Filmes e programas de televisão produzidos por grandes estúdios foram “branqueados” há muito tempo em  uma “epidemia de invisibilidade” para mulheres, minorias e pessoas LGBTQIA+ –  e o Oscar não ficou de fora da falta de diversidade. 

É o que apontam diversos estudos da área nos últimos anos, fazendo da premiação, um dos eventos mais midiáticos do mundo, uma vitrine da falta de diversidade em Hollywood, que a academia tenta agora reverter. 

Uma análise dos vencedores nas principais categorias em 93 anos de Oscar feita pela emissora britânica Sky News revelou o raio-X dos vencedores da estatueta dourada: a maioria deles é homem, branco e norte-americano.

Oscar ignora diversidade há mais de 90 anos

A premiação mais importante da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas é tida como a consagradora do que há de melhor no cinema mundial.

Mas movimentos como #OscarsSoWhite, Time’s Up e #MeToo escancararam a verdade: o Oscar ignora a diversidade racial, étnica e sexual em seus escolhidos para disputar e vencer a premiação.

Parte disso é reflexo de quem integra o grupo que escolhe produções aptas a concorrer. Nos últimos anos, a Academia expandiu significativamente seu corpo de votação, convidando centenas de novos membros.

Isso parece ter feito uma mudança significativa. Em 2021, a lista de finalistas do Oscar contou com duas diretoras — com elas, subiu para sete o número mulheres indicadas na categoria em toda a história do Oscar (a cerimônia deste ano será a 94ª).

O prêmio foi ganho por Chloe Zhao, com “Nomadland”, que se tornou apenas a segunda mulher a vencer na categoria 11 anos depois de Kathryn Bigelow, por “Guerra ao Terror”, em 2010.

Nascida na China, Zhao também foi a primeira mulher de origem étnica diversa a ganhar o prêmio.

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No Oscar, vencem mulheres jovens e homens velhos

Não é nenhum segredo que as mulheres têm uma vida útil muito mais curta do que os homens em Hollywood. Para as atrizes, a juventude é valorizada, enquanto para os atores, o amadurecimento é recompensado.

Em 2021, aos 83 anos e 115 dias de idade, Anthony Hopkins se tornou o ator mais velho a vencer na categoria principal em 93 edições do Oscar.

Aos 63 anos, Frances McDormand se tornou a terceira mulher mais velha a vencer como Melhor Atriz por “Nomadland” — mas ainda é 20 anos mais nova do que o recorde da categoria masculina.

A análise da Sky News mostra que as atrizes vencedoras do Oscar são, em média, nove anos mais novas que seus colegas homens.

A idade média do vencedor do sexo masculino é 46 anos; das vencedoras, 37 anos.

A diferença é maior nas categorias de ator e atriz coadjuvantes, onde, em média, os homens são 10 anos mais velhos que as mulheres.

A mulher mais jovem a ganhar o prêmio de Melhor Atriz é Marlee Matlin, que tinha 22 anos quando venceu na categoria por “Filhos do Silêncio”, em 1987. Ela também é a única artista surda a ganhar um Oscar.

O homem mais jovem a levar a estatueta por Melhor Ator é Adrien Brody, que foi nomeado o vencedor por seu papel em “O Pianista”, em 2003, aos 30 anos.

Até a vitória de Hopkins, os vencedores mais velhos realmente contrariaram a tendência.

Jessica Tandy recebeu a honraria aos 81 anos por “Conduzindo Miss Daisy”, em 1991, enquanto Henry Fonda — que detinha o recorde por 39 anos – tinha 77 anos quando venceu por seu papel em “Num Lago Dourado”, em 1982.

Mas Tandy e Fonda eram a exceção à regra. No levantamento, a Sky News identificou que apenas 28 mulheres com 40 anos ou mais já ganharam o Oscar como Melhor Atriz, em comparação com 62 homens nomeados como Melhor Ator, evidenciando a falta de diversidade na história da premiação. 

No outro extremo da tabela, Brody continua sendo o único ator com menos de 30 anos a ganhar o prêmio, em comparação com 32 atrizes.

Nas categorias coadjuvantes, 42 mulheres com 40 anos ou mais ganharam o prêmio, contra 67 homens. Dezessete mulheres com menos de 30 anos ganharam o prêmio, em comparação com apenas quatro homens.

Curiosamente, na última década a idade das mulheres vencedoras tem aumentado e é possível ver uma tendência crescente.

Quando se olha para as outras categorias que não são divididas em masculino e feminino, a disparidade é gritante. As roteiristas do sexo feminino representam menos de 10% dos vencedores ao longo de 93 anos.

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Sem diversidade étnica: a vitória é para os brancos

Em 2016, pelo segundo ano consecutivo, nenhum ator de comunidades etnicamente diversas foi indicado nas categorias de atores principal ou coadjuvante, provocando o movimento #OscarsSoWhite (Oscars tão brancos) nas redes sociais.

A análise da Sky News identificou que em todas as quatro categorias de atuação, além de direção e roteiro, apenas 53 vitórias do Oscar foram para pessoas de origens etnicamente diversas — metade delas foi na última década.

Sete desses vencedores receberam mais de uma estatueta dourada: Alejandro Gonzalez Iñarritu tem três, enquanto Ang Lee, Anthony Quinn, Denzel Washington, Alfonso Cuáron, Mahershala Ali e Bong Joon-ho têm dois.

Sidney Poitier foi o primeiro negro a ganhar o Oscar de ator principal, por “Uma Voz na Sombras”, em 1964 — 35 anos após o início da premiação. O segundo foi Denzel Washington, com “Dia de Treinamento”, quase 40 anos depois.

O último negro a ganhar o Oscar de Melhor Ator foi Forest Whitaker, por “O Último Rei da Escócia”, em 2006; a última pessoa etnicamente diversa foi Rami Malek, com “Bohemian Rhapsody”, em 2019.

Para as mulheres negras, as estatísticas são ainda mais chocantes.

A vitória de Halle Berry em 2002, por seu papel em “A Última Ceia”, foi histórica. Após 73 anos do Oscar, ela foi a primeira mulher negra a receber o Oscar de melhor atriz principal. Vinte anos depois, ela continua sendo a única.

Em 2017, Mahershala Ali se tornou o primeiro ator muçulmano a ganhar um Oscar. Ele foi premiado como Melhor Ator Coadjuvante por “Moonlight”. Mais tarde, ele acrescentou à marca histórica a sua segunda vitória de Ator Coadjuvante por “Green Book”, em 2019.

Na categoria de Melhor Diretor, Ang Lee se tornou o primeiro indicado asiático a ganhar o prêmio, por “Brokeback Mountain”, em 2006. Em 2020, o prêmio de direção foi para Bong Joon-ho, de “Parasita”.

A Sky News destaca que a lista de finalistas de 2021 apresentou as indicações mais diversas de todos os tempos, com nove dos 20 atores concorrendo pertencentes a origens etnicamente diversas. Pela primeira vez na história do Oscar, a maioria dos indicados a melhor ator principal não eram brancos.

A lista deste ano apresenta quatro atores de origens etnicamente diversas entre os 20 concorrentes.

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E o Oscar vai para… os EUA, em mais um sinal da falta de diversidade

Apesar de se rotular como uma premiação do cinema mundial, o Oscar, em sua essência, é uma premiação de e para norte-americanos.

Por isso, não surpreende que a análise da Sky News revele que cerca de 543 prêmios nas seis categorias analisadas foram para artistas dos Estados Unidos, o que representa quase três quartos (74%) do total desde 1929.

Os britânicos vêm em segundo lugar, mas com apenas 91 vitórias (13%). Apenas França e Itália também somam dois dígitos, com 12 e 11 prêmios, respectivamente. Canadá, Austrália e México têm nove.

Katharine Hepburn detém o título de maior atriz vencedora da categoria principal, tendo recebido quatro Oscars de Melhor Atriz ao longo de quase 50 anos, por “Morning Glory” (1934), “Adivinhe quem vem para jantar” (1968), “O Leão no Inverno” (1969) e”Num Lago Dourado” (1982).

Contrariando as estatísticas, o britânico Daniel Day-Lewis é o ator com mais prêmios na categoria principal, por “Meu Pé Esquerdo” (1990), “Sangue Negro” (2008) e “Lincoln” (2013).

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