Londres – Lars Vilks, o artista sueco que ganhou fama mundial por um cartoon retratando a cabeça do profeta Maomé no corpo de um cachorro, morreu neste domingo (3/10) em um acidente de automóvel na Suécia, junto com dois policiais que faziam sua segurança. 

O desenho, considerado blasfêmia na comunidade islâmica por representar visualmente Maomé, tinha sido feito em solidariedade ao jornal dinamarquês Jyllands-Posten, que em 2005 publicara uma série de cartoons retratando a figura sagrada para os mulçulmanos para provocar o debate sobre liberdade de expressão.  

Vilks virou objeto de ódio para militantes islâmicos, vivendo sob proteção policial desde 2010, quando as ameaças se tornaram mais graves e um dos atentados contra ele chegou a causar a morte de um cineasta que participava de um debate. 

Sob investigação

O acidente que vitimou o cartunista aconteceu em em uma estrada perto da cidade de Markayard. Ele viajava em um carro da polícia civil, que segundo a nota oficial das autoridades de trânsito, transpôs a cerca que dividia as duas pistas e colidiu de frente com um caminhão, em alta velocidade. 

Os dois veículos pegaram fogo. O motorista do caminhão sobreviveu. Imagens do acidente foram publicadas nas redes sociais, mostrando o veículo em chamas e depois completamente destruído.

Foto: Twitter/Graviola Finland

A polícia anunciou abertura de investigação devido ao envolvimento de policiais e para entender o que fez o carro atravessar a pista na direção do caminhão.

Mas não fez associação do acidente com as perseguições sofridas pelo cartunista, embora a promotoria pública tenha ressaltado a jornais suecos que a apuração está em estágio inicial.

Recompensa de US$ 100 mil pela morte 

A ilustração retratando o poeta Maomé mudou a vida de Larks Vilks. Ele acabou se tornando mais conhecido pela sua defesa da liberdade de expressão do que pela sua arte, que incluía um polêmico projeto de esculturas em madeira em uma reserva ambiental na Suécia. 

Filho de estonianos, estudou história da arte na Universidade de Lund e recebeu seu doutorado em 1987. Trabalhou como professor nas academias de Belas Artes de Oslo e de Bergen, na Noruega. 

O artista virou celebridade global em 2007, quando foi convidado a participar de uma uma feira sobre cães em um centro de exposições na cidade de Värmland. Vilks enviou um desenho a lápis representando o profeta muçulmano Maomé com um corpo de cachorro, sugerindo um cão de guarda. 

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Na véspera da inauguração, o centro onde a exposição ocorreria optou por retirar a obra da exposição por motivos de segurança. Mesmo assim a polêmica já estava instalada. 

Posteriormente, o jornal local Nerikes Allehanda publicou o desenho acompanhando um editorial intitulado “O direito de ridicularizar uma religião”.

O então editor-chefe Ulf Johansson defendeu o direito à liberdade de expressão. A partir daí levantou-se uma onda de protestos internacionais entre muçulmanos.

Em entrevista ao New York Times, Vilks disse que não tinha intenção de ofender, e sim de marcar uma posição a favor da liberdade de expressão:

“Na verdade, não estou interessado em ofender o profeta”, disse Vilks. “O objetivo é realmente mostrar que você pode. Não há nada tão sagrado que você não possa ofendê-lo. “

Semanas depois, Abu Omar al-Baghdadi, então líder da rede terrorista Al-Qaeda no Iraque, prometeu uma recompensa de US$ 100.000 ao assassino do artista.  

Terrorismo na Escandinávia 

Depois do caso, diversos incidentes demonstraram a extensão do radicalismo islâmico na até então pacífica Escandinávia, incluindo tentativas de ataques a organizações de mídia. 

Em dezembro de 2010, Taimour Abdulwahab, um sueco de origem iraquiana de 28 anos, tornou-se o primeiro terrorista suicida na Suécia, quando acidentalmente detonou uma das seis bombas amarradas a seu corpo entre pessoas que faziam compras de Natal no centro da cidade.

Minutos antes das explosões, o terrorista suicida enviou por e-mail uma mensagem à agência de notícias sueca TT e ao serviço secreto do país, afirmando que o atentado era uma vingança pela presença militar da Suécia no Afeganistão e por “seu apoio estúpido ao porco Vilks”. 

No mesmo mês, quatro suecos foram presos por planejarem um ataque contra o jornal Jyllands-Posten em Copenhagen, na Dinamarca. Os homens foram presos depois de dirigir da Suécia a Copenhague para executar o ataque.

Naquele ano,o serviço secreto da Suécia, (Säpo) produziu um relatório sobre o extremismo islâmico violento afirmando que havia identificado cerca de 200 extremistas na Suécia, a maioria residindo em Estocolmo.

Lars Vilks na mira 

Em 2010, os jornais suecos reimprimiram o cartoon de Lars Vilks depois que dois homens muçulmanos foram presos na Irlanda e acusados ​​de uma conspiração para assassinar o cartunista. Desde enão ele passou a viver sob proteção policial, e as tentativas de assasiná-lo prosseguiram. 

O artista chegou a ser atacado fisicamente naquele ano durante uma palestra na Universidade de Uppsala sobre liberdade de expressão. Um homem saltou da primeira fila e lhe deu uma cabeçada, quebrando seus óculos.

A porta-voz da Universidade de Uppsala, Pernilla Bjork, disse à imprensa na época que Vilks estava exibindo um trecho de um filme de um artista iraniano sobre o Islã e a homossexualidade que havia sido banido do YouTube quando a comoção começou. A polícia usou spray de pimenta para conter outros manifestantes, que foram presos. 

Em maio de 2010, incendiários tentaram colocar fogo na casa de Lars Vilks em Scania, na Suécia, causando pequenos danos. O artista não estava em casa. Dois irmãos suecos de origem kosovar foram condenados pelo ato.

Em entrevistas, ele contou que tinha criado seu próprio sistema de defesa, incluindo um cofre “caseiro” e uma escultura de arame farpado que poderia eletrocutar intrusos em potencial. Disse ainda que tinha um machado para enfrentar qualquer pessoa que tentasse escalar as janelas de sua casa.

“Se algo acontecer, eu sei exatamente o que fazer”.

Em 2013, a americana Colleen LaRose, conhecida como Jihad Jane, foi acusada de ter tentado recrutar pessoas para matar o artista. 

Como Charlie Hebdo

Mas nem todos os ataques acabaram sem vítimas. Em fevereiro de 2015, o diretor de cinema Finn Nørgaard morreu e três policiais ficaram feridos em Copenhagen depois que homens armados abriram fogo contra um café que promovia um debate intitulado “Arte, blasfêmia e liberdade de expressão”, com a presença de Lars Vilks e do embaixador da França na Dinamarca, François Zimeray. 

O encontro, realizado no café Krudttonden, em Copenhague, conhecido por shows de jazz e eventos culturais, também marcava os 10 anos da ordem de morte (fatwua) contra o escritor Salman Rushdie, emitida por fundamentalistas islâmicos depois que ele escreveu o livro Os Versos Satânicos.

Dois anos antes, a revista Inspire, da al-Qaeda, apresentara uma lista de pessoas acusadas de insultar o Islã. Vilks figurava ao lado de  Rushdie, do pastor americano Terry Jones, do político holandês Geert Wilders e de Stephane Charbonnier, editor da revista satírica francesa Charlie Hebdo, sob as palavras: “Procurado vivo ou morto por crimes contra o Islã”.

No atentado ao café foram disparados mais de 200 tiros, segundo a polícia. O embaixador francês comparou o ataque ao que tinha ocorrido pouco antes em Paris contra a Charlie Hebdo. 

Momentos depois do atentado, ele tuitou avisando que estava vivo. Líderes europeus protestaram contra o ato terrorista.  O agressor morreu no dia seguinte num confronto com a polícia dinamarquesa.

Três meses antes do atentado de Paris, que ocorreu em janeiro de 2015, o comitê Lars Vilks havia dado seu prêmio anual de liberdade ao Charlie Hebdo. 

Após o ataque ao semanário francês, Vilks disse que menos organizações o estavam convidando para dar palestras por causa dos riscos à segurança.

Limites da arte 

O artista vivia sozinho e pouco se sabe sobre sua família, supostamente por medida de segurança. Em 2020, ele quis viver com uma pessoa com quem mantinha um relacionamento desde 1989, mas a polícia negou o pedido, alegando que a proteção policial 24 horas por dia não poderia cobrir mais ninguém. 

O canal britânico Channel 4 fez em 2015 uma longa entrevista com Vilks, reconstitundo as ameaças que ele recebia. No programa, que foi ao ar um mês antes do atentado ao café em Copenhagen, ele disse: 

“Provocação e ofensa fazem parte da arte. Se você olhar para a história da arte, esse é o progresso na arte. 

Você meio que ataca as fronteiras e limites e preconceitos que sempre existiram.

“Questionar uma autoridade religiosa é uma ideia muito comum na arte. Normalmente não deveria haver problema com isso.”

A morte de Vilks foi lamentada por intelectuais e políticos na Suécia, mas nas redes sociais houve também celebração por parte de membros da comunidade islâmica que nunca perdoaram o artista. 

O pesquisador em criminologia e terrorismo Ardavan M.Khoshnood, professor de medicina da Universidade de Lund, escreveu: 

“Lars Vilks morreu. Nós o traímos. Não duvide disso. Ele estava preso em sua própria CASA. Em seu próprio PAÍS.”

Artista provocador 

Além da perseguição pelos seu desenho, Lars Vilks ficou célebre também por desafiar as autoridades com projeto artístico chamado Nimis.

Foto: Mappilary/Twitter

A instalação fica na reserva natural de Kullabergs e é formada por várias estruturas de madeira montadas com troncos, pranchas e galhos de árvores. 

Está ilegalmente colocada dentro da reserva, virando objeto de embates jurídicos entre Lars Vilks e a prefeitura do condado de Skåne. 

A construção do Nimis começou em julho de 1980 como a “vingança no mar” de Vilk depois de quase se afogar. Mas em entrevistas ele também disse que a obra era um comentário sobre a tendência artística predominante de que “nada era permanente”.

Na entrevsita de 2010 ao New York Times, ele comparou sua vida a um filme: 

“É uma boa história”, disse ele. “É sobre os bandidos e um mocinho, e eles tentam matá-lo.”

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