Londres – Os países-ilhas, como Tuvalu, Barbados e Maldivas, que são os que mais vêm perdendo com o avanço das mudanças climáticas, saíram entre os grandes vencedores da guerra de imagem da COP26, em Glasgow. 

E nessa guerra midiática, o grande destaque ficou para Tuvalu, que apresentou durante a conferência a peça de comunicação governamental mais impactante. Trata-se de um vídeo que passa bem a mensagem de que quem pode ser engolido pelas águas tem pressa, que viralizou durante a COP26. 


Esta matéria faz parte do Especial COP26 – veja o relatório 


Gravação com água pelos joelhos

No vídeo exibido durante a COP26, o Ministro da Justiça, Comunicação e Relações Exteriores, Simon Kofe, começa dizendo aos delegados da conferência que enquanto eles o assistem, Tuvalu vive a realidade das mudanças climáticas e faz um apelo:

“Não podemos esperar por discursos enquanto o mar se eleva em torno da gente sem parar.”

O objetivo foi provocar maior urgência e uma postura mais agressiva dos líderes mundiais para limitar o impacto das mudanças climáticas.

Kofe ressalta que a realização de compromissos somente em 2050, daqui a três décadas, pode ser inútil para as ilhas do Pacífico, que correm o risco de desaparecer na metade desse tempo com a subida do nível do mar.

Para ilustrar como esse perigo é iminente, ele gravou o vídeo num púlpito dentro mar, com as calças arregaçadas e as águas até os joelhos, num local que era terra firme há algumas décadas.

Início com câmera fechada dá impressão de Ministro estar em seu gabinete

O vídeo, gravado pela emissora pública TVBC no extremo de Fongafale, principal ilha da capital Funafuti, começa com a câmera fechada no Ministro. 

Num primeiro momento, a imagem dá a entender que ele está em seu gabinete, diante de um fundo azul e ao lado das bandeiras de Tuvalu e das Nações Unidas.

Logo no início, ele lança uma forte frase de efeito:

“Nós estamos afundando, mas todos também estão.”

Câmera abre e mostra Ministro – e Tuvalu – sob as águas

Kofe alerta que as mudanças climáticas e a subida do mar são ameaças mortíferas para a existência de Tuvalu e de outros países com orlas costeiras baixas, enquanto a câmera vai se afastando, mostrando a real situação em que ele – e seu país – se encontram.

O local da filmagem não foi escolhido por acaso. A locação foi feita bem em frente a uma estrutura de concreto construída pelos norte-americanos durante a Segunda Guerra Mundial para servir de base a um canhão.

O canhão era operado em terra firme pelos soldados, durante a década de 40. A filmagem mostra que a base onde ele ficava apoiado atualmente já foi engolida pelo mar, e passou a ficar a uma distância de mais de 20 metros do que hoje é terra.

Todos serão afetados

Tuvalu fica na Polinésia, bem ao sul da Oceania, e é composto por oito ilhas, onde vivem 12 mil pessoas.

O Ministro diz que as ilhas são sagradas para seu povo, por terem sido o lar de seus ancestrais e explica que o vídeo é mais do que um manifesto político:

“É um chamamento que reverbera de nossas ilhas e de nosso povo para a comunidade internacional.”

Ele alerta que se nada for feito, mais cedo ou mais tarde os efeitos mortais da crise climática não pouparão ninguém:

“Não importa se hoje, como nós em Tuvalu, ou daqui a 100 anos, todos serão afetados”.

Inviabilização de Tuvalu pode ser prenúncio do que pode acontecer com o mundo

Enquanto aguarda uma mudança de mentalidade global, Kofe diz que seu país já se prepara para o pior cenário, em que a população será obrigada a se mudar porque o seu território terá submergido. 

Ele alerta que a inviabilização de seu país pode ser um prenúncio do que pode acontecer com o planeta:

“Todos precisamos olhar para além das prioridades econômicas isoladas e focar no bem estar do mundo.”

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