaganda fundamentalista, que circula amplamente em várias regiões. 

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