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Como a monarquia britânica pode reconstruir sua reputação após a prisão do ex-príncipe Andrew? Entenda o ‘contágio social’

Capas de jornais britânicos estampando foto do príncipe Andrew depois de ter sido preso

Todos os jornais escolheram a mesma foto para as suas primeiras páginas no dia seguinte à prisão do ex-príncipe Andrew.

As ligações do ex-príncipe Andrew com o pedófilo Jeffrey Epstein colocam a família real britânica sob pressão da opinião pública e de opositores do regime monárquico, exigindo uma mudança de atitude para assegurar seu futuro.

No atual ecossistema de mídia, caracterizado pela alta velocidade no fluxo de notícias, marcas frequentemente precisam reagir rápido a escândalos que podem manchar a reputação de seus produtos ou serviços. Respostas ágeis para abafar rumores ou assumir responsabilidade por erros são vitais.

Isso torna ainda mais desafiador quando as próprias pessoas são a marca. O comportamento delas é muito mais difícil de controlar do que um press release. Elas trazem sentimentos e emoções que podem comprometer qualquer resposta estratégica a um escândalo.

A família real britânica é um caso típico — e, com a prisão de Andrew Mountbatten-Windsor, sua marca enfrenta um dos maiores testes da era moderna.

Sabe-se que consumidores formam laços mais profundos e emocionais com marcas humanas do que com marcas não humanas — como os fãs apaixonados de Taylor Swift, que se identificam com ela em nível pessoal.

O outro lado disso é que eventuais falhas percebidas ou lapsos de julgamento também podem gerar emoções mais fortes, refletindo de modo mais negativo na percepção daquela marca.

Por anos, a família real teve de lidar com a publicidade negativa em torno do ex-duque de York. Boa parte dela se relaciona ao vínculo de longo prazo dele com o financista Jeffrey Epstein, já falecido e condenado por crimes sexuais contra crianças.

Prisão de Andrew obriga monarquia a lutar para proteger reputação

A prisão de Mountbatten-Windsor, sob suspeita de má conduta em cargo público, coloca o restante da família na posição de proteger a marca contra danos distanciando-se dele.

A prisão ocorreu após a publicação, pelo governo dos EUA, de documentos que parecem mostrar Mountbatten-Windsor compartilhando informações oficiais com Epstein durante seu período como enviado comercial.

Aquele período entre 2001 e 2011, não passou sem escrutínio para o então príncipe. Mas o palácio, em geral, manteve uma atitude discreta— seguindo o mantra “never complain, never explain” (nunca reclame, nunca explique) frequentemente atribuído à falecida rainha Elizabeth.

Mountbatten-Windsor deixou o cargo de enviado comercial em 2011, quando o palácio divulgou um comunicado simples dizendo que, no futuro, ele “realizaria compromissos comerciais se solicitado”.

Nos anos seguintes, a pressão pública aumentou para que a família real fosse mais transparente em vários aspectos, especialmente sobre o envolvimento de Mountbatten-Windsor com Epstein.

O momento decisivo — passando de uma estratégia de gestão de marca discreta para ações mais explícitas — parece ter sido a entrevista de Mountbatten-Windsor ao programa Newsnight, em novembro de 2019, quando ele afirmou ter encerrado a amizade com Epstein em 2010.

Ele também negou acusações de abuso sexual feitas pela vítima de Epstein Virginia Giuffre.

Aquele momento virou um foco que atraiu indignação pública. Em resposta, a família real começou a tomar medidas mais decisivas para evitar que a marca fosse contaminada — ou “infectada” — pela negatividade em torno do ex-príncipe.

Contágio social: como pode afetar a monarquia?

O conceito de contágio social ajuda a entender como isso funciona.

Segundo a teoria do contágio social, as pessoas são influenciadas por quem está ao redor. Isso ajuda a explicar como comportamentos, atitudes ou emoções podem se espalhar por um grupo ou pela sociedade, como um vírus.

O que se chama de “cultura do cancelamento” ocorre quando a desaprovação e a condenação moral de um indivíduo ou grupo ganham tração nas redes sociais, à medida que as pessoas se sentem compelidas a entrar na onda.

A reação à entrevista do Newsnight — memes, manchetes debochadas e instituições de caridade e patrocinadores se distanciando de Mountbatten-Windsor — teria deixado claro para a família real que a marca deles estava em risco por esse contágio social.

Quando a realeza começou a proteger a instituição

Apesar do apoio que a falecida rainha teria dado ao filho, a monarquia começou a adotar medidas formais para proteger a instituição. Em novembro de 2019, Mountbatten-Windsor se afastou de deveres públicos “por tempo indeterminado”.

Em janeiro de 2022, ele foi destituído de patronatos reais e títulos militares, além de perder o direito de usar “His Royal Highness” em qualquer capacidade oficial.

No mês seguinte, Mountbatten-Windsor fechou um acordo extrajudicial com Giuffre por £12 milhões (cerca de R$ 83,8 milhões), sem admissão de culpa.

Em maio de 2023, embora tenha comparecido à coroação do rei Charles III, ele não teve papel oficial e não foi incluído na procissão nem apareceu na sacada. Desde então, o rei Charles e o príncipe William deixaram claro que não querem que ele volte à vida pública.

A retirada completa do título de príncipe de Mountbatten-Windsor, em outubro de 2025, após a publicação de mais documentos ligados a Epstein, consolidou sua exclusão permanente da vida pública.

Mais recentemente, ele foi forçado a deixar sua residência real e se mudar para uma casa mais isolada na propriedade de Sandringham, em Norfolk.

Charles e William rompem silêncio

Tanto o rei quanto William divulgaram declarações escritas para se distanciar à luz dos arquivos mais recentes sobre Epstein, expressando “profunda preocupação” com as vítimas de Epstein.

A formalidade de publicar declarações por escrito sinalizou a seriedade com que encararam os acontecimentos e também funcionou como registro público do distanciamento em relação a Mountbatten-Windsor.

Ao demonstrar simpatia pelas vítimas, eles se alinharam moralmente a elas, em vez de defendê-lo.

Quando uma marca é acusada de crime, isso pode ampliar uma crise — passando de um problema reputacional relativamente menor para algo que arrisca um colapso completo da confiança naquela marca.

Em um comunicado, o rei disse:

“Let me state clearly: the law must take its course” e “my family and I will continue in our duty and service to you all” (Deixe-me ser claro: a lei deve seguir seu curso, e minha família e eu continuamos em nossas missões e serviço a todos vocês”.

Ao se referir a “Andrew Mountbatten-Windsor”, em vez de reconhecê-lo como irmão, o texto deixa claro o grau de ostracismo dele em relação ao restante da família.

A família real parece ter conduzido respostas ao risco de manchar a monarquia de formas oficiais e não oficiais. Eles retiraram de Mountbatten-Windsor todos os papéis e títulos oficiais, o excluíram de eventos públicos da realeza, demonstraram apoio público às vítimas de Epstein e empregaram uma estratégia de gestão de mídia que desloca o foco para outros membros da família.

Mas uma pesquisa feita antes da prisão sugere que a marca real ainda está sob risco.

Marcas podem atravessar escândalos com respostas rápidas e assumindo responsabilidades. Mas também podem precisar reconstruir confiança provando, no longo prazo, que mudaram. Talvez a família real esteja diante da hora de um rebranding.

Este artigo foi publicado originalmente no portal acadêmico The Conversation e é republicado aqui sob licença Creative Commons.


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