MediaTalks em UOL

Opinião | Mídia digital ajudou a colocar o clima, os índios e a Amazônia na pauta da imprensa

Ministra Sônia Guajajara na COP28

Ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara representou o Brasil na COP28 (divulgação ONU)

Marina Amaral

Quando comecei a trabalhar como jornalista, nos ventos da redemocratização, ouvi mais de uma vez em redações: colocar indígenas na capa “não vende”.

As fotos caíam bem nas edições de domingo, mas reportagens sobre indígenas eram esporádicas, desconectadas das manchetes, com acento no exótico e na suposta intrepidez do jornalista que chegou ao “Brasil profundo”, expressão reveladora de como os meios de comunicação se relacionavam com a maior parte do país e suas populações.

Havia casos pontuais, em que se investigava crimes contra lideranças indígenas, quase sempre por iniciativa dos próprios repórteres.

Problemas sociais e ambientais não eram retratados 

Mas a situação permanente de violência contra indígenas e comunidades tradicionais, aliada ao desmatamento e à invasão de terras por grandes projetos governamentais, empresas ou por fazendeiros de outras partes do país não era retratada.

Menos ainda se cobria a dimensão do colapso ecológico que nos traria à atual situação de emergência climática, impossível de ignorar neste ano, o mais quente da história.

Não custa lembrar: o desmatamento é responsável por metade das emissões de gases de efeito estufa no país.

E é nas terras indígenas que o desmatamento é menor, incluindo na comparação com parques e reservas nacionais, apesar das invasões.

Cobertura da Amazônia impulsionada pela mídia digital 

A cobertura jornalística da Amazônia, dos conflitos no campo, e do colapso ecológico só passou a ser feita de forma sistemática no país depois do surgimento da mídia digital.

Não é coincidência que as organizações pioneiras nesse campo, como a Repórter Brasil e a Agência Pública, fundada em 2011, estejam também entre as primeiras a investigar esses temas.

No nosso caso, lançamos o projeto Amazônia Pública em 2012 e continuamos nessa cobertura, que cresceu à medida que as questões se mostram mais relevantes – tivemos duas jornalistas cobrindo a COP em Dubai.

Geradas no momento em que a Internet mostrava sua potência na quebra das hierarquias da informação e a troca entre profissionais da imprensa de diversos países se intensificou, as organizações de mídia digital libertaram o jornalismo de preconceitos e orçamentos encurtados pela crise dos anunciantes, buscando novas fontes de recursos para fazer reportagens em campo demoradas e custosas.

Também aproximou os jornalistas dos anseios reais do público, ou de parte significativa das novas gerações.

Como explicar, por exemplo, que depois de décadas sofrendo violência ignorada pelos jornais, os Guarani-Kaiowá receberiam em peso a solidariedade dos usuários do Facebook, que em janeiro de 2013 se tornaram ‘sobrenome’ de milhares deles?

As pessoas queriam, sim, falar de Amazônia, indígenas, desmatamento, conflitos. E ninguém mais estava preocupado com as capas dos veículos impressos.

No novo ecossistema de informações, também os ativistas e as próprias comunidades ganharam voz, com o surgimento de mídias regionais – como o site Amazônia Real, o Observatório do Clima, e tantos outros.

Impacto sobre a mídia tradicional 

Isso impactou as pautas da mídia tradicional, acostumada a investigar obras públicas apenas do ponto de vista da corrupção e dos impactos econômicos, com fontes do governo e instituições.

A mídia digital “empurrou” a pauta dos impactos ambientais das grandes obras na Amazônia, trouxe a voz das comunidades tradicionais na preservação e apontou a relação da violação dos direitos dessas populações com o colapso global.

As populações dos países reunidos em Dubai só têm a ganhar com a democratização da comunicação e a qualificação do debate público.

Do calor das notícias da mídia tradicional ao aprofundamento da informação pelos novos meios, o que importa mesmo é que todos “olhem para cima” e conversem.

Talvez então seja possível compartilhar “ideias para adiar o fim do mundo”, como nos ensina Ailton Krenak.


Este artigo faz parte de um relatório especial analisando as repercussões da COP28, jornalismo ambiental, ativismo e percepções da sociedade sobre as mudanças climáticas

Leia aqui a edição completa

 

Sair da versão mobile