Depois de encarar a alta exposição global ao acender a pira olímpica na abertura das Olimpíadas, e de aceitar conversar com jornalistas ao final da partida que venceu nos Jogos de Tóquio na segunda-feira (26/7), a tenista Naomi Osaka parecia ter superado os problemas com a mídia que a levaram a deixar o torneio de Roland Garros por se recusar a participar de coletivas de imprensa, há dois meses.  

Mas a derrota nesta terça-feira para a 42ª no ranking mundial, a tcheca Marketa Vondrousova, demonstra que as pressões continuam a afetar o desempenho da atleta feminina mais bem paga do mundo, que assim perdeu a chance da medalha de ouro.

Leia também: Tóquio 2020 – “Foto feia” de halterofilista gera reclamação de embaixada chinesa contra agência de notícias

Além das altas expectativas nela depositadas, Osaka não está imune a críticas, como o questionamento feito por um comentarista australiano sobre se ela seria “japonesa o suficiente” para acender a pira, já que vive nos Estados Unidos desde os dois anos de idade. 

Diferentemente do que aconteceu na última segunda-feira, Osaka saiu da quadra onde perdeu em pouco mais de uma hora por 6-1 e 6-4 dizendo que não ia falar com a imprensa. Voltou atrás e conversou com um pequeno grupo de repórteres, assumindo as dificuldades. 

Problemas revelados em Roland Garros

Segundo a Associated Press, ela admitiu que sua postura diante da situação não foi tão boa, porque realmente não sabe lidar com tal pressão. “Então, foi o melhor que poderia ter feito”, afirmou.

A tenista, de apenas 23 anos, disse ficar desapontada com cada derrota, mas considerou a de Tóquio “pior do que as outras”. E classificou a pressão como “um pouco demais”. 

As pressões a que Naomi se refere começaram a ser expostas ao mundo em grande estilo, durante um dos torneios do Grand Slam. No dia 26 de maio, anunciou via Twitter que não iria participar das entrevistas coletivas do torneio de Roland Garros, na França, alegando que faziam mal à sua saúde mental.

Mas diferentemente das perseguições que alguns famosos sofrem na rua, as coletivas são parte do contrato dos atletas com o circuito Grand Slam – e com os patrocinadores – o que desagradou o torneio e gerou reação enérgica. Ela acabou multada em US$ 15 mil e desistiu de participar do campeonato. 

Tóquio parecia ser a chance de atleta dar a volta por cima.

Twitter da atleta ficou em silêncio após derrota

Na conversa de segunda-feira, em que respondeu apenas a duas perguntas de jornalistas em língua inglesa e duas de emissoras japonesas, ela foi indagada sobre como se sentia retomando o contato com a imprensa. Disse não achar “estranho”, afirmou estar feliz por falar com a mídia, e justificou a ausência afirmando que estava “apenas focada em jogar tênis”. 

No Twitter, onde tem 1,1 milhão de seguidores, a derrota desta terça-feira ainda não tinha sido mencionada até o fechamento desta matéria. A última postagem é da véspera, com uma mensagem otimista confirmando o espírito positivo que transpareceu aos jornalistas: “Estou aqui para me divertir”. 

Mas afinal, quais são as pressões? Naomi Osaka não é a única celebridade ou atleta a sofrer cobranças da imprensa e de usuários de redes sociais. Mas ela definitivamente não lida bem com isso, e não esconde os sentimentos. 

Na nota em que anunciou estar deixando Roland Garros, em maio, ela  afirmou não ser uma “pessoa pública”, que se sente bem falando para grandes audiências. E que depois do torneio queria se reunir com os organizadores para melhorar o processo para jogadores, para a imprensa e para os torcedores.

Leia também: Negros que perderam pênaltis na final da Eurocopa viram alvo de racismo online

Algumas propostas já teriam sido encaminhadas aos organizadores, como a de permitir que os participantes tenham o direito de se recusar a atender a imprensa em alguns jogos do circuito anual, quando não se sentirem bem. 

No entanto, o clima em Tóquio era favorável para a tenista, que tem dupla nacionalidade, americana e japonesa, e ganhou o presente de acender a pira olímpica, o que chamou de “a maior honra esportiva que jamais terá”.  Vinha sendo saudada como a heroína do Japão olímpico. Então, o que deu errado?

Japonesa o suficiente? 
Will Swanton (Divulgação/ Penguin Books)

Ela não revelou o motivo de ter se desestabilizado na partida contra a tcheca. Mas pode ter se sentido afetada por ver que a escolha para abrir os Jogos não agradou a todos. Em um artigo no The Australian publicado há dois dias, o jornalista Will Swanton, um premiado jornalista esportivo e autor de livros, questionou: “o quão japonesa é Naomi Osaka”?

Ele a descreve como uma “mulher nipo-haitiana-americana multicultural, multirracial, com uma maravilhosa mistura de linhagens em suas veias”. 

Ele comparou a escolha à do atleta Yoshinari Sakai, um sobrevivente da bomba atômica lançada em Hiroshima na Segunda Guerra Mundial, para acender a pira dos jogos de Tóquio de 1964. E considerou a opção pela tenista este ano como “um mero golpe”. 

O australiano disse não ser um ataque contra a pessoa, mas acha que se valessem as regras do local onde o atleta é radicado, a tenista deveria competir com a camisa americana. Lembrou que ela se descreve como “cidadã do mundo”, embora não esconda o orgulho de sua herança e identidade japonesa. E foi além, mencionando uma suposta falta de conexão de Osaka com os fãs japoneses.

“É ok não estar ok”

Naomi Osaka pode não saber lidar com pressões e com cobranças da mídia, mas adota uma postura franca sobre o tema.

Em um artigo de sua autoria publicado na revista americana Time há algumas semanas, ela descreve suas dificuldades e explica os sentimentos de forma transparente e rara em um meio em que atletas devem ser vistos como heróis fortes e invencíveis. 

Ela disse não ser contra a mídia, e sim contra o sistema de entrevistas coletivas obrigatórias após as partidas do circuito Grand Slam. E admite que “nunca se pode agradar a todos” em um mundo dividido como o de hoje. 

Patrocinadores continuam com Osaka 

No passado, expor fragilidades poderia custar caro a atletas, desagradando patrocinadores que associam sua imagem a vencedores destemidos. Não é o caso nos dias de hoje. As redes sociais de Naomi Osaka estão cheias de marcas líderes, que não deixaram de apoiá-la depois que revelou suas dificuldades emocionais. Há até uma Barbie inspirada nela. 

A atleta virou também uma queridinha de revistas de moda e comportamento, estrelando capas como a da Sports Ilustrated e Vogue Hong Kong, que saiu na semana passada. E foi promovida por ela própria em suas redes.

A aparente contradição entre aversão a jornalistas durante os torneios de tênis e a facilidade com que parece lidar com a imprensa em situações em que está no controle é um sinal claro que o problema de Naomi Osaka não é exatamente com a imprensa, ou com a fama. Ela não é obrigada por contrato a posar para capas de revista. E nem precisa desse dinheiro. 

Os sinais são de que as dificuldades estão mais relacionadas à forma como lida com críticas, capazes de desestabilizá-la emocionalmente. Ao fazer perguntas sobre o seu desempenho ou comentar sobre suas atitudes pessoais, a imprensa acaba virando o alvo mais direto para externar o desconforto. 

Leia também

Federação de jornalismo aproveita Tóquio 2020 para pedir fim do sexismo no esporte e na cobertura esportiva