Análises sobre a cúpula Análises sobre a cúpula
do clima da ONUdo clima da ONU
Jornalismo, ativismo e Jornalismo, ativismo e
mobilização no mundo mobilização no mundo
sob ansiedade climáticasob ansiedade climática
Impactos das mudanças Impactos das mudanças
climáticas sobre pessoas climáticas sobre pessoas
e empresase empresas
Especial
Dezembro | 2023
PARCEIRO DE CONTEÚDO
@Engajamundo e divulgação COP28
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MOBILIZAÇÃO
Arte ganha força
como arma na
luta climática
JORNALISMO DE
SOLUÇÕES
Mostrando ‘a metade
cheia do copo’
ESTUDO
As principais barreiras
à cobertura ambiental
na América Latina
ERIKA BJERSTRÖM
Jornalista ambiental, Suécia
"Não é meu trabalho manter
a audiência de bom humor
de maneira falsa"
A emergência climática em pauta
nesta edição
LUCIANA GURGEL
Editora-chefe
MediaTalks, Londres
EDUARDO RIBEIRO
Publisher
Jornalistas&Cia,
São Paulo
E MAIS: artigos de Cristiano Cobo (Anglo American), Fábio Magrin (Cummins) e Fabio Rua (GM).
E
sta é a terceira edição especial do MediaTalks analisando as repercus-
sões de uma Conferência das Partes sobre as Mudanças Climáticas
da ONU
. Na primeira, o mundo tinha acabado de sair da pandemia, e os
líderes das maiores potências compareceram em peso a Glasgow. As ruas
foram tomadas por manifestantes, capitaneados por Greta unberg.
Greta hoje é questionada em seu próprio país, a Suécia. As últimas duas
COPs aconteceram em países com histórico de repressão ao ativismo e
à liberdade de imprensa. Os principais líderes de nações poluentes não
foram a Dubai.
O ativismo deixou as ruas para ganhar as redes sociais e tentar inuenciar
no acordo principal, que mais uma vez não agradou à ciência e aos países
mais afetados pelas mudanças climáticas.
Nesta edição, reunimos visões sobre a participação do Brasil na COP28
- que teve efeitos sobre a imagem do país na arena internacional, mas
não de forma positiva como muitos esperavam - e em cinco outros países
com realidades diferentes, mas que convivem com os mesmos dilemas,
inclusive na esfera da mídia.
O tom da cobertura das mudanças climáticas - muito alarmista? - é um
dos debates globais. O ativismo ambiental enfrenta questionamentos
semelhantes. Atacar monumentos engaja o público na causa do clima?
Como as pessoas comuns reagem ao noticiário, em uma era em que a sus
-
tentabilidade pode pautar a decisão de um talentoso prossional sobre
onde ele vai tr
abalhar? A cultura pode mobilizar? E o jornalismo de solu-
ções? O ESG está morrendo?
A
COP28 pode não ter, mais uma vez, correspondido plenamente às ex-
pectativas dos que esperavam - ou rezavam, como no caso do rei Charles
- por
transformações.
Mas teve o poder de colocar a emergência climática na pauta. E de cha-
mar a atenção para o papel decisivo de jornalistas, organizações de mídia,
inuenciador
es das redes sociais, organizações não-governamentais e li-
deranças empresariais diante das evidências de que as transformações
são vitais par
a o meio ambiente, para a justiça social e para os negócios.
Este é o tema das nossas conversas aqui. Boa leitura.
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11 14
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REINO UNIDO
Rei abriu COP28 “rezando”
por mudanças, difíceis em
seu próprio reino
por Luciana Gurgel
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ARGENTINA
Presidente novo e o
mesmo divórcio com
a realidade climática
por Marcia Carmo
ITÁLIA
O chamamento do Papa
Francesco à conversão
ecológica
por Fernanda Massarotto
EUA
Movimento anti-ESG
cresce enquanto
Biden esnoba COP28
por Eloá Orazem
CHRISTIANA FIGUERES
Ex-Chefe do Clima da ONU
Precisamos de equilíbrio
entre indignação e otimismo
PESQUISA
Sul-americanos entre
os mais preocupados com
os danos futuros das
mudanças climáticas
MARINA AMARAL
Co-Fundadora da
Agência Pública
Mídia digital colocou
os problemas ambientais
do Brasil na pauta
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SUÉCIA
Marcha à ré na política
ambiental faz país deixar
de ser modelo
por Claudia Wallin
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MediaTalks tem o apoio da General Motors
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O Brasil na COP e a COP no Brasil:
as lições de Dubai
“A
rrancaram o phase-out”, avisou uma repórter no grupo de WhatsApp
dos jornalistas brasileiros credenciados para a cobertura da COP28. A
partir daquele momento, a primeira versão do acordo nal despertou indig-
nação por ter deixado de fora o compromisso de eliminar gradativamente o
uso de combustíveis fósseis.
Mas nada como um dia após o outro. O documento aprovado, sob protes-
tos de alguns países mas aceito pela maioria, foi visto como um avanço em
relação às COPs anteriores. Com a ressalva de não sero salto que o mundo
precisa, como enfatizou Andrew Deutz, Diretor Geral de Política Global e
Financiamento para a Conservação da e Nature Conservancy.
Foi um desfecho em tom de “otimismo controlado” para a cúpula de Dubai
que começou promissora, com a assinatura do compromisso para o Fundo
de Perdas e Danos. E terminou melhor do que alguns esperavam, mas pior
do que quase todos gostariam.
A participação do Brasil, com sua maior delegação em uma COP até hoje,
frustou quem contava com mais avanços na recuperação da imagem inter-
nacional do país depois da era Bolsonaro.
Desta vez, a linha de frente era composta por Lula, Marina da Silva e Sônia
Guajajara, levando na bagagem a boa notícia da queda dos índices de des-
matamento da Amazônia.
Três dias depois da abertura da conferência, entretanto, o país ganhou o
famigerado “Fóssil do Dia. O prêmio às avessas se deveu à entrada do país
como membro observador da OPEP (Organização dos Países Produtores de
Petróleo) e ao leilão de áreas de exploração em locais ambientalmente sen-
síveis, apelidado pelos críticos de “leilão do m do mundo.
A mídia internacional reetiu a decepção. “Tentativa de Lula de se rmar
como líder do clima na COP28 minada pelo movimento com a Opep, es-
creveu o e Guardian. “Lula é criticado pelos planos de petróleo na cúpula
da ONU, uma reviravolta após o status de herói no ano passado, disse a
Associated Press.
Até a Al Jazeera, rede estatal do Catar, ecoou as críticas ao país que vai se-
diar a COP30, em Belém. Antes dela, porém, haverá a COP29 no Azerbaijão,
outro país produtor de petróleo e ainda com sérios problemas de liberdade
de imprensa.
Cláudio Ângelo, jornalista e diretor da rede ambiental Observatório do Cli-
ma, resumiu a presença brasileira em Dubai:
“O Brasil foi construtivo, mas não conseguiu evitar que a passagem da de-
legação fosse contaminada pelos delírios petroleiros dentro de casa. O país
REPRODUÇÃO
foi cobrado, e justamente, por tentar fazer juras de amor a Greta no
exterior e ao Al Ghais dentro de casa”, referindo-se ao Secretário-
-Geral da OPEP.
Receber uma conferência do clima tem vantagens, mas expõe o
país antrião a um escrutínio maior. Algumas nações recusaram
o convite para sediar a cúpula de 2024.
Dubai não teve medo de críticas e ainda nomeou o CEO de uma
empresa petrolífera, o Sultão Ahmed Al Jaber, como presidente
da conferência. A ONU deve ter se arrependido da escolha, so-
bretudo depois da divulgação de uma conversa com ambienta-
listas em que Al Jaber duvidou dos fundamentos cientícos por
trás da condenação dos combustíveis fósseis.
Belém vai ser uma festa, mas também um risco para a imagem do
Brasil, que terá em casa um batalhão de jornalistas - em Dubai
foram quase 4 mil credenciados - ávidos por retratar a realida-
de amazônica e as diculdades de compatibilizar os esforços de
preservação da natureza e de crescimento econômico.
Faltam dois anos até a COP30, mas o tempo voa. Dubai deixa
lições de comunicação para o país e para as empresas brasileiras,
que deslarão na passarela do clima sob os holofotes do mundo.
Os antriões precisarão estar impecáveis para não correrem o
risco de decepcionar a plateia, em um planeta alarmado e clima-
ticamente ansioso.
Camisa distribuída em
Dubai pela delegação de
Belém
Análise
por LUCIANA GURGEL
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Acordo final:
a avaliação
pelas fontes
que pautam a
imprensa
A
COP acabou, mas os efeitos das decisões tomadas na 28ª
Conferência das Partes da ONU continuarão a ser acompa-
nhados pela imprensa e por vozes inuentes nas conversas so-
bre as mudanças climáticas após o acordo assinado em Dubai.
Em uma entrevista coletiva, o Secretário-Geral da organização,
António Guterres, foi mais positivo do que em suas falas habi-
tuais sobre a crise ambiental.
“Pela primeira vez, o resultado da COP28 reconhece a necessi-
dade de fazer a transição para longe dos combustíveis fósseis,
depois de muitos anos em que essa discussão foi bloqueada.
Menos otimistas, especialistas levantaram questões sobre a
extensão e a aplicabilidade dos compromissos, e demonstra-
ram que estão de olho nos próximos passos do Brasil.
REPRODUÇÃO
ANDREW DEUTZ | The Nature Conservancy
Dubai foi um marco signicativo para um mundo mais limpo e justo. A
diplomacia ao longo da noite transformou o texto que divida os países
em um caminho para seguirmos em meio à emergência climática.
Na preparação para as negociações , falávamos sobre a importância
de ações e compromissos tangíveis com precedência sobre a retórica
política.
O que os negociadores concordaram representa um passo na direção
certa: um chamado para uma transição global que nos afaste de todos os
combustíveis fósseis sinaliza que os governos estão nalmente abertos a
lidar com o elefante na sala."
NATALIE UNTERSTELL | Instituto Talanoa
Vencemos o impossível m dos combustíveis fósseis - uma vitória
retumbante sobre a diplomacia do óleo e do gás, que predominou nos
últimos 30 anos .
O acordo convoca os governos a seguirem um calendário claro e
alinhado de transição dos combustíveis fósseis, que terá de se integrar
ao cronograma da transição das economias para zero emissões líquidas
até 2050.
Isso signica que países que apostam na expansão contínua da produção
de petróleo, gás e carvão mineral terão que rever seus planos e indicar
como e quando completarão sua transição."
MÁRCIO ASTRINI | Observatório do Clima
O resultado da COP28, forte em sinais mas fraco em substância, signica que o
governo brasileiro precisa assumir a liderança até 2024 e estabelecer as bases para um
acordo na COP30 em Belém que atenda à natureza e às comunidades mais pobres e
vulneráveis do mundo.
O país pode começar cancelando sua promessa de se juntar à OPEP, o grupo que
tentou e não conseguiu destruir essa cúpula. Sem ação real, o resultado de Dubai não
será comemorado entre as comunidades de todo o mundo que sofrem com os eventos
climáticos extremos."
CAMILA JARDIM | Greenpeace Brasil
Apesar de não termos um plano claro sobre como se dará a eliminação progressiva
dos combustíveis fósseis, o ganho real da COP28 foi colocá-los no centro do debate,
responsabilidade que nenhuma das 27 conferências anteriores tinha assumido.
A COP28 desenhou as bases para a COP30, aumentando as expectativas para as pró-
ximas metas climáticas nacionais(NDCs), que deverão ser estabelecidas no Brasil, em
2025. Agora, os países precisam construir com clareza os mecanismos de implementa-
ção, especialmente os que dizem respeito a nanciamento, capacitação e transferência
de tecnologia aos países em desenvolvimento, o que deverá ser debatido na COP 29."
MAURICIO VOIVODIC | WWF-Brasil
O resultado reforça a importância de o Brasil se engajar fortemente no estreitamento
da conança entre os países, para alcançarmos os resultados necessários na COP 30.
Isso precisa começar já, durante a presidência do G20, onde será possível reforçar o
comprometimento climático das maiores economias do planeta.
Porém, é preciso liderar pelo exemplo, o que signica que temos um grande desao
interno, já que parte do governo ignora a crise climática e trabalha para alinhar o Brasil
ao grupo das nações responsáveis pelo quase fracasso da COP 28."
CAROLINE PROLO | Laclima
Se comparado com outras decisões das últimas COPs, o texto progrediu bastante, ao
inserir de forma explícita uma mensagem de eliminação dos combustíveis fósseis.
Traz também o tema da biodiversidade e da conexão com a Convenção de Diversidade
Biológica, e explicita os números das lacunas de nanciamento.
Além disso, faz referências claras à implementação do Acordo de Paris em relação a
aspectos de gênero, direitos humanos e direitos das crianças, convocando a socie-
dade civil e atores não-estatais a continuar apoiando no desenvolvimento do regime
climático."
O presidente da
COP 28, Sultão Al
Jaber, aplaude o
acordo ao fim da
conferência
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Reino Unido, poR LUCIANA GURGEL
Rei Charles abre a COP28
'rezando' por transformações
que são difíceis até em seu reino
S
ede da COP26, o Reino Unido levou para Dubai as con-
tradições que não são particulares de uma nação, mas
que aqui são testadas ao limite.
O país onde nobres conservam privilégios medievais vive
os paradoxos da conferência do clima: o embate entre o
futuro do planeta e o presente dos empregos, da conta no
banco e da comodidade dos super-ricos.
A três dias do m da COP28, o candidato a prefeito de
Londres pelo partido de direita Reform, Richard Cox, deu
entrevistas na TV sobre a onda de vandalismo contra câ-
meras do sistema ULEZ (Ultra Low Emission Zone).
Nessas áreas, carros fora dos padrões de emissão pagam
£12,50 para circular. Os incomodados usam até bombas
para destruir os equipamentos.
Fundador do grupo Fair Fuel UK, Cox reclamou das ‘políti-
cas anti-carros’ do prefeito Sadiq Kahn, do Partido Traba-
lhista, idealizador do sistema que começou no centro e se
espalhou para áreas periféricas, incomodando mais gente.
Testes mostram que a poluição caiu. Mas há impacto so-
bre a massa do eleitorado, gente que não anda de carru-
agem dourada, não tem Tesla e usa o carro velhinho para
trabalhar - ou quer o conforto do transporte individual.
A abertura da COP28 em Dubai foi feita pelo rei Charles,
ecologista de carteirinha. Ele disse que rezaria para a con-
ferência se traduzir em “ação transformadora” - talvez
pensando no retrocesso do país do qual é chefe de estado.
Em setembro, o premiê Rishi Sunak anun-
ciou medidas atrasando promessas feitas
em Glasgow, como o adiamento da proibi-
ção de novos automóveis a gasolina e die-
sel de 2030 para 2035 e da obrigatorieda-
de de melhorar a eciência energética nas
residências.
Charles não depende das urnas e poderia
ter aproveitado o momento para pedir
ação transformadora em seu país. Mas a
estabilidade política da nação da qual ele
é o chefe de estado, depende.
O Partido Conservador, hoje no poder, é
um pilar da monarquia, assombrada pela
perda de Elizabeth II, escândalos e movi-
mentos republicanos.
O país vive uma crise de custo de vida que
as novas gerações só conheciam de ouvir
falar. Ao anunciar as medidas, o discurso
do governo foi claro:
“O primeiro-ministro rearma o compro-
misso do Reino Unido com o Net Zero até
2050 e promete um caminho “mais justo
para atingir a meta de aliviar os encargos
nanceiros das famílias britânicas”.
Uma amostra de como as ULEZ - e outras
medidas ambientais que governos mundo
instagram.com/gbrcomunicacaolinkedin.com/company/gbrcomunicacao facebook.com/gbrcomunicacaoocial
afora relutam em adotar - inuem na polí-
tica foi vista na eleição para o substituto
de Boris Johnson no Parlamento, em julho.
Os escândalos do Partido Conservador sob
seu comando zeram com que o Partido
Trabalhista disparasse nas pesquisas, com
chances de retomar o comando do país em
2024. Mas o partido não conquistou o as-
sento em Uxbridge, eleição local em que
era favorito. O motivo: o projeto ULEZ.
É um alerta para a diculdade de conven-
cer pessoas a mudarem de hábitos em prol
do planeta, o que parte da imprensa tenta
fazer, mas nem sempre consegue.
Os jornais tabloides, de grande inuência
sobretudo em locais mais afastados de
Londres, tendem a fazer o jogo dos conser-
vadores e a car ao lado das famílias afeta-
das pela alta de preços. Ao mesmo tempo,
o Guardian é um dos mais comprometidos
do mundo com o clima.
Charles III parece sincero em suas preocu-
pações com a biodiversidade. Mas nem em
família as coisas são fáceis. Em entrevista,
sua irmã, Anne, se mostrou contrária ao
“rewilding”, movimento para deixar a na-
tureza tomar conta de áreas ajardinadas.
O motivo: não é bom para os cavalos.