Londres – A Truth Social, a nova rede social do ex-presidente Donald Trump, revelada ao mundo em 20 de outubro passado e até agora na promessa, está se ncaminhando para entrar no ar, depois de uma sequência de adiamentos.

Na quinta-feira (17), a agência Reuters confirmou que cerca de 500 pessoas começaram a usar a versão preliminar da rede criada por Trump para “desafiar a tirania das Big Techs”.

O aplicativo já pode ser baixado na Apple Store, mas usuários reclamam de dificuldades técnicas, um sinal ruim para investidores no negócio. Há duas semanas, quando a data de lançamento foi novamente adiada, as ações da empresa com a qual Trump se associou para criar a rede e abrir capital em bolsa de valores despencaram. 

Rede social de Trump em março 

A confirmação do teste que antecedeu a entrada do aplicativo na loja da Apple foi feita pelo filho de Trump via Twitter, compartilhando o que seria o primeiro post do ex-presidente na nova rede. 

Pouco modesto, Trump pede aos seguidores para se prepararem, pois em breve seu “presidente favorito” estará de volta. Na foto de perfil ele aparece sério, quase carrancudo, fazendo um estilo “guerreiro”. 

Rede social do ex-presidente sem moderação 

Trump prometeu que a nova rede será uma “experiência atraente e sem censura”, o que quer dizer sem moderação, com liberdade para muitos que se viram banidos das plataformas tradicionais por discurso de ódio ou teorias conspiratórias. 

O próprio Trump perdeu suas contas nas redes, incluindo Twitter e Facebook, logo depois da invasão do Capitólio, em janeiro do ano passado.

A Truth Social está a cargo de uma nova empresa de mídia criada por Trump, a Trump Media & Technology Group (TMTG), que alardeia ter nascido com a missão de “dar voz a todos”. 

No site do TMTG, a tela de abertura exibe uma bandeira americana em uma paisagem rural com o sol nascendo ao fundo, cenário interiorano associado a uma parcela importante do público conservador, que vive fora dos grandes centros urbanos americanos. 

A companhia foi criada por uma associação de Donald Trump com a Digital World Acquisition Corp. Sediada em Miami, a DWAC é uma SPAC (empresa de aquisição de propósito específico, especializada em ajudar companhias a lançarem ações em bolsas de valores), e tem como diretor financeiro o deputado federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança. 

Nunes disse à Reuters que o aplicativo será lançado até o final de março.

Quando Trump anunciou a plataforma em outubro, um comunicado de imprensa disse que a plataforma estaria aberta a “usuários convidados” para um lançamento beta em novembro, com planos de disponibilizá-la ao público no início de 2022.

No dia seguinte, a rede foi invadida por um hacker, que criou um perfil falso de Trump e postou a imagem de um porco defecando. O episódio demonstrou uma fragilidade técnica capaz de assustar potenciais investidores. 

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Trump em fase de testes

O dono da nova rede social é um dos primeiros usuários nessa fase de testes. Sua conta na Truth Social já tem mais de 300 seguidores, segundo a Reuters. 

Mas o link para assinar ou entrar na lista de espera da rede social no site da empresa holding estava hoje inativo, apontando para um erro. 

Wayne Dupree, apresentador de um podcast conservador, foi outro que teve acesso à versão de avaliação da rede, e está usando suas contas para promover a Truth Social.

Ele anuncia que Trump está de volta, e diz que na nova rede terá liberdade para falar o que não pode falar no Twitter. 

Como funciona a rede social de Trump

Os que viram a versão inicial da Truth Social adiantaram que a aparência é bem semelhante à do Twitter, e o mecanismo também.

Os usuários podem publicar e compartilhar “uma verdade” (truth), palavra usada como um sinônimo para “um tweet”. O feed será resultado de uma combinação de publicações individuais e uma notícia.

Os usuários da rede social de Trump receberão notificações quando forem mencionados e quando tiverem um novo seguidor, além de poderem contar com mensagens instantâneas dentro do aplicativo em um futuro próximo.

A TMTG disse que ofereceria também um serviço de vídeo por assinatura chamado TMTG+, que contará com programação de entretenimento, notícias e podcasts. Um vídeo antecipa a futura rede. 

Mas nem tudo são flores no caminho. A Truth Social pode encarar dificuldades com a licença de software e com as lojas de aplicativos, que tornaram mais rigorosas as políticas relacionadas a apps com conteúdo ilegal ou controverso. 

Em 2021, a rede social Parler, um “app” que promovia a liberdade de expressão com a mesma linha que a Truth Social pretende e que era muito popular entre os conservadores, foi temporariamente da App Store.

A rede foi também despejada do serviço de hospedagem do Google, e ficou fora do ar várias semanas até achar um pequeno provedor da Califórnia que aceitou abrigá-la. 

Há duas semanas, Melania Trump, a mulher do ex-presidente, anunciou um contrato de exclusividade com a Parler, que prevê postagens exclusivas. Se o contrato for mantido, ela não será uma das atrações da Truth Social. 

Trump, uma história de amor e ódio com as redes sociais 

O presidente Donald Trump não foi o primeiro a usar redes sociais para se comunicar diretamente com o público. Mas ele fez isso numa escala gigante, governando a maior potência global via Twitter. 

E usando a rede social para atacar inimigos, insuflar seguidores e minar a confiança na imprensa.

Isso durou até a invasão do Congresso americano, para a qual o então presidente é acusado de ter contribuído, incentivando apoiadores a tentarem evitar a posse de Joe Biden. 

A primeira plataforma a tomar uma atitude definitiva contra Donald Trump depois da rebelião no Congresso foi o Twitter. No dia 8 de janeiro de 2021, a rede social anunciou o fim da conta @realDonaldTrump, do ex-presidente. 

E quando Trump tentou contornar a suspensão passando a postar na conta @POTUS, o nome oficial do Gabinete do Presidente, a plataforma de mídia social removeu esses tuítes também. A conta da campanha Trump, @TeamTrump, foi igualmente suspensa.

Embora seus apoiadores continuem tuitando sobre suas teses, como a alegada fraude nas eleições e críticas às políticas de controle do coronavírus, alvos frequentes de ataques virulentos devem ter respirado aliviados. 

Entre eles está a imprensa, que se tornou objeto da ira do ex-presidente, inconformado com o noticiário negativo a seu respeito. O tamanho da ira foi medido pelo projeto US Press Freedom Tracker. 

Um levantamento dos 24,5 mil tuítes de Trump, do dia em que anunciou a candidatura até 8 de janeiro, mostrou que 2.500 deles foram contra jornalistas e veículos de imprensa tradicionais, numa perigosa estratégia para desacreditar o jornalismo. 

O presidente cunhou termos ofensivos, como Lamestream Media (um trocadinho com mainstream media, expressão que denomina os grandes veículos, e a palavra lame, que tem o sentido de algo fraco ou insatisfatório). 

O resultado dessa campanha foi visto na invasão do Capitólio. O slogan “Murder the Media” foi esculpido em uma das portas de madeira pelos manifestantes. 

Facebook: suspensão de Trump virou batata-quente 

Embora tenha saído na frente ao punir Donald Trump, o Facebook pena até hoje com a forma como tem conduzido as sanções ao ex-presidente. 

A rede suspendeu Trump logo no dia 7 de janeiro. Ele tinha 35 milhões de seguidores no Facebook e 24 milhões no Instagram.

Mas foi por tempo indeterminado, e não uma expulsão, o que gerou críticas de todos os lados. 

O que o Facebook fez foi jogar a bola para o campo do Conselho de Supervisão, um grupo de personalidades da mídia e da sociedade encarregado de analisar as decisões de moderação. 

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Seria ótimo para a empresa se o Conselho decidisse expulsar de vez o ex-presidente, ficando com o ônus da decisão, que agrada a quem acha que a presença de Trump nas redes sociais era nociva, mas desagrada aos que defendem seu direito à liberdade de expressão. 

Mas o plano não saiu como esperado. Banir Trump de vez do Facebook virou uma batata-quente descomunal, que nem o Conselho pago para tomar decisões quis assumir. E que provocou questionamentos sobre a validade de sua própria existência. 

No dia 5 de maio, um grupo de cinco membros do Facebook Oversight Board simplesmente devolveu o problema de volta à empresa, instando-a a tomar uma decisão definitiva sobre o caso em seis meses.

Em um longo documento, fez uma série de críticas às políticas de moderação do Facebook e recomendou mudanças, mas deixou a cargo da empresa anunciar o que faria sobre o futuro de Trump na rede. 

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Em junho, o Facebook saiu de cima do muro, mas não muito. Anunciou suspensão de Trump da rede social por dois anos. 

Trump nas redes em voo solo 

Desde que deixou a presidência e perdeu suas contas digitais, Donald Trump sinalizou que voltaria às redes sociais em grande estilo, com uma plataforma própria para reunir seus seguidores, que nesse tempo migraram para redes sem moderação, como Parler e Gab, que chegaram a crescer rapidamente nos dias que se seguiram ao motim em Washington.

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Mas eram espaços marginais, e Trump havia prometido uma rede própria. A primeira tentativa foi com baixo investimento. Acabou tendo baixo impacto e vida curta. 

Um dia antes de o Conselho de Supervisão do Facebook devolver para a empresa a decisão sobre a permanência de Trump na rede social, ele criou um blog com cara de plataforma dentro de seu próprio site. 

A seção fazia parte do principal portal da campanha presidencial derrotada, usado pelo ex-presidente para arrecadar dinheiro e vender os produtos com a logomarca  MAGA – Make America Great Again. 

A ferramenta – chamada de “Da Mesa de Donald J.Trump”, em alusão ao tempo em que ocupava o cargo e dando a ideia de que ele ainda dirigia o país –  não permitia interação, mas foi desenhada para facilitar o compartilhamento de mensagens no Facebook e no Twitter.

Parecia boa ideia, mas não emplacou. No dia 2 de junho, a rede americana CNBC informou que o espaço estava saindo do ar. 

A NBC News chegou a noticiar que o blog obteve apenas 212 mil engajamentos no total, muito menos do que os tuítes do ex-presidente.

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 A saída virou motivo de chacota nas redes sociais, como a sugestão de que “Trump cancelou a si próprio”.

Gettr, uma rede para apoiar Trump

Ainda não era a rede própria, mas em 4 de julho, dia da Independência dos EUA, um aliado de Trump, Jason Miller, anunciou a criação da rede Gettr, uma abreviatura para Getting Together (ficando juntos).

Miller trabalhou como porta-voz do ex-presidente na Casa Branca e continuou falando por Trump na mídia e nas redes sociais mesmo depois do fim do mandato. 

Um dia após o nascimento, a Gettr entrou no radar da First Draft, que monitora fake news globalmente.

Em um comunicado, a agência apontou que o mito da eleição roubada, repetido diversas vezes por Trump durante o pleito americano, virou tema central na plataforma, que também abriu espaço para perfis ligados ao movimento QAnon.

Embora a rede não tenha versão em português, brasileiros usaram as redes sociais para convocar usuários. 

 

O desafio da Truth Social é provar que o ex-presidente conseguirá retornar ao mundo das mídias digitais com a mesma força que tinha quando era presidente, usando as grandes plataformas globais que ele agora abomina, mas que continuam tendo um impacto maior sobre a sociedade. 

Para isso, ele vai precisar de muitas coisas, incluindo dinheiro. E a confiança de investidores no projeto depois de adiamentos e problemas técnicos é uma pedra no caminho. 

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