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Meghan se desculpa com tribunal britânico por esconder colaboração com autores de biografia “não-autorizada”

Caso envolve processo movido pelos Sussex contra o Mail on Sunday

Meghan MarkleMeghan Markle (reprodução vídeo VaxLive)

Londres – Um dia depois de mais um ataque do príncipe Harry às mídias sociais e a parte da imprensa, acusada de “criar notícias”, Meghan Markle teve que se retratar diante da justiça britânica justamente por ter mentido sobre a colaboração para a biografia Finding Freedom (Em busca da liberdade), lançada em 2020. 

A duquesa de Sussex está processando o jornal Mail On Sunday  pela publicação de trechos de uma carta enviada a seu pai em 2018. Ela alega invasão de privacidade, o que o jornal contesta mostrando evidências que o próprio casal tornava públicos – ainda que por meio de terceiros- fatos relativos à sua vida pessoal. 

Nesta segunda-feira, o ex-assessor de comunicação do casal, Jason Knauf, testemunhou sob juramento e apresentou emails trocados com Meghan e Harry antes reuniões com os autores do livro, em que o casal dá instruções sobre o que deveria ser revelado.  

Meghan diz ter esquecido da troca de emails 

O livro foi mais um baque para a família real, com acusações de que Meghan não teria sido bem tratada, uma das razões alegadas para o rompimento em 2020 e mudança para a Califórnia. Em março, o casal reiterou as reclamações em uma entrevista-bomba concedida à apresentadora americana Oprah Winfrey

Harry e Meghan durante entrevista a Oprah. (Divulgação/Oprah Winfrey)

Por meio de seus advogados, Meghan formalizou nesta quarta-feira (10/11) um pedido de desculpas à corte, dizendo que não teve a intenção de enganar deliberadamente o tribunal.

Ela afirmou que havia esquecido da troca de emails com o assessor, que hoje comanda a comunicação da entidade beneficente de seu irmão, o príncipe William e de sua mulher, Kate Middleton. 

E atribuiu o esquecimento ao seu estado emocional abalado devido “ao estresse resultante da gravidez e as consequências do aborto espontâneo sofrido, que podem ter contribuído para o erro.”

Ela disse:

‘Admito que o Sr. Knauf forneceu algumas informações aos autores do livro e que o fez com o meu conhecimento, para uma reunião que planejou com os autores na sua qualidade de secretário de comunicações.

‘A extensão das informações que ele compartilhou é desconhecida para mim.

‘Quando aprovei a passagem… não tive o benefício de ver esses e-mails e peço desculpas ao tribunal pelo fato de não ter me lembrado dessas trocas na época.

“Eu não tinha absolutamente nenhum desejo ou intenção de enganar o réu ou o tribunal.”

Meghan acrescentou que teria ficado “mais do que feliz” em referir-se aos emails trocados com o Sr. Knauf se tivesse  se lembrado deles na época. E sustentou que as informações que autorizou aos biógrafos estão “muito longe das informações pessoais muito detalhadas que o jornal alega que eu teria desejado ou autorizado que se tornassem públicas”.

O que disse o assessor de imprensa 

A história contada por Jason Knauf é bem diferente, e foi comprovada com os emails trocados com o casal.

Ele disse que o livro foi “discutido de forma rotineira diretamente com a duquesa várias vezes em pessoa e por e-mail”, fragilizando a tese de esquecimento, já que não foi apenas uma conversa, segundo comprovou. 

Knauff disse que Meghan passou a ele informações para serem compartilhadas com os autores, os jornalistas Omid Scobie e Carolyn Durand. Uma delas é de que ela teria tido “contato mínimo” com seus meio-irmãos na infância, o que vem a calhar para neutralizar críticas dos irmãos de que ela se afastou deles depois do casamento. 

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O ex-assessor também apresentou emails trocados com o príncipe Harry, um deles informando que ele se encontraria com os autores da biografia. 

Segundo o ex-assessor, o duque respondeu: ‘Concordo totalmente que devemos ser capazes de dizer que não temos nada a ver com isso”, reforçando a intenção de que a colaboração deles para o livro não deveria ser tornada pública. 

Em uma entrevista coletiva organizada pela FPA (Associação de Correspondentes Estrangeiros) em Londres em junho de 2021, Scobie assegurou que não tinha havido ajuda do casal.

A ação de Meghan contra jornal 

O processo movido por Meghan diz respeito à carta que escreveu ao pai depois da confusão em torno de sua ausência do casamento real. 

Thomas Markle foi “desconvidado” após ter sido acusado de vazar uma foto não-autorizada antes da cerimônia, simulando que ela teria sido feita por um fotógrafo “paparazzo” sem seu conhecimento, quando ele olhava a imagem no computador.

A briga virou assunto regular na imprensa, principalmente para os tabloides sensacionalistas, embaçando o brilho do casamento de sonhos. Até então ela era tratada com simpatia pela mídia, mas a cobertura negativa sobre o problema familiar acabou sendo tomada pelo casal como perseguição indevida.

Em 2020, depois de o casal se mudar do Reino Unido para a Califórnia, Meghan abriu o processo contra a empresa Associated Newspapers, controladora do Mail on Sunday, alegando quebra de privacidade e de direitos autorais.  

Em março ela venceu uma das batalhas da guerra jurídica, com uma decisão preliminar favorável. O juiz Mark Warby recusou o pedido do jornal para apelar da decisão que deu vitória à duquesa de Sussex.

Ele se decidiu a favor de Markle, dizendo que os artigos foram uma violação clara de privacidade, apesar de o jornal argumentar que a duquesa pretendia tornar o conteúdo da carta público.

Após a sentença, os advogados da duquesa pediram 5 milhões de libras de compensação, além das custas judiciais, quantia que o Mail on Sunday considerou “desproporcional”. Posteriormente a empresa jornalística conseguiu o direito de apelar, e o processo continua tramitando. 

O depoimento com provas do ex-assessor confirmando que a corte foi enganada pode complicar a situação da duquesa.

Críticos aproveitam para questionar Meghan

Depois que os Sussex resolveram confrontar as tradições da família real britânica e confrontar seus membros abertamente, eles perderam popularidade no país, sobretudo entre pessoas mais velhas. 

Na arena pública, um dos maiores adversários de Meghan é o apresentador de TV Piers Morgan. Em março, após a entrevista dada pelo casal à apresentadora Oprah Winfrey, ele disse durante o telejornal matinal que apresentava na ITV que duvidava da veracidade do que ela tinha revelado sobre pensamentos suicidas e falta de ajuda médica.

Morgan acabou perdendo o emprego, mas manteve o que disse. Hoje, depois que a notícia do pedido de desculpas por ter negado a colaboração com o livro tomou conta das manchetes, o jornalista disse no Twitter ter tido oito meses para refletir sobre o que falou, e que continua não acreditando nela. 

Harry contra a mídia

A retratação aconteceu um dia antes de um forte ataque do príncipe Harry a setores da imprensa e às redes sociais. Participando de um painel promovido pela revista americana Wired, ele afirmou que a desinformação é uma crise humanitária que já existia antes das mídias digitais. 

Harry contou ter “aprendido desde muito cedo que a motivação para a imprensa publicar determinadas coisas não é necessariamente o alinhamento à verdade”: 

“Com base na minha experiência, acho que tem havido mais veículos de mídia anteriores às redes sociais no Reino Unido que infelizmente confundem lucro com propósito e notícias com entretenimento

Eles não relatam as notícias, eles as criam.”

Para o duque de Susssex, “eles conseguem amarrar notícias baseadas em fatos em  fofoca baseada em opinião com consequências devastadoras para o país”. 

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Luciana Gurgel
Jornalista baseada em Londres, é co-fundadora e Editora-chefe do MediaTalks. É também colunista de mídia e comunicação no J&Cia/Portal dos Jornalistas. Faz parte da FPA London (Foreign Press Association).

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