Uma campanha “body positive” do governo da Espanha feita em parceria com uma ONG feminista gerou controvérsia nas redes sociais. Com o slogan “o verão também é nosso”, a ação incentiva que as mulheres não tenham vergonha de exibir seus corpos na praia.

A peça gráfica compartilhada nas redes sociais exibe cinco mulheres usando biquínis ao ar livre: brancas, negras, gordas, magras e até uma idosa de topless após uma mastectomia estampam o cartaz do Ministério da Igualdade espanhol. 

“Todos os corpos são válidos e temos o direito de aproveitar a vida como somos, sem culpa ou vergonha”, disse a ministra que chefia a pasta, Irene Montero. A iniciativa, no entanto, foi acusada de estimular obesidade, considerada mau uso do dinheiro público e recriminada por não abordar outros tipos de discriminação, e autor da peça foi acusado de usar as fotos sem autorização. 

O que é uma campanha ‘body positive’

O termo “body positive” ou “body positivity” é associado a um movimento que promove a aceitação do corpo feminino que não sigam os padrões estéticos glorificados na mídia.

Corpos gordos, magros, com cicatrizes, rugas, estrias ou deficiências devem ter espaço tanto quanto os das modelos e celebridades, defende o movimento. 

Essa representação é parte de um documento da Unesco sobre  Diversidade, Equidade e Inclusão, estabelecendo que a mídia precisam espelhar uma variedade de grupos sociais, incluindo mulheres, diferentes etnias e religiões, imigrantes, pessoas com deficiência, maiores de 50 anos, indivíduos LGBTQIA+ e outros grupos minoritários ou discriminados.

Em linha com esse pensamento, o governo espanhol decidiu apostar em uma campanha body positive feita em conjunto com a ONG Instituto da Mulher para quebrar o preconceito contra as mulheres na praia e encorajá-las a curtirem o verão sem medo.

O verão foi escolhido porque segundo o Instituto, a discriminação corporal ocorre de forma mais acentuada nessa época, assim como a violência doméstica.

No lançamento da campanha, Antonia Morillas, diretora do Instituto da Mulher, disse: 

“Quando as mulheres são informadas de que, se você não é magra, jovem, se tem estrias, celulite ou cicatrizes, seu corpo não é válido, a  autoestima é destruída e isso tem um impacto direto em nossa saúde, em nossa qualidade de vida e na possibilidade de ser e exercer todos os nossos direitos.”

Ela afirmou que “falar sobre discriminação corporal é falar sobre a violação dos direitos que as mulheres sofrem quando não há órgãos normativos.

“As expectativas corporais são projetadas nas mulheres e não só influenciam nossa autoestima, como também negam direitos e condicionam o modo de ser e usufruir do espaço público”.

Por isso, ela destacou que a ação quer passar a mensagem de que a diversidade corporal existe e é preciso reivindicá-la sem estereótipos e violências.

Para a divulgação da campanha, Antonia publicou no Twitter: “Corpos diversos, livres de estereótipos de gênero, ocupando todos os espaços. O verão também nos pertence. Livres, iguais e diversas”.

https://twitter.com/antoniamorillas/status/1552203986299764736

Campanha recebe críticas nas redes sociais

A boa intenção da campanha body positive não poupou as críticas nas redes sociais. Enquanto alguns usuários questionaram o uso do dinheiro público na iniciativa, muitos espanhóis usaram da gordofobia — o preconceito contra indivíduos gordos — para rechaçar a ação, sob o argumento de que obesidade é uma doença que deve ser tratada. 

“Outro dia contei os ministérios da Espanha e as contas não fechavam. Eu tinha esquecido que existe até um ministério para promover a obesidade. E não é o de Consumo”, publicou uma internauta no Twitter.

“Até agora, mulheres gordas não podiam ir às praias. Obrigada Irene por melhorar nossas vidas em… nada”, postou outra. 

“100 mil euros para nos dizer que as gordas são gordas”, disse uma usuária, compartilhando uma tela da prestação de contas da campanha.

“Homens falando que mulher gorda já podia ir à praia sem autorização [do Ministério] da Igualdade.

Claro que vamos, mas assumindo o ódio por ensinar [aos outros] um corpo que não é normativo. O que a gente afirma é que todos os corpos estão bem, inclusive o seu Manolo, que não é exatamente o mais bonito”.

Os problemas não se limitam ao conteúdo ou ao investimento de 100 mil euros. No dia seguinte ao lançamento, a campanha foi acusada de usar imagens de mulheres sem autorização. 

Uma delas foi uma modelo britânica, que reclamou nas redes sociais por ter tido uma foto sua publicada no Instagram utilizada no cartaz sem ter sido consultada ou remunerada. 

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Arte Mapache admitiu a falha e também o uso de uma tipologia de letra que não é de domínio público e informou que distribuirá entre as retratadas o valor recebido pelo trabalho. 

“Antes de tudo, gostaria de pedir desculpas publicamente aos modelos por terem sido inspirados por suas fotografias para a campanha ‘O verão também é nosso’ e por terem usado um tipo de letra não licenciado – [pensando que era grátis]”, diz a postagem no Twitter. 

Campanha homofóbica já foi polêmica na Espanha 

Esta não é a primeira vez que uma campanha causa polêmica na Espanha.

Mas enquanto a ação promovida pelo Ministério da Igualdade propõe a inclusão, um comercial do chocolate Snickers precisou ser retirado do ar no ano passado após ser criticado por homofobia.

“Diante de uma onda de homofobia que tem gerado até assassinatos na Espanha, a Snickers não consegue pensar em uma ideia melhor do que criar um anúncio que diga que você não é você mesmo se for afeminado?”, tuitou um dos maiores partidos políticos do país, o esquerdista Podemos, na ocasião.

O vídeo de 20 segundos era estrelado por um famoso influencer gay espanhol, Aless Gibaja, e mostrava ele assumindo a forma afeminada de um homem que estava com fome. Ao comer o doce, o homem perde os trejeitos femininos. 

Na época, a ministra da Igualdade, Irene Montero, também opinou. “Eu me pergunto quem acharia uma boa ideia usar a homofobia como estratégia de negócios”, publicou no Twitter.

E acrescentou que esperava uma evolução por parte das empresas:

“Nossa sociedade é diversa e tolerante. Esperamos que aqueles que têm o poder de decidir o que vemos e ouvimos em anúncios e programas de TV também aprendam a sê-lo.”

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