Londres – Em decisão contestada por entidades internacionais que defendem a liberdade de imprensa, um juiz da Suprema Corte de Nova York  proibiu temporariamente o jornal New York Times de publicar reportagens sobre o Projeto Veritas, uma organização conservadora que tem como alvo grupos que percebe como sendo de esquerda, incluindo jornalistas e veículos de imprensa.

O Veritas acusou o Times de “indevidamente” tentar obter comunicações privilegiadas trocadas entre um advogado e seu cliente e, em seguida, publicar os materiais para envergonhá-lo.

O juiz Charles Wood ordenou em despacho no dia 18 de novembro que o Times removesse as supostas informações privilegiadas de seu  site na internet e que se abstenha de “mais esforços” para obter informações semelhantes. O jornal poderá contestar a decisão em audiência no dia 23 de novembro. 

Projeto Veritas tem apoio de Bolsonaro

Fundada por James O’Keefe em 2011, a organização, que se apresenta como veículo jornalístico sem fins lucrativos, dedica-se a expor atividades consideradas de esquerda. Mas apesar de seu nome significar “verdade” em latim, nem todos concordam que o grupo promova a verdade.

Segundo a agência americana independente de verificação de fatos First Draft, o Veritas ampliou a desinformação sobre tópicos como vacinas contra a Covid e suposta fraude na campanha que elegeu Joe Biden.

O Projeto Veritas tem ligações com o Brasil. Em fevereiro de 2020, um dos filhos do presidente Jair Bolsonaro, Eduardo, encontrou-se com O´Keefe nos EUA e registrou a visita no Facebook, elogiando o trabalho de “expor a hipocrisia da esquerda”. 

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Em setembro passado, dois integrantes do Veritas, Jason Miller e Matthew Tyrmand, participaram do evento CPAC Brasil 2021, que reuniu integrantes da direita política e apoiadores do presidente Bolsonaro em Brasília. 

Tyrmand se reuniu também com Jair Bolsonaro e outro filho, o senador Flávio, na residência oficial do presidente, e posaram para fotos com a camisa do Veritas.

A passagem pelo Brasil foi acidentada. Miller foi detido e interrogado no aeroporto de Brasília por ordem do Ministro do Supremo Tribunal Alexandre de Moraes como parte das investigações sobre a campanha para questionar a segurança do sistema de votações antes das eleições do ano que vem. 

Jason Muller fundou a rede social Gettr, que abriga extremistas bloqueados ou suspensos das plataformas mais populares como Facebook e Twitter.

Em fevereiro, a conta do Veritas no Twitter foi suspensa depois da postagem de um vídeo em que o vice-presidente de Integridade do Facebook, Guy Rosen, foi abordado diante de sua casa. A conta de James O´Keefe também foi suspensa meses depois. 

Censura à imprensa 

“A ordem da Suprema Corte de Nova York de impedir que o New York Times publique certos materiais é profundamente preocupante. Os tribunais devem proteger o quarto estado, não impedir que as organizações de mídia façam seu trabalho e relatem questões de interesse público”, disse a coordenadora do Comitê de Proteção a Jornalistas (CPJ) para os EUA e Canadá, Katherine Jacobsen.

“Essa restrição prévia não apenas impede o livre fluxo de informações, mas é uma afronta direta ao precedente legal e à Primeira Emenda”, referindo-se ao dispositivo da Constituição americana que assegura liberdade de expressão. 

A ordem faz parte de uma ação por difamação que o Projeto Veritas entrou com o Times em 2020 por causa de sua cobertura sobre as atividades do grupo.

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Foto: Pete Linforth/Pixabay

Em uma carta ao juiz Wood, advogados representantes do Times disseram que o Projeto Veritas não tinha evidências de que o jornal tivesse obtido indevidamente os documentos em questão, e se referem à decisão judicial como “draconiana e desfavorecida”.

Em um comunicado citado na reportagem do jornal, o editor executivo do New York Times, Dean Baquet, disse que a decisão é  “inconstitucional e estabelece um precedente perigoso”:

“A Suprema Corte deixou isso claro no caso Pentagon Papers, uma decisão histórica contra a restrição prévia que bloqueava a publicação de jornalismo de interesse. Esse princípio se aplica claramente aqui. Estamos buscando uma revisão imediata dessa decisão”.

Libby Locke, advogada que representa o Projeto Veritas em seu processo de difamação contra o Times, disse ao CPJ por e-mail que a decisão do tribunal “não foi uma restrição prévia imprópria”, mas sim uma “ordem de rotina” para obrigar o New York Times a aderir às regras  no processo de difamação.

Fundador do Projeto Veritas teve casa invadida

Não é a primeira polêmica envolvendo o Projeto Veritas. Em 6 de novembro, agentes do FBI invadiram a casa de O’Keefe, em Mamaroneck, Nova York. Citando relatos da mídia americana, o CPJ afirmou que o FBI apreendeu os celulares de O’Keefe como parte de uma investigação ordenada pelo tribunal sobre o roubo de um diário pertencente a Ashley Biden, filha do presidente Joe Biden. 

O Projeto Veritas disse que as autoridades também invadiram casas de outros membros atuais e antigos da organização e confiscaram materiais não especificados. E nesse caso, recebeu apoio do CPJ.

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Imagem: divulgação

“Embora não endossemos algumas das táticas que o Projeto Veritas emprega, as recentes incursões do FBI ao fundador da organização e seus associados representam um alcance excessivo preocupante da aplicação da lei”, disse Katherine Jacobsen.

“O governo deve fornecer uma ligação clara entre os membros do Projeto Veritas e supostas atividades criminosas antes de procurar em suas casas por informações sobre o material de origem.

A realização de incursões sem esse tipo de link estabelece um precedente perigoso que poderia permitir que a aplicação da lei pesquisasse e confiscasse o material de origem não publicado dos repórteres em vagas tentativas de identificar denunciantes.”

Em uma carta de 10 de novembro, advogados representando o Projeto Veritas afirmaram que a organização recebeu o diário legalmente. Em 11 de novembro, Torres ordenou que os promotores pausassem sua “extração e revisão do conteúdo” dos telefones de O’Keefe.

No dia seguinte à publicação da notícia, Martin Feely, porta-voz principal do escritório do FBI em Nova York, disse ao CPJ em um telefonema que o departamento não comenta as investigações em andamento.

Polarização da sociedade 

A controvérsia em torno do Projeto Veritas é mais um sinal de que a polarização política e a guerra de informação e contrainformação continua nos Estados Unidos mesmo após o fim do governo de Donald Trump. 

Seus partidários continuam afirmando que as eleições teriam sido fraudadas, e apoiadores de teorias conspiratórias como o QAnon seguem acreditando que Trump pode voltar e reassumir o cargo. 

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