A entrevista histórica dada ontem (17/8) pelo Taleban revelou não apenas os planos do grupo para sua nova temporada no poder no Afeganistão — já chamada por alguns jornais de “Taleban 2.0”. 

O encontro com os jornalistas serviu também para revelar pela primeira vez o rosto do porta-voz do grupo, que durante os últimos anos operou sempre nas sombras,  apenas como uma voz do outro lado da linha telefônica, a exemplo da entrevista para a BBC no fim de semana.

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Zabihullah Mujahid nunca tinha aparecido em público antes, ou mesmo para uma câmera. Por mais de uma década, ele apareceu na televisão com o rosto oculto. Os jornalistas que já tinham falado com ele não esconderam sua surpresa assim que ele entrou na sala.

Sharif Hassan, repórter do New York Times que cobriu a coletiva em Cabul, foi um dos que tuitou para comentar que era a primeira vez que via a face do porta-voz com quem falara nos últimos anos:

“Eu falei e troquei muitas mensagens com ele. Mas é a primeira vez que vejo sua face.” 

Especulações de que porta-voz sem rosto poderia ser mais de uma pessoa

Durante anos, especulou-se que o porta-voz sem rosto poderia ser mais de uma pessoa.

Alguns sugeriram que o homem sentado na frente das câmeras nesta terça-feira parecia muito jovem para ser a mesma pessoa respondendo às perguntas feitas ao longo de quase duas décadas. 

Lyse Doucet, principal correspondente internacional da BBC, disse que essas dúvidas já ocorriam há tempos:

“Há anos especula-se que poderia ser um nome inventado, que poderia haver muitos “Zabihullahs” que se revezavam. Agora estamos todos aceitando que este é o Zabihullah Mujahid. Talvez não seja?

Muitos outros repórteres tuitaram sobre a surpresa de conhecer Mujahid, incluindo o veterano jornalista da BBC, John Simpson.

Ele disse que se relacionava com o porta-voz havia muitos anos, e que ao vê-lo pela primeira vez o considerou “um homem relativamente moderado e agradável”.

Na entrevista, porta-voz usou cadeira de diretor do governo assassinado pelo Taleban

A coletiva teve vários símbolos. O primeiro deles é que Mujahid estava sentado na cadeira que até recentemente pertencia a Dawa Khan Menapal, diretor do centro de mídia e informação do Afeganistão.

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Menapal foi assassinado por integrantes do Taleban no início deste mês. 

Na época, Mujahid confirmou a responsabilidade do grupo e disse que Menapal “foi morto em um ataque especial”.

Primeira resposta na entrevista oficial do Taleban foi dada a uma mulher

Outro fato que chamou a atenção foi Mujahid ter aceitado responder a perguntas dos jornalistas e de que a primeira resposta dele tenha sido dada justamente a uma mulher. 

Uma repórter da TV Al-Jazeera quis saber se o Taleban voltaria a trancar as mulheres em casa e impediria as meninas de ir à escola. Em tom suave, o porta-voz respondeu:

“O Emirado Islâmico está comprometido com os direitos das mulheres. Elas são muçulmanas e ficarão felizes em viver dentro de nossa estrutura de Sharia.”

Mas em seguida o porta-voz se inquietou. Um jornalista afegão que disse ter sido torturado pelo Taleban perguntou por que se deveria confiar neles. Foi a hora do representante do grupo radical pedir “mais perguntas” à imprensa internacional.

Repórter da BBC estranha mudança de tom para versão “paz e amor” dos extremistas

Yalda Hakim, da BBC, diz que ficou “chocada” ao ver pela primeira vez o rosto de um homem com quem ela falava há mais de uma década — e principalmente pela mudança de tom para tentar apresentar ao mundo uma nova face amigável dos fundamentalistas religiosos do Taleban.

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Hakim diz que esse comportamento é muito diferente das mensagens que costumava receber dele: 

“Por anos ele enviou declarações sanguinárias e agora de repente ele é um amante da paz, se senta lá e diz que não haverá represálias? É difícil compatibilizar.”

Na “evolução” do Taleban, há espaço para o perdão aos inimigos

O tom conciliatório permeou a fala de Mujahid. Numa das respostas, ele assegurou que o Taleban não quer inimigos internos ou externos.

Perguntado sobre qual a diferença entre a primeira temporada do grupo no poder e a nova versão 2.0, se ambos seguem a mesma lei religiosa muçulmana centenária, a Sharia, ele respondeu:

“Se a questão é baseada em ideologia e crenças, não há diferença. Mas quando se trata de sabedoria, maturidade e visão, há diferença. É uma espécie de evolução.”

Logo depois de tuitar sobre a surpresa de conhecer a face de Mujahid, o repórter Hassan, do New York Times, considerou muito boa a decisão anunciada pelo porta-voz do perdão do Taleban a todos. Mas perguntou:

“A questão é: quando o Taleban vai pedir perdão?”

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