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“Rainha dos Papparazzi” da França indiciada em caso de suborno para favorecer Sarkozy com matéria na Paris Match

Site da agência Bestimage

Uma das mais influentes figuras da mídia francesa de celebridades, Mimi Marchand, foi indiciada neste sábado (5/6), acusada de subornar uma testemunha para dar entrevista à revista semanal Paris Match mudando as acusações de corrupção que fizera contra o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy. A entrevista tinha sido anexada ao processo a que o político respondia, mas não foi suficiente para evitar sua condenação.

Além de Mimi, a polícia francesa indiciou outras quatro pessoas por forjar a entrevista, realizada em Beirute. O grupo é acusado de formação de quadrilha com o objetivo de tentar persuadir uma testemunha a cometer crime de perjúrio.

Entre os indiciados, que negam a acusação, estão também um dos principais consultores de relações públicas da França, Arnaud de La Villesbrunne, que já dirigiu a agência Publicis; o empresário Pierre Reynaud e Noël Dubus, já condenado por fraude.

O repórter da revista Paris Match François Labarre, que assinou a reportagem, chegou a ser preso mas foi liberado no mesmo dia e não foi indiciado.

Michele “Mimi” Marchand tem 74 anos e é conhecida como a “Rainha dos Paparazzi” da França, por contratar, como dona da agência fotográfica Bestimage, os mais ousados desses profissionais em atividade no país. Depois de iniciar a carreira como dona de boates para lésbicas em Paris, ela tornou-se amiga de vários dos poderosos do país, entre eles a mulher de Sarkozy, Carla Bruni, e Brigitte Macron, esposa do atual presidente.

A entrevista alvo da investigação foi com o empresário negociador de armas Ziad Takieddine, de 70 anos, tio de Amal Clooney, esposa do ator George Clooney. Na reportagem, feita no Líbano, Takieddine inocentou Sarkozy, retirando suas declarações de que tinha repassado a assessores de Sarkozy a quantia de 5 milhões de euros em dinheiro do ditador da Líbia Muammar Gaddafi para financiar a campanha presidencial de 2007.

Takieddine aceitou também assinar uma declaração perante um advogado, confirmando a inocência de Sarkozy num documento de 14 páginas, que foi anexado ao processo.

Logo após a publicação da entrevista, o ex-presidente Sarkozy chegou a comemorar, afirmando:

“Finalmente a verdade foi revelada.”

Perante juízes, empresário disse que entrevista foi distorcida

Dois meses depois da entrevista em que retirara suas acusações, Takieddine promoveu nova reviravolta no caso. Interrogado em 14 de janeiro deste ano em Beirute pelos magistrados Aude Buresi e Marc Sommerer, Takieddine não confirmou o que dissera na entrevista, alegando que suas palavras teriam sido distorcidas pela Paris Match, “por pertencer a um amigo de Sarkozy”.

A revista é do grupo Lagardère, que tem Nicolas Sarkozy como um dos membros do conselho fiscal.

De acordo com a apuração do jornal Le Parisien, Noël Dubus foi duas vezes a Beirute para se encontrar com Takeddine antes da realização da entrevista. Dubus teria recebido pagamentos via Arnaud de La Villesbrunne, que foi um dos coordenadores da campanha presidencial de Sarkozy.

Segundo o jornal Liberation, o empresário Pierre Reynaud, por sua vez, forneceu os recursos que foram repassados por Dubus ao entrevistado Takieddine.

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Marchand admite que estava no Líbano no momento da entrevista

Depois de detida e enquanto estava sob custódia policial, Mimi Marchand admitiu que estava em Beirute no momento da entrevista de Ziad Takieddine à Paris Match.

As investigações apontaram que ela ajudou a organizar a entrevista, que foi publicada com fotos tiradas por um dos profissionais que trabalha para a sua agência.

Sua advogada, Caroline Toby, deu a seguinte explicação à polícia, reproduzida pelo Le Monde:

“Mimi agiu como uma jornalista que teve a exclusividade desta entrevista com Takieddine. Ela apenas organizou as fotos e a entrevista, dentro do escopo de seu trabalho.”

“Rainha” já inventou entrevista falsa com guarda-costas de princesa

Depois de sua carreira como empreendedora de boates lésbicas, Mimi trabalhou como repórter de uma revista da qual foi demitida por forjar uma entrevista. Na ocasião, ela foi acusada de ter inventado uma entrevista falsa com o guarda-costas da princesa Diana.

Após a demissão, Marchand fundou a Bestimage, que emprega muitos dos fotógrafos que investigam a vida alheia em atividade na França, conhecidos como paparazzi.

Ela nega o envolvimento com a entrevista de Takieddine. “Não tenho nada a ver com esse negócio”, disse ela ao site de notícias francês Mediapart.

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Paris Match diz que prisão é tentativa de intimidação

Em nota, a Paris Match disse que o jornalista François de Labarre foi preso na frente de seu filho de 8 anos por cinco policiais que chegaram em sua casa às 6h da quinta-feira (3/6).

A revista considerou a prisão como “uma tentativa de intimidação contrária a todos os princípios democráticos” e manifestou indignação pelo que considerou “um ataque contra a liberdade de imprensa”.

Entrevista forjada não evitou condenação de Sarkozy

Mesmo tendo o depoimento de Takieddine como uma das peças decisivas do processo, Sarkozy acabou por ser condenado por corrupção em março de 2021. A sentença foi de três anos de detenção, dos quais dois foram suspensos e um deverá ser cumprido na prisão.

A pena, porém, não está sendo cumprida porque Sarkozy recorreu da decisão.

Em maio deste ano, Sarkozy tornou-se réu em outro processo de corrupção, desta vez por conta da eleição presidencial de 2012. Depois de perder essa campanha e também a seguinte, de 2016, anunciou sua retirada da vida pública.

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