Londres – O príncipe Andrew sairá de seus cargos militares e participação em instituições de caridade, e se defenderá no processo de agressão sexual a que responde nos EUA como um “cidadão privado”, anunciou o Palácio de Buckingham nesta quinta-feira (12/1), no mesmo dia em que uma carta dura foi enviada à rainha por 150 veteranos e chefes militares. 

O comunicado oficial menciona a própria rainha na aprovação da decisão, o que não seria necessário a não ser como forma de dar uma forte demonstração pública de que Elizabeth II não está acobertando o envolvimento do filho em denúncias de assédio sexual. 

“Com a aprovação e o acordo da rainha, as afiliações militares e o a afiliação real do duque de York foram devolvidos à rainha”, disse o palácio em comunicado.

Príncipe Andrew sem funções públicas 

O comunicado não deixa claro se a devolução dos títulos foi “a pedido” da rainha, mas a maioria da imprensa britânica noticiou como a monarca tendo removido as honrarias e cargos, mesmo entendimento dos comentaristas que analisam fatos sobre a monarquia na mídia. 

A palavra mais usada nas reportagens online publicadas logo após a nota oficial foi “strip” (arrancar).

Fontes mencionadas pelos jornais atribuíram a decisão ao príncipe Charles, herdeiro do trono, com participação de seu filho, William. 

A nota diz ainda que “o duque de York continuará a não assumir nenhuma função pública e se defenderá no caso como cidadão privado”. Ele já vinha afastado de compromissos oficiais desde que o escândalo tomou proporções maiores. 

Ele deixará de usar o título “Sua Alteza Real”, como os príncipes são chamados, o que foi tratado como extrema humilhação.

Harry e Meghan também deixaram de usar os títulos quando se afastaram da família para viver nos EUA. 

Uma das implicações do que foi anunciado vai além de honras. Com o distanciamento oficial, provavelmente a monarquia não pagará despesas do processo, como vinha fazendo até então, o que gerou críticas nas redes sociais e na imprensa. 

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Kate Middleton (foto: Paolo Roversi/divulgação The Duke and Duchess of Cambridge)

A decisão sobre o príncipe Andrew  foi anunciada um dia depois de a justiça americana ter negado o pedido de arquivamento do processo de agressão sexual movido por Virginia Giuffre, com quem ele teria mantido relações sexuais quando ela era menor de idade pela lei americana. 

O pedido havia sido feito com base em uma indenização recebida por Giuffre do pedófilo Jeffrey Epstein, de quem o príncipe era amigo e que aproximou os dois. 

Epstein cometeu suicídio na cadeia em 2019, antes de ser julgado. O juiz que deliberou sobre o caso entendeu que cláusulas que impediam a mulher de acionar amigos do americano não se aplicavam ao duque de York, que não é citado no documento. 

Carta de militares contra o duque de York forçou decisão

O anúncio aconteceu no mesmo dia em que mais de 150 veteranos militares escreveram à rainha para pedir que ela retirasse Andrew de seus nove cargos militares honorários. O palácio não comentou a correspondência, mas agiu rápido desta vez. 

“Se fosse outro oficial militar de alto escalão, seria inconcebível que ainda estivesse no cargo”, disseram eles na carta à rainha. 

Os veteranos dizem em sua carta, que foi parcialmente coordenada pelo grupo republicano Republic: “Os oficiais das forças armadas britânicas devem aderir aos mais altos padrões de probidade, honestidade e conduta honrosa.

“Esses são padrões dos quais o príncipe Andrew ficou muito aquém. É difícil não ver, quando oficiais superiores o descrevem como ‘tóxico’, que ele trouxe descrédito aos serviços aos quais está associado.

“Estamos, portanto, pedindo medidas imediatas para destituir o príncipe Andrew de todas as suas patentes e títulos militares e, se necessário, que ele seja dispensado sem honras”.

A carta termina com um pedido direto e pessoal à rainha, que muitos dizem considerar Andrew como seu filho “favorito”. Afirma:

“Entendemos que ele é seu filho, mas escrevemos na qualidade de chefe de estado e comandante-chefe do exército, marinha e força aérea. Essas medidas poderiam ter sido tomadas a qualquer momento nos últimos 11 anos. Por favor, não deixe isso mais tempo.”

Audiências do processo devem expor o príncipe 

Virginia Giuffre, de 39 anos abriu uma ação civil  em Nova York alegando dizendo ter sido foi aliciada para fazer sexo com os amigos de Jeffrey Epstein quando tinha 17 anos, e pede uma indenização (os valores não foram revelados). 

O príncipe Andrew nega veementemente as acusações contra ele, mas fotos mostram os dois na casa em Londres da ex-socialite Ghislaine Maxwell, companheira e auxiliar de Epstein, na noite em que os dois teriam ficado juntos.

Maxwell foi condenada em dezembro a 70 anos de cadeia por aliciamento e tráfico de menores. 

Jornais da manhã da quinta-feira destacavam o impacto negativo da decisão do juiz americano, o que pode ter ajudado a precipitar a decisão de excluir Andrew. 

A medida do Palácio de Buckingham é uma forma de mitigar os danos à imagem da monarquia no ano em que a rainha comemora 70 anos no trono, e prepara grandes celebrações. 

Sem conseguir derrubar o processo em Nova York, Andrew vai passar por um período de alta exposição pública negativa, tendo que prestar depoimento sob juramento. 

O duque de York poderia evitar a continuidade do caso fechando um acordo com Giuffre e encerrando o processo, mas sua biografia continuaria manchada, pois as acusações ficaram valendo para sempre. 

Segundo o tabloide britânico Daily Mail, mesmo que decida não fazê-lo, ele não pode ser obrigado a comparecer em Nova York para se defender por se tratar de uma ação civil em outra jurisdição legal. 

Mas isso não poupará a monarquia de constrangimentos.

O jornal afirma que a ex-mulher do duque, Sarah, a duquesa de York  e suas filhas Beatrice e Eugenie também devem ser convocadas para falar sobre a vida sexual e os álibis de Andrew.  

O mesmo poderia acontecer com o príncipe Charles, mencionado por Andrew em uma entrevista à BBC sobre a história. 

Até hoje ele veio negando evidências com justificativas que viraram chacota, chegando a dizer que não lembrava de ter estado com Virginia Giuffre apesar da foto com a mão em sua cintura, e de testemunhas dizerem que sabiam dos encontros entre eles. 

Durante o julgamento de Ghislaine Maxwell, uma amiga da jovem relatou uma troca de mensagens entre elas em que Virginia contava ter passado a noite com Andrew. 

Sem provas para defender o príncipe 

No fim de dezembro, advogados haviam tentado derrubar o processo contra Andrew sob o argumento de que Giuffre mora na Austrália e não nos Estados Unidos, mas um juiz federal negou o pedido. 

Em seguida, a defesa informou à Corte que não atenderia a uma solicitação do juiz para apresentar provas de algumas de alegações que comprovariam que Andrew não estava com a jovem na noite em que ela diz ter feito sexo com ele. 

Uma delas virou piada nas redes sociais.

Em uma desastrosa entrevista para a BBC para rebater as acusações, em 2019, o duque de York disse que não era verdade que ele suava, como disse Giuffre ao contar que haviam dançado juntos em uma boate, porque tinha uma condição médica adquirida na Guerra das Malvinas que o impedia de transpirar. 

Fotos do príncipe suado pipocaram na imprensa de celebridades e nas redes sociais, tornando-se motivo de chacota. 

O outro álibi era de que na noite em que a mulher diz ter feito sexo com o duque de York na residência de Ghislaine Maxwell ele teria levado a filha a uma festinha na Pizza Express.

Só que a defesa não conseguiu nenhum funcionário, pai ou mãe de amiguinhas ou ainda registros da segurança comprovando que ele estava lá. 

Jubileu de Platina da rainha Elizabeth 

O desastre de imagem para a família real é uma sombra para as comemorações pelos 70 anos de Elizabeth II no trono. 

Os eventos do jubileu de platina vêm sendo anunciados há meses, em uma espetacular ação de comunicação destinada a fortalecer a imagem da monarquia diante dos súditos e ajudar em sua continuidade. 

Grupos contrários à monarquia utilizam esses fatos para sustentar a tese de que Elizabeth II não deveria ser substituída pelo primeiro na linha de sucessão, o príncipe Charles, nem por mais ninguém. 

Embora a família real tente ficar distante de escândalos e empurrar ondas negativas com exibições do charme real e o carisma de Elizabeth II, foi difícil evitar atitudes mais drásticas em relação ao duque de York.

O comentarista real da Sky News, Alastair Bruce, disse que o anúncio desta quinta-feira é uma “declaração clara da rainha de que o duque de York não participará de nenhum evento real por enquanto”, especialmente festejos do jubileu.

Ele acrescentou: “Esta é uma resposta para a grande questão sobre qual papel ele poderia  desempenhar na família. E ele está se afastando completamente, agora que a rainha está tomando seus cargos”. 

“É uma situação muito difícil para a rainha, porque ela não é apenas uma monarca, mas uma mãe”, disse ele. 

O título de Duque de York não foi mencionado no comunicado do Palácio de Buckingham, mas na semana passada a possibilidade de que ele também venha a a perdê-lo também foi alvo de especulações. 

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