Londres – Há tempos a BBC vem enfrentando uma sucessão de crises – incluindo um caso de abuso sexual praticado por um ex-apresentador de uma de suas rádios – que pode ser metaforicamente comparada a uma pessoa se debatendo em uma ressaca no mar, surpreendida por uma nova onda quando parecia ter se livrado da última.

O anúncio de um investimento de £ 1 bilhão em um sistema de pesquisas internas fornecido por uma empresa do Vale do Silício, feito esta semana em meio a uma temporada de corte de verbas e de cabeças, tinha poucas chances de escapar incólume, fazendo a rede ter que se explicar. 

Na verdade, a corporação não precisa gastar tanto para descobrir o grau de insatisfação e os motivos para ela. Um deles é uma situação envolvendo uma ex-estrela da casa, o DJ Tim Westwood, que remete ao maior escândalo da BBC em seus 100 anos, o caso Jimmy Savile

Apresentador marcou história por abuso sexual 

O apresentador, meio esquisitão e extremamente carismático, era uma celebridade internacional. Começou da mesma forma que Westwood, como apresentador de programas de paradas musicais. 

Mas escondia um lado negro de predador sexual que só veio a público depois de sua morte, em 2011.

Foi uma mancha na história da BBC, acusada de não ter tomado providências quando alertada, por medo do escândalo ou para não perder sua estrela. E também no restante da imprensa, que igualmente teria se omitido no caso. 

O Savile versão 2022 é Westwood, hoje com 64 anos. Ele comandava o primeiro programa de rap transmitido nacionalmente na rádio do Reino Unido até 2017.

E era do elenco da casa quando a farsa Savile foi desvendada. Estranhamente, nenhuma suspeita se levantou contra ele, pelo menos publicamente. 

Em abril deste ano, uma investigação do jornal The Guardian e da própria BBC revelou sete acusações de assédio e abuso sexual do apresentador quando ele trabalhava na emissora. 

As mulheres, todas negras, eram artistas aspirantes atraídas por Westwood em busca de uma oportunidade. Uma tinha 14 anos.

O enredo é o mesmo de casos semelhantes que de tempos em tempos abalam o mundo artístico ou corporativo, envolvendo convite para encontros “profissionais” em hotéis e abusos físicos.  

E as comparações com Saville viraram tema recorrente nas redes, como esta fusão da figura dos dois apresentadores. 

As denunciantes contaram suas histórias em um documentário exibido pela BBC3, com o sugestivo nome de Abuso de Poder. Outras vieram a público depois fazendo novas denúncias.

No fim de abril, em reação às denúncias de abuso sexual o apresentador Tim Westwood deixou seu programa de rádio Capital Xtra e também os shows que fazia no Reino Unido e em vários países. 

Gestão da crise 

Pior do que uma crise é uma crise mal gerenciada.

Quando o caso explodiu, o diretor-geral da BBC, Tim Davie, disse não haver evidências de reclamações anteriores. Na primeira semana de julho, admitiu que pelo menos um dos casos de abuso sexual envolvendo o apresentador tinha sido denunciado à polícia.

Seja por desconhecimento − o que é difícil crer em se tratando da gravidade do tema − ou por uma esperança vã de que a crise fosse embora, a posição soou como tentativa de acobertamento.

Também é questionável tentar amenizar sob o argumento de que os abusos não ocorreram dentro da BBC ou com funcionárias, como fez a corporação em seu comunicado oficial. 

Mesmo que tivessem ocorrido em contextos pessoais, já seria motivo para avaliar se tal funcionário era digno de continuar na equipe.

Assédio e abuso sexual são crimes. E se uma empresa tem conhecimento de que um integrante de sua equipe matou ou roubou, dificilmente o manteria no cargo. 

Mas este nem foi o caso no escândalo do apresentador. Os episódios narrados pelas vítimas  tinham relação direta com a posição profissional de Westwood. Por isso, nas redes sociais muita gente pede investigação sobre a conduta da rede.

A BBC também foi criticada pela forma como tratou o assunto. Nas redes sociais, muitos posts salientavam o uso da expressão “have sex with” (fez sexo com…) para descrever as relações mantidas com uma menina de 14 anos quando ele tinha 30, o que na verdade configura estupro. 

O momento para esse tipo de controvérsia não podia ser pior, com o governo de Boris Johnson colocando em marcha um plano de corte de verbas e de poder.

Abuso sexual de apresentador e outras crises

O caso de abuso sexual do apresentador Jimmy Savile parece não ter ensinado muito à BBC sobre como lidar com a crise de Tim Westwood, nem durante nem depois. E não é a única crise do momento.

Na semana passada a rede teve que se desculpar e indenizar a ex-babá dos príncipes William e Harry por acusações de que teria tido um romance com o príncipe Charles, feitas na época da famigerada entrevista com a princesa Diana.

Talentos como Emily Maitlis, que fez a entrevista com o príncipe Andrew dentro do Palácio de Buckingham sobre o escândalo de assédio sexual responsável por uma crise que resultou em seu afastamento da vida pública, estão indo embora.

O relatório anual dos maiores de salários pagos pela emissora foi criticado pelos valores e por alguns aumentos em tempos de crise.

Este mês, os jornalistas foram informados de um plano de cortar £ 8 milhões por meio da fusão dos canais de notícias britânicos e internacionais da BBC e redução da cobertura doméstica.

Uma pesquisa interna feita entre funcionários da BBC e vista pelo jornal The Times apontou que menos da metade da equipe se disse animada com o futuro da corporação. E 25% dos funcionários nem se deram ao trabalho de responder.

O contrato de £ 1 bilhão firmado com a empresa americana teria como objetivo aumentar a taxa de respostas de funcionários em pesquisas internas para uma avaliação melhor sobre o grau de insatisfação e de seus motivos. Será que precisa?

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