Em apenas um ano de seu segundo mandato, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, colocou em prática uma série de medidas chamadas de “anti-woke”. O movimento de contestar políticas e comportamentos ligados a temas como racismo e meio ambiente não é novo, mas Trump o institucionalizou, criando até um glossário trumpista para o programa de educação e saúde Head Start.
O presidente parece estar a um passo de instituir um Ministério da Verdade, aos moldes do que foi eternizado por George Orwell em 1984. No célebre livro, o órgão do governo da fictícia Oceânia trabalha para reescrever a história por meio a propaganda e da censura, de forma que apenas o partido no poder controle as narrativas.
O que à primeira vista pode parecer distópico está mais perto da realidade, já que o que um dia foi apenas retórico, hoje é oficial nos EUA de Trump. Prova disso é a medida de proibir o uso de 200 palavras no âmbito do programa do governo federal Head Start.
Head Start e a censura de palavras
O Head Start é um programa do Departamento de Saúde e Serviços Humanos do governo federal americano que existe desde 1965. Ele oferece educação infantil, serviços de saúde, nutrição e orientação para pais e crianças de famílias de baixa renda.
O governo Trump enviou aos funcionários do Head Start um documento de seis páginas com uma lista de palavras proibidas nos formulários de inscrição das famílias (veja quais abaixo). Não está claro como esse controle seria feito.
Para a ACLU (American Civil Liberties Union), a maior organização de direitos civis dos Estados Unidos, a censura de palavras é uma forma de sucatear o programa e impedir que famílias necessitadas tenham acesso a ele. A ONG afirmou que vai levar o caso à Justiça.
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Agenda anti-woke
A palavra “woke” costuma ser usada de forma pejorativa para se referir a pessoas, geralmente de esquerda, que defendem uma política voltada ao combate de desigualdades e que estão atentas a pautas identitárias – como combate ao racismo, a discriminação de gênero, entre outras.
O termo atualmente é majoritaramente usado por pessoas que dizem defender uma agenda “anti-woke”, como o próprio Trump e seus apoiadores.
O movimento “anti-woke” já vem em uma crescente há alguns anos, até como uma reação ao crescimento de movimentos como o Black Lives Matter e o #MeToo, ganhou força com a eleição de Trump em 2016 e agora começa a ganhar também uma certa institucionalidade.
Palavras proibidas
A lista de palavras foi divulgada na íntegra pela ACLU. Se por um lado ela é previsível por englobar termos considerados “woke”, como “discriminatório”, por outro o documento chega a ser cômico, uma vez que inclui também palavras básicas, como “mulheres” – homens está liberada.
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Palavras relacionadas a gênero e sexualidade
- Designado no nascimento
- Amamentação associada à palavra “pessoa(s)”, ao invés de à mulher
- Grávida associada à palavra “pessoa(s)”, ao invés de à mulher
- Feminismo
- Trans/Transsexual/Transgênero
- Não-binário
- LGBT
Termos que marcam a ideia de raça
- Anti-racismo
- Etnia
- Diversidade racial
- Racismo
- Racial
Alusão a ativismo e militância
- Discurso de ódio
- Equidade
- Diversidade
- Exclusão
- Privilégio
- Minorias
- Justiça social
Termos sobre migração
- Imigrantes
- Minoria hispânica
- Latino(a)
- Golfo do México (Trump decidiu renomeá-lo como Golfo da América)
Palavras básicas
- Mulheres
- Acessível
- Pertencimento
- Historicamente
- Institucional
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