Londres – Na véspera de liderar um protesto diante do Palácio de Buckingham para cobrar da família real o reflorestamento de suas terras, o apresentador da BBC Chris Packham recebeu um recado assustador de quem parece não gostar do ativismo ambiental que pratica nas telas e fora delas: seu Land Rover foi incendiado na porta de casa.

O ataque aconteceu na madrugada de sexta-feira (8/10) na propriedade que fica em uma região rural de Hampshire, a 90 quilômetros de Londres.

Aos 60 anos, Packham tem uma vida dedicada a causas ambientais e é um das faces mais associadas ao tema meio ambiente na televisão. Atualmente apresenta o programa BBC Springwatch, e em agosto lançou um novo documentário na rede.

O apresentador não divulgou a notícia antes da marcha de sábado, que percorreu os jardins do Saint James’s Park, no centro de Londres, e terminou com a entrega de uma carta assinada por mais de 100 mil pessoas, incluindo acadêmicos e celebridades, endereçada aos maiores proprietários de terras do país.

Carro em chamas  

Na noite de sábado, Chris Packham postou em sua conta no Twitter fotos das labaredas, do portão da casa aberto e de restos do automóvel, que explodiu e ficou completamente destruído. 

Disse que as câmeras de segurança registraram imagens de dois homens mascarados e de capuz. E pediu que informações sobre a autoria do crime sejam transmitidas à polícia. 

Packham não associou o ato ao seu engajamento na campanha por rever o manejo das terras da família real, que são mantidas livres de árvores para permitir agricultura e caça. Mas seu ativismo contra a caça pode estar relacionado ao caso.

A polícia abriu uma investigação. O jornal Sunday People publicou fotos do estado do carro.

Em vídeo, apresentador pediu fim da caça 

Em um longo vídeo no Twitter após o atentado, ele pediu apoio a uma petição pelo fim da atividade:

“Assédio, abuso implacável, intimidação e agora incêndio criminoso. E o que vem a seguir. . . ? Não serei intimidado, não cederei, mas posso pedir sua ajuda? Se você é um membro do @nationaltrust, por favor, assine [a petição] para acabar com a caça aqui e agora.”

Tradições desafiadas

As duas causas que ele tem protagoizado são incômodas a pessoas mais tradicionais, por desafiarem a idolatrada família real britânica e o hábito de caçar, que faz parte da história da aristocracia do país, imortalizada em livros e pinturas. 

Incomodam também a uma parte da população que combate o chamado “politicamente correto”, uma tendência de pensamento que tem levado ao revisionismo histórico, tentando “cancelar”  personagens associados ao colonialismo e à escravidão.

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As vastas terras gramadas, com cães correndo em torno de elegantes caçadores montados em seus cavalos fazem parte deste imaginário. A família real britânica é praticante de caça em suas propriedades. 

Mas a caça é uma prática também entre pessoas que vivem em zonas rurais e não são da aristocracia, não apenas no Reino Unido mas em vários países da Europa. E se tornou um ponto de discórdia com o movimento ambiental, escalando para a violência.

A campanha para pressionar a família real a deixar as terras retomarem sua formação original, com as florestas restauradas, é um constrangimento não apenas para os Windsor mas também para o governo britânico, a três semanas do início da conferência do clima COP26, na Escócia. 

Na marcha do sábado, Chris Packham endossou o pedido de que um compromisso da família real seja anunciado antes do encontro, para dar um exemplo positivo ao mundo. 

Condecorado pela rainha 

Chris Packham tem legitimidade para falar de meio ambiente. Ele é um naturalista, fotógrafo da natureza, apresentador de televisão e autor de livros. Estudou Zoologia na Universidade de Southampton, onde nasceu, e depois formou-se em cinegrafista de vida selvagem.

Ficou conhecido nacionalmente  por seu trabalho na televisão, incluindo a série infantil CBBC The Really Wild Show de 1986 a 1995. Apresenta a série da BBC Springwatch desde 2009.

Em 2019, foi nomeado Comandante da Ordem do Império Britânico (CBE) por serviços prestados à conservação da natureza.

Abuso online impune

No vídeo em que declara sua intenção de continuar liderando campanhas em defesa do meio ambiente, Packham reclamou do assédio online que diz sofrer, com mensagens de ódio postadas em suas redes sociais. 

Ele afirmou não saber se as pessoas que fizeram o ataque representam grupos rurais ou são “ou alguns dos  trolls da Internet, que enchem minha linha do tempo de ódio?”

E reclamou da impunidade nas redes sociais, criticando a legislação atual que não permite tomar atitude contra comentários difamatórios e caluniosos. 

Em 2019, ele anunciou ter recebido uma ameaça de morte contra ele e sua família depois que ele fez campanha por medidas para proteger os pássaros contra caça.  O governo revogou na época licenças de caça de 16 espécies.

Packham disse à época que a ameaça sugeria “uma lista de coisas que eles poderiam fazer”, incluindo um acidente de carro ou envenenamento. E condenou o Facebook por não remover postagens contendo seu endereço.

Intimidação direta

No vídeo publicado após o incêndio do carro, o apresentador revelou que essas ameaças vêm se tornando realidade, com intimidações como animais mortos deixados diante de sua casa. 

Mas destacou que o incêndio do carro é um sinal de que adversários de sua causa estão agora avançando para danificar propriedades.

Ainda assim, disse que não se dobrará à pressão para apoiar atividades com as quais não concorda, como caça ilegal e caça em trilhas, desafiando os que discordam de sua posição:

“Se você acha que queimando esses portões eu de repente vou me tornar um apoiador … então você está errado.

“Vou continuar, porque não tenho escolha. Não posso e não vou deixar sua intimidação me desviar de minha causa”. 

Quanto ao seu próximo passo, ele disse: “Vou comprar portões novos e seguir em frente.”

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