Londres – Conhecida pela maestria com que administra sua imagem, a monarquia britânica raramente erra em sua comunicação, sendo considerada um modelo de eficiência em relações públicas – mas a magia quebrou no tour do príncipe William e Kate Middleton ao Caribe. 

Os sagazes assessores da chamada “Firma” não calcularam bem os riscos da viagem de dez dias a Belize, Jamaica e Bahamas, que terminou no fim de semana passado. 

Era para ser uma “ofensiva de charme” destinada a estancar movimentos republicanos que ganham força nas ex-colônias britânicas à medida que a idade da rainha Elizabeth II avança, mas o efeito foi desastroso. 

Willlian e Kate foram melhorar imagem da monarquia nas colônias 

Em novembro passado, um constrangido príncipe Charles tinha presenciado em Barbados o fim da era em que sua mãe era a chefe de estado do país.

Mas o futuro rei ocupa apenas o sexto lugar em admiração entre os membros da família real.

Nada mais natural em uma ação de relações públicas tão importante para tentar evitar futuro semelhante em outros países do que escalar para o “tour salva-monarquia” os dois mais populares integrantes do clã, William e Kate.

Em uma pesquisa recente, a duquesa de Cambridge foi apontada como a mais admirada da família após a rainha, ganhando até do marido, segundo da linha de sucessão do trono. 

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Kate Middleton em viagem à Dinamarca (divulgação Kensington Palace via Twitter)

O que os estrategistas de comunicação e os próprios integrantes da família real não avaliaram é que os tempos mudaram. E que a admiração a pessoas carismáticas e simpáticas como William e Kate não se traduz necessariamente em apoio ao regime que representam. 

A fórmula do tour real com desfiles em carro aberto, uma princesa exibindo trajes espetaculares a cada compromisso, beijos em crianças e dança com nativos funcionou durante muitos anos, até no Brasil.

Em 1968, Elizabeth II esteve no país e chegou a entregar um troféu a Pelé no Maracanã.

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(Imagem: Arquivo Nacional / Divulgação Itamaraty)

Em 1978 foi a vez de Charles, que protagonizou uma inesquecível demonstração da falta de habilidade de requebrar em um dueto com a sambista Pinah, que entrou para a história. 

O tour de William e Kate no Caribe também teve dancinha, mas não teve graça o tempo todo. 

Logo na chegada casal foi obrigado a cancelar a visita a uma fazenda em Belize, por reação da comunidade, que entre outras coisas ficou revoltada pela autorização para o helicóptero pousar em seu campo de futebol.

Manifestações aconteceram em várias cidades visitadas. Os primeiros-ministros falaram abertamente de seus planos republicanos.

Uma foto do casal cumprimentando admiradores protegidos por uma cerca virou gafe planetária e tornou-se motivo de debates nas redes sociais. 

O que deu errado no plano de relações públicas 

Os assessores − e os próprios William e Kate − devem ter se perguntado por que uma situação como aquela do cumprimento tendo grades a separar os reais dos súditos, que se repetiu tantas vezes, foi mal interpretada.

A resposta tem a ver com a passagem do tempo. Acabou a época da inocência, e as redes sociais podem ter um papel nisso.

Quando a população de países coloniais era informada apenas por uma mídia local extasiada na presença da realeza e por jornalistas que acompanhavam a comitiva, quem tinha ideias diferentes não tinha voz.

Agora, com as redes sociais, eles falam e são ouvidos. Questionam o colonialismo, o racismo e a falta de oportunidades para os imigrantes nos países que os dominaram por tanto tempo.

Um dos grande traumas do Reino Unido é o tratamento dado à chamada “geração Windrush”, em alusão ao navio que trouxe para o país os primeiros imigrantes jamaicanos.

Em 2018, o governo teve que se desculpar porque continuava a ameaçar descendentes dos imigrantes de deportação, em pleno século 21.

Ação de relações públicas com William e Kate expôs monarquia a riscos desnecessários 

Quem comanda a exposição pública de empresas ou pessoas sabe que nem sempre é possível evitar situações que podem gerar conflito com opositores ou má percepção da sociedade. 

Mas o erro colossal dessa viagem − difícil de acreditar que tenha sido cometido por gente tão competente em comunicação − foi criar uma situação desnecessária.

Não havia obrigação de William e Kate viajarem ao Caribe. Como ação de relações públicas, o tour foi uma ideia infeliz e um projeto mal planejado, que poderia ter sido abortado se alguém tivesse pesquisado mais sobre o humor dos anfitriões em relação ao futuro da monarquia em seus países.

Ou ter um roteiro diferente, sem desfiles e demonstrações de engajamento com os locais que acabaram comparadas ao tratamento histórico dado a eles, e à pobreza desses países enquanto a realeza vive em um mundo de conto de fadas. 

Foi a primeira grande turnê desde o Black Lives Matter, das acusações de Meghan Markle de racismo na família real e dos protestos contra a escravidão. Não dá para comparar a reação da sociedade antes e depois de tudo isso. Mas a fórmula do tour foi a mesma dos tempos da inocência.

Alguns jornalistas britânicos especializados na cobertura de assuntos da monarquia que acompanharam a viagem tentaram amenizar o desastre, argumentando que nem tudo foi tão negativo localmente como reportado pela mídia internacional.

Pode até ser, pois o encantamento com a realeza ainda existe, e em várias ocasiões da visita eles foram recebidos pelo povo com carinho e simpatia.

Mas o saldo foi mais negativo do que positivo nas ilhas, com manifestações diretas dos primeiros-ministros sobre a intenção de migrar para o sistema republicano. 

Sendo o tour uma ação de relações públicas destinada a neutralizar as tentativas de colocar fim à monarquia, e não de angariar apoio popular, ele falhou inteiramente em seu objetivo. 

O príncipe William chegou a se dizer em um discurso “horrorizado” com a escravidão do passado, porém sem pedir desculpas, o que virou mais um motivo de controvérsia. 

No Reino Unido, o noticiário negativo em torno da visita alimentou conversas nos grupos anti-monarquistas, cada vez mais bem organizados. 

O duque de Cambridge acusou o golpe. No final, disse: “Turnês são uma oportunidade de refletir. Você aprende muito”.

A idade avançada de Elizabeth II e suas recentes demonstrações de saúde frágil fazem aumentar as conversas sobre a possibilidade de que no futuro o Reino Unido não tenha um rei ou rainha. 

Poucos acreditam que isso possa acontecer na prática, tanto pela dificuldade em mudar o regime quanto pelos lucros gerados em turismo, negócios e influência global. Já nas colônias a história deve ser diferente, como William e Kate sentiram na pele. 

No entanto, ainda que a monarquia não caia tão cedo no Reino Unido, certamente caiu a magia da competência dos que gerenciam as atividades de relações públicas da monarquia.

A exemplo de William, eles também devem ter aprendido algumas lições com o fiasco. 

Uma das imagens da viagem dos Cambridge foi um mergulho nas águas transparentes de Belize, em que os representantes da monarquia nadaram ao lado de tubarões.

As cenas podem ser interpretadas como uma metáfora involuntária para simbolizar a ofensiva de charme que teve efeito contrário. 

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