Especial
PARCEIRO DE CONTDO
FOTO: GERD ALTMAN / PIXABAY
urnout, ansiedade, depreso, suicídio, distúrbios
alimentares e de sono, ndrome do nico, transtorno
do ficit de atenção com hiperatividade (TDAH),
consumo de subsncias, autismo e mal de Alzheimer
m sido discutidos mais abertamente na imprensa,
nas redes sociais, nas corporações, nas falias e entre
amigos, sobretudo depois da crise do coronavírus.
Mas a representão de pessoas afetadas, os canais de
ajuda ou a forma de dialogar e escrever sobre queses
emocionais nem sempre são as mais adequadas.
Campanhas como o Janeiro Branco e o Setembro
Amarelo o instrumentos poderosos para a
conscientização sobre um desafio que faz parte das
metas do Pacto Global da ONU para o alcance dos
Objetivos de Desenvolvimento Sustenvel, e está cada
vez mais associado à agenda ESG.
A Lei 14.831/2024, que criou no Brasil o Certificado
Empresa Promotora da Saúde Mental, incentivando
empresas a assumirem parte da responsabilidade pelo
bem-estar emocional de seus blicos, é um reflexo da
ateão a essa questão historicamente cercada de
medo, preconceito e desconhecimento.
Saúde mental: como tornar realidade o
sloganSe precisar, peça ajuda
“Adia ainda
o encontrou um lugar
de total conhecimento
sobre saúde mental”
nesta edão
LUCIANA GURGEL
EDUARDO RIBEIRO
Editora-chefe
MediaTalks, Londres
Publisher
Jornalistas&Cia, São Paulo
Jornalistas
americanos
‘breaking up with
the news’
lio Bilate | Consultor
REDÕES
ENTREVISTA
Reynolds
Journalism
Institute examina
burnout e sugere
caminhos
Pesquisa britânica
constata benefícios
do trabalho remoto
10
9
EUA | El Orazem
O tema da campanha de prevenção do suicídio Setembro
Amarelo este ano é justamente “Se precisar, peça ajuda”.
Para isso, é vital quebrar o medo, o tabu e o estigma que
funcionam como barreiras para a busca de suporte,
afetando relacionamentos, carreiras e desestruturando
equipes.
Nesta edição, trazemos um olhar internacional sobre como a
dia evoluiu no reconhecimento do problema nas
redações, no apoio aos seus profissionais e na abordagem
da questão na cobertura
Mostramos também como a síndrome do burnout está
afetando profissionais do setor, tanto os que estão nas
redações quanto os que atuam em comunicação corporativa
- e ideias para mudar essa realidade.
Abordamos ainda visões sobre a influência das redes sociais
na saúde mental, incluindo a dos profissionais de imprensa
e de comunicação, alvos de assédio e sobrecarga.
E compartilhamos ideias e guias de linguagem para tratar as
condições emocionais de forma sensível, respeitosa e
eficiente. Esperamos que sejam inspiradoras e úteis no
trabalho e na vida.
Boa leitura!
2
5
RELÕES
PÚBLICAS
8
COMUNICAÇÃO
INTERNA
Como ela pode
ajudar?
Pesquisadores
investigaram
14
Scia |Claudia Wallin
Escalada de violência
urbana afeta
equilíbrio emocional
de jornalistas e do
blico
12
Ilia |Fernanda Massarotto
O impacto das
condições de trabalho
na saúde mental de
empregados e
freelancers
15
20
Quem decide a
hora certa de
recarregar as
baterias ?
TRAUMA
EXEMPLOS
Campanhas
contra vergonha
e felicidade
obrigatória
27
PALAVRAS
IMPORTAM
Um guia para
evitar linguagem
estigmatizante
24
REDES SOCIAIS
É preciso tirar o so da
sala para proteger a saúde
mental dos jovens ?
22
23
OPINIÃO
Agatha Lulkowska |
Staffordshire University
O esgotamento na
indústria criativa pode
ser evitado?
19
ASSÉDIO DIGITAL
PEN America recomenda
apoio de pares para lidar
com carga emocional sobre
profissionais de mídia
11
CULTURA DO
ATESTADO’
Saúde mental vira
guerra cultural no
Reino Unido
B
3
Sde Mental,
‘pedra angular
nos relatórios
corporativos
ESG
Embora a descrição clássica dos pilares ESG o inclua o
cuidado com a saúde emocional de funciorios, clientes e
consumidores como uma obrigação, iniciativas para promover o
bem-estar mental entraram na agenda das corporações como
parte dos pilares ESG.
Um paper da Deloitte de autoria da consultora canadense Lisa
MacVicar aponta o desafio de recolher dados sobre bem-estar
para os relarios corporativos, mais concentrados em métricas
como lesões e doenças gerais.
Os pilares ambientais, sociais e de governaa de uma
organização impactam diretamente o bem-estar
mental dos funciorios”, afirmou MacVicar.
Entre os exemplos citados estão a discriminão racial, que pode
causar ansiedade e depressão, com efeitos sobre produtividade,
confiaa, satisfação, absentsmo e rotatividade, e as alterações
climáticas, que afetam o bem-estar humano, seja de funcionários
ou da sociedade. A consultora sugere uma mudaa nos
pametros atuais:
“As expectativas de bem-estar no local de trabalho e o papel do
empregador aumentaram. É hora de desenvolver uma linguagem
comum e um conjunto comparável de métricas que possam ser
usadas para relatar a gestão e os impactos ESG”, defende.
Sde Mental nos relarios ESG
ESG
3
O paper completo pode ser visto aqui.
Foto: Tung Nguyen / Pixabay
terceira edição da Pesquisa de Bem-Estar no Trabalho, elaborada
pela consultoria Deloitte, traz a receita para desafios que m crescido
nos últimos anos, como o esgotamento desenfreado dos trabalhadores,
o declínio de sua saúde mental, as ansiedades geradas no local do
trabalho e os eventos climáticos extremos: o investimento na
sustentabilidade humana.
O conceito baseia-se no grau em que uma organizão cria valor para
as pessoas como seres humanos, deixando-as com maior saúde e
bem-estar, compencias mais fortes e maior empregabilidade,
oportunidades de carreira e progresso em direção à equidade, maior
pertencimento e maior coneo com o prosito.
O estudo foi realizado em colaborão com a empresa de pesquisa
Workplace Intelligence e ouviu 3.150 executivos, gerentes e
trabalhadores em quatro países, demonstrando que abraçar a
sustentabilidade humana pode criar um ciclo benéfico no qual a
melhoria dos resultados humanos melhora os resultados
organizacionais e vice-versa.
A principal concluo é que a mudança de uma mentalidade centrada na
extrão de valor das pessoas para uma abordagem centrada na
sustentabilidade humana, que se concentra em ajudar os seres humanos a
prosperar, sejam os funcionários ou os demais públicos de interesse, traz
os seguintes benefícios a longo prazo para pessoas e organizões:
Aumenta a capacidade de atrair e reter uma força de
trabalho diversificada;
Ajuda a desenvolver e envolver os trabalhadores;
Torna os locais de trabalho mais gratificantes e produtivos;
Protege empresas e trabalhadores contra uma variedade de
riscos;
Aumenta o apelo da organização para consumidores e
investidores.
o à toa, a maioria dos executivos (93%) e trabalhadores (88%) concorda
que o objetivo de uma empresa deve ser criar valor o apenas para os
acionistas, mas também para os seres humanos e a sociedade.
A
Leia mais sobre a pesquisa aqui.
No Brasil, pesquisa usou relarios
integrados para eleger as melhores em
práticas de bem-estar emocional
Enquanto parâmetros espeficos não são definidos, informões
contidas nos relatórios integrados podem funcionar como indicadores.
O Anrio da Sde Mental nas Empresas, desenvolvido pelo Instituto
Philos Org e pelo Portal Integridade ESG, classificou a performance de
empresas brasileiras com base em iniciativas declaradas sobre seis
vetores: Programas de Promão da Saúde Integral; Desenvolvimento
de Lideranças e Psicoeducação; Psicologia, Psicoterapia e Psiquiatria;
Meditação, Yoga e Práticas Integrativas; Grupos de Afinidade e Ações
em Comunidade, dias, Canais e Plataformas e Psicometria e Data
Analytics.
Veja as melhores em cada setor
Alain Rosolino
Pessoas em 1º. lugar. Com esse foco, a Enel Brasil
avança no movimento de valorização do indivíduo,
para apoiar seus cerca de 8 mil colaboradores
próprios na busca por equilíbrio entre a vida pessoal
e a profissional.
O Programa Global de Bem-estar da companhia,
hub de iniciativas em prol da saúde sica, mental e
emocional dos profissionais que atuam em seus
negócios no país, tem registrado engajamento
crescente.
A adoção de uma rotina mais saudável, por
exemplo, é estimulada por meio de iniciativas que,
além de cuidar do corpo, contribuem para a
integração de colaboradores e parceiros.
Como Empresa Cidadã”, a Enel também ampliou as licenças
maternidade e paternidade, garantindo 120 dias de licença às
es e 20 dias aos pais. Mais de 150 colaboradores e
colaboradoras se beneficiaram da medida.
Esses profissionais também contam com programas como auxílio
creche, aulio a pais de filhos com deficiência, acompanhamento
da saúde de gestantes, sala de aleitamento e espaço kids.
E para facilitar o relacionamento empresa-colaborador, a
companhia criou o Canal Você, onde é possível obter suporte
psicológico, jurídico, social, financeiro, funerário e previdenciário.
Funciona 24 horas por dia, sete dias por semana.
Em 2023, o canal atendeu mais de 16 mil colaboradores e
familiares. Neste ano, o mero de atendimentos já supera os
10,5 mil.
“Queremos fortalecer os caminhos de empoderamento do
colaborador, com escuta ativa e a cultura do acolhimento,
rompendo a fronteira organizacional e apoiando nossas pessoas
nos mais diversos desafios”, diz Rosolino.
Plataforma de Bem-Estar da Enel engaja colaboradores
com ações para equilibrar vida pessoal e profissional
4
O programa de corrida MovEnel é um destaque. Em 2023, foram
13 provas de rua, com 3.371 participantes. Este ano, foram 9
corridas e mais de 2,4 mil inscritos.
A companhia ainda oferece gistica laboral três vezes por
semana, Shiatsu e assinatura da Wellhub (Gympass), que, este
ano, teve a adesão de quase 40% dos colaboradores elegíveis,
11% a mais que em 2023.
“Nossas iniciativas visam o
equilíbrio entre vida pessoal e
profissional, oferecendo um
ambiente de trabalho mais
flexível”, comenta Alain
Rosolino, diretor de Pessoas e
Organizações da Enel.
Neste sentido, a empresa implementou modelo brido de
trabalho, que prevê jornada remota em 40% dos dias da semana
e 60% presencial, para colaboradores elegíveis.
Programa MovEnel: 9 corridas em 2024, com mais de 2,4 mil inscritos
Conteúdo de marca
Os que informam sobre burnout estão entre
os mais esgotados, mostra estudo do Reynolds
Journalism Institute
Pesquisa
ornalistas têm a miso de mobilizar a sociedade em prol de medidas de combate a
fatores que prejudicam a saúde mental e de conscientizar o público, ajudando a reduzir
o estigma e encorajando a busca de ajuda. Mas e se eles próprios estão precisando de
ajuda?
Um estudo em larga escala sobre burnout nas redões foi publicado em fevereiro de
2024 pelo Reynolds Journalism Institute (RJI), da Universidade de Missouri (EUA).
Foram ouvidos 1 mil futuros, atuais e ex-profissionais de imprensa de 50 estados
americanos.
"The Burnout Crisis in Journalism" examina as razões que levaram ao esgotamento
generalizado na instria de nocias e aponta medidas - algumas simples e sem
envolver investimentos - para reverter a situão, sob a perspectiva dos mais afetados.
As entrevistas foram feitas em outubro e novembro de 2023, com uma amostra
concentrada em profissionais ativos em redações (60%) e entre 18 e 44 anos (56%).
Mas a pesquisa incluiu também gente que já deixou a atividade, um grupo que o
pode ser desprezado na busca de solões, já que muitos desistiram devido ao
burnout.
O RJI salienta que o esgotamento o é apenas um problema pessoal, mas tamm
profissional e social, com potencial de prejudicar a qualidade e a credibilidade do
jornalismo e seu papel na democracia.
O trabalho do instituto reconhece que o burnout sempre existiu na atividade, mas
salienta que ele se tornou mais agudo e complexo nos últimos anos, destacando três
fatores:
Prodão de mais conteúdo em mais plataformas, com menos recursos e
menos seguraa no emprego
Preses e ameas crescentes por parte do blico
Dilemas éticos e morais na cobertura de questões sensíveis e traumáticas
O relatório afirma que o esgotamento atingiu "um
esgio crítico e urgente".
E traduz a crise em números:
J
Como as escolas de comunicação estão
abordando a saúde mental, que embora
o seja uma questão nova na profissão,
ganhou mais relevância e visibilidade
desde a pandemia?
A pesquisa do Reynolds Journalism
Institute descobriu que apenas 6% dos
profissionais em atividade e 3% dos ex-
jornalistas entrevistados foram expostos a
esse tópico em sua formação.
É um reflexo do tempo em que estresse
entre profissionais de imprensa era tratado
como normal.
Sde mental
nas escolas de
comunicação
80 %
84 %
64 %
2 em cada 3
dos entrevistados acham o burnout um
problema sério
dos jornalistas em atividade e 88% dos que
deixaram a profiso admitiram terem sido
atingidos pessoalmente, enquanto mais de
9 em cada 10 relataram ter visto um colega
com esgotamento
dos ex-jornalistas e 43% dos atuais
consideram que a crise de saúde mental
afeta significativamente o jornalismo de
forma generalizada, devido a problemas
como afastamento de profissionais
qualificados e denimo com o trabalho
que deixaram a profissão afirmam
que o esgotamento contribuiu para a
decio
Pelo menos nos EUA a situação está melhorando:
37% dos alunos disseram ter tido aulas
abordando o burnout na profissão.
No entanto, talvez eles ainda não tenham a noção
exata do desafio que os aguarda após receber o
diploma: apenas 53% acham que aprender sobre
o esgotamento mental é extremamente
importante.
entre os professores a consciência é maior: dois
em cada três consideram os ensinamentos sobre o
burnout um benefício para os seus alunos. E 56%
concordam que tal conhecimento teria sido
benéfico para si próprios.
5
Como os bancos estão agindo para
impulsionar boas práticas ambientais de
seus clientes
0% 20% 40% 60% 80% 100%
Estressado
Mentalmente exausto
Cansado
Exaurido
Sobrecarregado
Pouco reconhecido
Fisicamente exausto
Pressionado
Intelectualmente exausto
Insegurança sobre a capacidade
0 20 40 60 80 100
Fazer mais com menos
Corte de verba
Desconfiança do público
Saída de colegas veteranos
Redes sociais
Saída de colegas jovens
Riscos
Responsabilidades gerenciais
Partidarismo
Tecnologias de distribuição
Tecnologias de apuração
0% 20% 40% 60% 80%
Apaixonado
Realizado
Feliz
Conectado
Esperançoso
Confiante
Motivado
Satisfeito
Valorizado
Enquanto paixão (76%) e realização (72%)
apareceram no topo da lista de sentimentos
positivos, refletindo o senso de missão dos
profissionais de imprensa, "valorizado" e
“satisfeitofiguram empatados em último
lugar (56%) quando a pergunta refere-se a
todo o tempo de carreira.
Quando a pergunta mudou para os últimos
90 dias, o sentimento menos experimentado
é "satisfação".
Os jornalistas americanos revelaram a extensão do esgotamento quando apontaram quantas vezes experimentaram sensões
geralmente associadas a problemas de saúde mental, em qualquer momento da carreira. Os dados o semelhantes a pesquisas com
outras atividades, como carreira executiva e até esportiva.
Sentimentos negativos e positivos
O estudo do Reynolds Journalism Institute detalha as percepções dos
profissionais sobre a atividade e como elas estão relacionadas à crise
de burnout. O enxugamento das equipes emerge como o maior vilão, e
o acontece apenas no jornalismo, mas em todo o mundo
corporativo, devido a demises em massa em vários setores.
Ao serem perguntados sobre o que mais contribui para a erosão do
sentimento de confiança no trabalho, para a dificuldade de produzir
bom jornalismo e para o risco de burnout, a obrigão de "fazer mais
com menos" foi a causa principal, com 87%, seguida de perto por
"corte de budget", com 85%.
Mais da metade dos entrevistados (53%) se disse pessimista com o
jornalismo. Os bem jovens (incluindo os estudantes) eso mais
positivos. Na faixa entre 18 e 24 anos, apenas 36% expressaram
pessimismo.
Erra quem pensa que os mais desanimados com a profiso o os
veteranos. Excetuando-se os que deixaram a atividade, os mais
pessimistas (63%) são os jornalistas em meio de carreira, de 25 a 34
anos. Entre os que m 35 a 54 anos, a taxa é de 55%.
Velhos e novos motivos para o burnout
Estressado, mentalmente exausto,
cansado, exaurido e sobrecarregado
aparecem no topo da lista de sentimentos
negativos, com taxas acima de 80%.
Um percentual significativo disse duvidar
de sua própria capacidade de fazer bom
jornalismo, o que pode explicar por que
dois em cada três ex-profissionais
afirmaram que o esgotamento contribuiu
para o abandono da profissão.
% % % % %
6
Fonte: RJI
Fonte: RJI
Fonte: RJI
Pesquisa