Londres – O an0 vai terminar amargo para o Google. O impressionante crescimento do TikTok fez com que o aplicativo de vídeos curtos destronasse a ferramenta que é quase sinônimo de buscas na internet do posto de domínio mais popular do mundo.

A notícia foi dada pela empresa de segurança web Cloudflare, que divulgou ontem seu relatório Year in Review,  apresentando os domínios que obtiveram mais tráfego de um ano para o outro.

A conquista seguiu-se a outra boa notícia para os chineses: na segunda-feira (20/12), a ByteDance, holding do TikTok, foi apontada em um estudo global como a maior empresa unicórnio (com valor acima de US$ 1 bilhão) não listada em bolsa de valores do mundo, com um valor estimado de US$ 35o bilhões. 

A performance dos rivais do TikTok 

No ano passado, o TikTok ocupava apenas a sétima posição entre os domínios de mais alto tráfego. Este ano, desbancou não só o Google.com (que liderara o ranking anterior, incluindo Maps, Translate e News), como também Facebook, Microsoft, Apple, Amazon, Netflix, Youtube, Twitter e WhatsApp, que completam nessa ordem o Top 10 de 2021.

Segundo a Cloudfare, o aplicativo de compartilhamento de vídeo de propriedade chinesa ultrapassou o mecanismo de pesquisa americano em fevereiro, março e junho. E vem mantendo o primeiro lugar desde agosto.

Até a tomada da liderança pelo TikTok, o Google dominava, mas passou a aparecer ocasionalmente no topo a partir de agosto.

A Cloudflare classifica o Facebook como “um sólido número três”, posição que ocupou ao longo de todo o ano de 2021, exceto em outubro, quando caiu para o quarto lugar. Naquele mês, seu sistema sofreu uma pane e retirou todas as suas plataformas do ar durante algumas horas. 

Na quarta posição, o domínio Microsoft.com conta com o tráfego para o Teams e o Office 365, enquanto a Apple, que aparece logo depois, é turbinada pelo tráfego para a Apple TV.

O YouTube, que fechou o ano em oitavo lugar, liderou o ranking em um único dia. Foi em 2 de fevereiro de 2021, quando estrearam alguns comerciais do Superbowl.

O tráfego daquele dia também foi ajudado por um vídeo do golpe em Mianmar que tinha acontecido na véspera e que foi amplamente compartilhado na plataforma.

Pandemia ajudou crescimento do TikTok

Muitas dessas empresas ganharam terreno com a pandemia. O confinamento impulsionou as compras online em vários países, aumentou o tempo disponível para assistir filmes e séries via streaming e fez com que os serviços de mensagem fossem a forma mais regular de contato com familiares e amigos. 

No entanto, de todas elas o  TikTok foi a que mais se beneficiou do isolamento. Antes da pandemia, o aplicativo era popular principalmente entre os adolescentes, e poucos apostavam que ele poderia agradar aos adultos.  

No entanto, com o isolamento social, usuários de faixas de idade mais altas começaram a participar, e tomaram gosto pela coisa.  A empresa de pesquisas Statista constatou  um aumento de 180% entre os usuários americanos do TikTok na faixa de 15 a 25 anos no ano passado.

TikTok foi baixado mais de 3 bilhões de vezes em julho

O crescimento do TikTok já tinha sido detectado antes. 

Em setembro, um relatório da consultoria App Annie revelou que o aplicativo chinês havia ultrapassado no segundo trimestre deste ano o YouTube nos Estados Unidos (EUA) e Reino Unido em tempo médio de vídeos assistidos por seus usuários. 

A métrica de tempo gasto da App Annie contabiliza apenas audiência nos telefones Android e não inclui a China, onde o TikTok — conhecido localmente como Douyin — é um dos principais aplicativos.

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Em julho, o aplicativo bateu 3 bilhões de dowloads. Essa marca só tinha sido atingida anteriormente pelo Facebook, de acordo com a empresa de dados Sensor Tower.

Criado pela chinesa ByteDance, o TikTok foi lançado globalmente em 2018, quando se fundiu com o Musical.ly, um aplicativo que permite aos usuários compartilhar vídeos de si mesmos sincronizando os lábios com músicas.

Esse conteúdo é um pilar do TikTok hoje, embora os criadores também tenham encontrado popularidade fazendo milhões de outros vídeos sobre temas variados como fitness e culinária.

Com o sucesso, marcas globais passaram a pagar criadores de conteúdo para comercializar seus produtos no aplicativo.

Marcas globais atraídas para o TikTok

Com a criação do TikTok World, plataforma dedicada a marcas interessadas em exibir conteúdo na rede social, a rede deu mais um passo para disputar as verbas publicitárias com outras plataformas. 

“Quando as marcas ingressam no TikTok, dizemos a elas que pensem como profissionais de marketing e ajam como criadores. Um total de 61% dos nossos usuários dizem que os vídeos no TikTok são mais exclusivos do que em qualquer outra plataforma, e 7 em cada 10 dizem que os anúncios do TikTok são agradáveis”, afirma a empresa. 

Um dos exemplos é o da grife americana Marc Jacobs, que usou a plataforma para uma campanha do perfume Perfect.

@sofiawylie

I am PERFECT! Join the #PerfectAsIAm challenge by duetting @rickeythompson ‘s video and show the world your PERFECT self! #MJPerfect #fyp

♬ #PerfectAsIAm – PERFECT MARC JACOBS x Lizzo x Rickey Thompson

O desafio #PerfectAsIAm foi estrelado pelo ator e estrela da internet Rickey Thompson. A comunidade foi incentivada a criar um dueto lado a lado com o vídeo de Ricky. 

Segundo o TikTok, em março de 2021 os vídeos do #PerfectAsIAm acumularam 10,1 bilhões de visualizações em todo o mundo. 

Algoritmo é apontado como a chave do sucesso

O crescimento do TikTok pode surpreender a alguns, mas não a todos.  

Em um artigo assinado no site da Nasdaq, a maior bolsa de tecnologia do mundo, o analista investimentos Adam Levy deu a sua opinião sobre o motivo pelo qual a rede social chinesa estava se tornando para o Facebook e para o Google um adversário mais difícil de combater do que fora o inimigo doméstico Snapchat há alguns anos. 

Com o título “Os clones do Facebook e do Google não impedem o crescimento do TikTok”, o analista antecipava que iniciativas das duas gigantes não seriam capazes de conter o avanço do aplicativo chinês.

Para ele, o algoritmo é a explicação. O algoritmo do TikTok, guardado a sete chaves, mantém os usuários viciados ao recomendar constantemente novos vídeos para eles assistirem.

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Crescimento do TikTok não foi ameaçado por pedras no caminho

Embora não tenha sofrido os ataques e a crise de imagem vivida pelo Facebook em 2021, que foi responsabilizado pelos males causados a jovens usuários do Instagram, o TikTok também teve que contornar problemas.  Mas não foram suficientes para impedir o crescimento. 

Em vários países, os desafios propostos na plataforma alarmaram autoridades e críticos dos efeitos das mídias sociais sobre a vida real. A empresa foi obrigada a tirar vários deles do ar. 

Nos Estados Unidos, a ideia de gravar vídeos subindo em frágeis blocos de embalagens causou acidentes e ferimentos. 

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Em setembro, na volta às aulas no hemisfério norte, o desafio era vandalizar banheiros de escolas, iniciativa que despertou a ira de diretores assustados com o roubo de mobiliário e destruição de pias e vasos sanitários.

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Mais sério, no entanto, é o drama do suicídio associado à plataforma de vídeos curtos. 

Também em setembro, a rede social anunciou um conjunto de recursos para ajudar os usuários com problemas de saúde mental e pensamentos suicidas, e além disso expandiu o conteúdo de prevenção a transtornos alimentares. 

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A mudança foi uma reação aos questionamentos sobre os efeitos do TikTok no bem estar dos usuários, sobretudo depois do caso ocorrido em 2020, quando o filme de um americano cometendo suicídio viralizou na plataforma, alarmando pais de crianças que tiveram acesso às imagens. 

Pisando em ovos na China 

Na esfera política, a situação também desperta cuidados.

A ByteDance, dona da marca, chegou a anunciar uma oferta pública inicial de ações (IPO), mas voltou atrás em março, após reuniões com reguladores do governo chinês, que aparentemente não gostaram da ideia. 

Ainda assim, a holding lidera a lista de startups fundadas nos anos 2000 que ainda não estão listadas em bolsa com valor superior a US$ 1 bilhão (as chamadas empresas unicórnio).

O levantamento foi feito pelo Hurun Research Institute, que listou 1.058 empresas unicórnios este ano, o que representa um aumento de 472 em relação ao ano passado. 

Os  EUA lideraram com 487 empresas desse tipo, 254 a mais do que em 2020. Em seguida aparece a China com 301. A Índia ultrapassou a Grã-Bretanha para ocupar o terceiro lugar, com 54.

Com sede em Pequim, a ByteDance teve seu valor de mercado elevado de  US$ 270 bilhões para US$ 350 bilhões, superando o Ant Group, com sede em Hangzhou, que perdeu seu título de unicórnio mais valioso do mundo para a dona do TikTok.

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