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Jornalista conta como perdeu o furo que derrubou ministro da Saúde do Reino Unido

A repórter Isabel Oakenshot. Foto: perfil Twitter

A história do jornalismo mundial está cheia de erros de avaliação, e o que acabou de acontecer no Reino Unido com Isabel Oakeshott, experiente repórter da revista The Spectator, vai entrar para o panteão das grandes pautas perdidas.

Em um artigo publicado na edição da revista que acabou de chegar às bancas, a jornalista revela que deixou de publicar as fotos do ex-secretário nacional de saúde do país, Matt Hancock, em cenas tórridas com a assessora de imprensa, que acabaram sendo divulgadas pelo The Sun, desencadeando uma crise política de proporções pandêmicas. 

A repórter não perdoou a si própria por não ter acreditado na fonte que passara a ela dias antes as imagens depois entregues ao The Sun: “Como Hancock, fui uma idiota.

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Oakeshott contou no artigo como perdeu o furo que foi muito além de um caso de infidelidade conjugal, já que expôs o desrespeito do homem forte da pandemia às regras de isolamento que ele tinha como missão defender. 

A matéria foi tão importante — pois fez cair o secretário e abriu uma série de questionamentos sobre conduta do governo na pandemia — que os jornalistas que se envolveram nela também viraram notícia. 

E as condições em que o furo foi obtido tornaram-se alvo de especulações sobre se teria havido pagamento a quem entregou as fotos, uma prática relativamente comum entre os tabloides. 

Editora do The Sun deu entrevista para detalhar publicação da foto

A publicação das fotos custou não apenas o cargo de Hancock, mas também o fim de seu casamento assim como o da assessora, Gina Coladangelo.

Em uma entrevista ao programa The Media Show na Rádio BBC, Victoria Newton, editora do jornal, esquivou-se da pergunta sobre se o jornal tinha pago pelas fotos.

Disse que não ia comentar “para não expor o denunciante”. E que preferia ir para a cadeia a entregar o nome dele. Mas afirmou que não tinha sido contactada pela polícia.

Há uma investigação sobre a existência da câmera no gabinete de uma autoridade do calibre de Hancock sem que ele soubesse. E sobre como as imagens vazaram. 

Amiga de faculdade de Hancock, ela era casada com um importante empresário do varejo, dono da rede Oliver Bonas. 

O tratamento da imprensa ao caso e os comentários nas redes sociais não se concentraram nos aspectos morais, e sim no desrespeito às regras de isolamento que toda a população era obrigada a cumprir.

No momento do beijo, os britânicos estavam proibidos de se aproximar de pessoas que não fizessem parte de seu núcleo doméstico. 

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Ao comentar a publicação das fotos, Newton contou que o jornal certificou-se da segurança jurídica. E que ela própria ligou para Matt Hancock na véspera: “Eu disse a ele que tínhamos a história e que iríamos publicar, porque o interesse público era muito forte.”

Por que Isabel Oakeshott dispensou a história?

Em seu artigo, a repórter da Spectator contou que no dia 20 de junho, um domingo, recebeu uma mensagem de texto de uma fonte, “um empresário muito bem-sucedido” que queria “expor a hipocrisia de Hancock”.

De um remetente anônimo de email, Oakeshott recebeu uma imagem pequena e granulada, que agora sabe-se que foi proveniente da câmera de segurança do ex-secretário. 

Ela pediu mais informações sobre a foto e a origem, que não vieram. O que veio em seguida foi a oferta para o The Sun. 

A jornalista admitiu a falha de julgamento, dizendo que “nunca tendo subestimado conscientemente minha capacidade de revelar grandes histórias, isso foi no mínimo constrangedor”. 

Oakeshott lembrou que seus furos causaram a prisão de um ministro do gabinete (Chris Huhne); a renúncia do embaixador do Reino Unido em Washington (Sir Kim Darroch); e constrangeram figuras políticas como William Hague (ex-líder do Partido Conservador, casado que estava dividindo um quarto de hotel com um jovem ajudante) e o Príncipe Andrew (de quem revelou emails comprometedores). 

Na manhã em que revelou a notícia, site do The Sun ficou fora do ar

Segundo alguns jornais, Matt Hancock correu para casa para dar a notícia à mulher, Martha, que na mesma noite deixou a residência do casal. 

O impacto foi gigantesco como era de se esperar. A notícia tomou conta das redes sociais e da pauta de toda a imprensa.

O site do The Sun ficou fora do ar na sexta-feira de manhã por cerca de 35 minutos. Mais tarde o jornal publicou o vídeo, que se tornou o mais visto na história do título.

Newton disse que a história gerou um recorde de visualizações de página, com o tráfego do site e do aplicativo “muito alto” durante todo o fim de semana.

E comentou que alguns podem ter esperado um trocadilho na primeira página — uma piada sobre sexo feita pelos “melhores redatores de manchetes do mundo”, mas que a posição do jornal não foi a de tratar o beijo de forma “antiquada”, como na década passada: 

“Foi uma matéria séria de jornalismo responsável sobre um ministro do gabinete potencialmente infringindo a lei e se comportando com extraordinária hipocrisia.”

Insatisfação como lockdown pode ter sido motivador de vazamento

Diante do que revelaram a jornalista que recusou o furo e a editora que não o deixou escapar, tem-se a impressão de que o vazamento foi um ato de inconformismo com a situação do lockdown prolongado.

Isso tem gerado insatisfação de parte da população, mas sobretudo de empresários e de parlamentares indignados com os efeitos sobre a economia de suas bases eleitorais – e pressionados por doadores e eleitores. 

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O curioso é que a Spectator pertence à família Barclay, que também é dona do Daily Telegraph e de um grupo de empresas que inclui o Hotel Ritz de Londres. O comando sempre foi dos bilionários “Barclay Twins”, os irmãos gêmeos Frederick e David, que morreu em janeiro de 2021.  

Tanto a Spectator quanto o Daily Telegraph são politicamente alinhados ao Partido Conservador, que está dividido quanto à permanência de restrições que afetam os negócios. Uma denúncia contra seu principal defensor se encaixaria à perfeição na linha editorial contrária aos “excessos” do isolamento. 

Repórter revelou o “Piggate” de David Cameron

O furo máximo do currículo de Isabel Oakeshott foi na biografia não autorizada do ex-premiê David Cameron, que ela assinou com o político Michael Ashcroft. 

O livro revelou a história de um ritual de iniciação da Universidade de Oxford a que Cameron teria se submetido, que incluiu inserir “uma parte de sua anatomia íntima” na boca de um porco.

O chamado “Piggate” chegou a inspirar um episódio do seriado Black Mirror. 

Com esse histórico, é de se entender porque Isabel Oakenshott não se perdoou por ter deixado o que deve ser o furo do ano escapar. No artigo publicado, ela disse ter decepcionado a fonte e a si própria. Ao mesmo tempo explicou a decisão sob um argumento que tira o sono de muitos jornalistas: o risco de cair em uma armadilha. 

“Vigaristas e excêntricos enviam coisas estranhas aos jornalistas o tempo todo. Meu contato — um empresário muito bem-sucedido — certamente não era nada disso, mas parecia um emissor improvável desse tipo de notícia.”

Jornalista afirma que teve medo de ser vítima de fraude

Oakeshott relatou ainda que em sua rotina recebe muitas pistas falsas. “A pandemia levou todos os tipos de teóricos da conspiração e brincalhões à loucura, criando condições de trabalho perigosas para os jornalistas. Grupos de mensagens privadas nas redes sociais estão inundados com absurdos sobre a agenda secreta de Bill Gates para microchipar a raça humana.”

Ela disse que existem muitos documentos governamentais falsos de aparência muito convincente circulando, e que sua posição costuma ser “ultracética”, mas admitiu que a partir de agora terá que levá-los mais a sério.

A repórter recordou casos em que jornalistas britânicos experientes foram vítimas de fraudes, com consequências devastadoras, como o de Piers Morgan. Ele foi demitido do cargo de editor do jornal Mirror em 2004, por publicar fotos — que depois se revelaram falsas — mostrando prisioneiros iraquianos sendo torturados por soldados do exército britânico.

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Cautelosa para não cair em golpes semelhantes, ela disse ter desconfiado de vários sinais na foto enviada pela fonte, como a posição estranha das mãos do Secretário de Saúde, sugerindo uma montagem. Ou a forma como o cabelo dele estava repartido.

E contou ter duvidado que um homem bem casado como ele estivesse em seu gabinete com uma “morena ardente”. 

A jornalista lamentou que tenha esnobado a fonte, “uma figura antiestablishment com uma visão obscura dos políticos em geral e um desdém particular pelos arquitetos da política de lockdown”. 

No entanto, parece ter aprendido uma lição, fazendo uma quase ameaça a quem sair da linha e entrar no seu radar:

“Estou mais faminta do que nunca pelo próximo escalpelamento político. Este foi o único que me fugiu. Aviso aos outros políticos com esqueletos no armário: o próximo não vai escapar das minhas mãos.”

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