Ezra David Romero

Em meio a uma terrível seca de vários anos no estado da Califórnia (EUA), que durou de 2011 a 2017, conheci agricultores cujas safras foram prejudicadas por um clima mais quente.

Eu segui os bombeiros enquanto eles lutavam exaustivamente contra os incêndios florestais cada vez mais graves. Conheci famílias, geralmente de cor, cujas torneiras estavam quase sem água.

Anos depois, trabalhando para a CapRadio, estação da NPR que cobre Sacramento, vi protestos estourarem em todo o país após o assassinato de George Floyd. Ali a conexão entre mudança climática e justiça social ganhou um foco mais nítido.

Justiça climática e racismo 

Meu tempo ficou dividido entre a mudança climática e o problema racial da América. Eu já sabia bem que os pobres, as comunidades de cor e os grupos indígenas sofreriam mais e primeiro os impactos da mudança climática. A começar pelos deslocamentos, até a insegurança habitacional, a poluição do ar e seus riscos para a saúde pública. 


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O ano passado deixou bem claro: os sistemas que impulsionam a mudança climática são muitas vezes os mesmos que estão por trás das divisões raciais e de classe na América e em todo o mundo.

Estamos falando de roubo de terras, indústrias extrativas, uma economia baseada no crescimento que valoriza o lucro acima da dignidade e do bem-estar do trabalhador e de práticas habitacionais racistas e discriminatórias.

Como uma pessoa negra, à medida que tudo isso começou a acontecer, senti a questão do clima se abrir em minha mente, revelando uma riqueza de histórias que nós, jornalistas, quase sempre deixamos de lado por muito tempo.

Mudanças climáticas ligadas às desigualdades sociais 

Hoje, trabalhando na KQED em São Francisco, costumo cobrir temas ligados à justiça climática, que reconhece que as mudanças do clima estão inexoravelmente ligadas às desigualdades sociais existentes. 

Como repórter, se você vai cobrir as mudanças climáticas, também precisa estar atento à justiça climática. Se você vai fazer isso, precisa ter cuidado, talvez até um pouco de raiva justificada. Aqui estão algumas lições que aprendi com minhas próprias reportagens sobre o tema.

(Markus Spiske/Unsplash)

Justiça climática é respeito humano básico

Em primeiro lugar, falar sobre justiça climática não é defesa — é respeito humano básico. As pessoas que entrevistamos estão pagando pelas escolhas conscientes de empresas, governos e indivíduos mais ricos.

Frequentemente, eles não têm os meios para ir além das restrições que lhes são impostas. Nossas reportagens podem ajudar essas comunidades, iluminando e iniciando conversas públicas difíceis.

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Foto: Alan Rodriguez
É preciso falar dos problemas climáticos e também mostrar soluções

Na minha experiência, cobrir justiça climática é principalmente ouvir. Isso significa cobrir mais do que as lutas das pessoas, o que transmite muitas vezes a desgraça e a tristeza, mas negligencia soluções e retrata os afetados apenas como vítimas.

As pessoas em comunidades marginalizadas ou oprimidas têm vidas ricas e complexas que incorporam luta, problemas financeiros e preocupações com a saúde, sim, mas também alegria. Nossas reportagens devem exaltar essa humanidade. 

As experiências das pessoas com as mudanças climáticas não são isoladas. Se uma comunidade está sofrendo impactos climáticos, frequentemente essas experiências ecoam em outras partes do país ou ao redor do mundo.

Sempre que possível, nossas narrativas devem refletir essas experiências compartilhadas para demonstrar ao nosso público o desafio que a mudança climática representa. Afinal, a humanidade já está compartilhando os fardos da mudança climática, e esses fardos provavelmente aumentarão, mais cedo do que podemos pensar.

Ouvir especialistas, pesquisar e escutar a comunidade

Quando estou trabalhando em uma matéria de justiça climática, primeiro procuro cientistas que estudam os impactos climáticos relevantes na região. No meu caso, na Califórnia, isso pode ser calor, seca, aumento do nível do mar ou incêndios florestais.

Eu faço uma pesquisa profunda na internet, leio estudos e analiso os achados científicos mais recentes — essencialmente, o trabalho que qualquer repórter precisa fazer para ser capaz de conectar os pontos para si mesmo e, em seguida, para seu público.

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Isso é essencial em uma época em que muitas pessoas, especialmente nos Estados Unidos, teimam em não reconhecer a necessidade urgente de ação recomendada pela esmagadora maioria dos cientistas.

Sempre me certifico de que minhas fontes são diversas, tendo o cuidado de mostrar especialistas que são mulheres, pessoas de cor e vozes LGBTQ+.

Também é importante verificar que seus especialistas não sejam estranhos à questão.

Frequentemente, você descobrirá que há experiência dentro da comunidade que você está cobrindo. Incluí-la aumentará sua credibilidade e, mais importante, o poder das histórias humanas que você está trabalhando duro para transmitir.

(Li An Lim/Unsplash)
Tempo para se conectar com os entrevistados

Eu me encontro com a comunidade várias vezes e dou às pessoas fundamentais para a matéria o máximo de tempo que posso.

Por exemplo, para uma matéria sobre a elevação do nível do mar em East Palo Alto, uma fonte começou uma entrevista dizendo que não confiava na mídia. 

A mulher, que fugiu de sua Samoa nativa para escapar do clima violento de lá, e acabou tendo que se defrontar com o aumento do nível do mar nos Estados Unidos, disse que os repórteres que ela encontrara mudaram suas palavras e até mesmo deturparam as matérias.

Vendo a desconfiança em seus olhos, tirei meu chapéu de repórter e falei com ela como se fôssemos bons amigos. Aprendi sobre sua história de vida, suas preocupações e suas aspirações. Também compartilhei um pouco da minha trajetória, incluindo como entrei no jornalismo e minhas motivações para contar o que ela tinha a dizer. Depois que nos conectamos, ela se abriu.

Emergência climática é um tema essencialmente humano

Minhas entrevistas não são conversas rápidas de vinte minutos. Meu tempo é gasto tomando chá, fazendo caminhadas e reuniões na comunidade, além de (muitas) conferências por Zoom. Às vezes, estou lá enquanto as famílias choram umas com as outras. Outras vezes, elas riem.

A emergência climática é um tema profundamente humano e, portanto, meu objetivo em cada entrevista é me conectar — seja com um cientista, um membro da comunidade ou uma autoridade.

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Cobrir o tema é desvendar porque os vulneráveis são os primeiros prejudicados

A história da justiça climática muitas vezes não é bem contada, se é que é contada. Como a própria crise climática, as narrativas dominantes da mídia em torno da mudança climática foram moldadas pelas nações mais ricas e pelas redações mais importantes, cujos membros mais poderosos costumam ser desproporcionalmente brancos. 

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Foto: Jonathan Ford/Unsplash

A mudança climática causada pelo homem é o resultado de sistemas que desvalorizam fundamentalmente a Terra e muitos de seus habitantes. Cobrir a justiça climática significa desvendar porque a crise climática está prejudicando primeiro os mais vulneráveis.  

Evoluindo junto com a apuração dos fatos

No fim das contas, tento responder a três perguntas: tenho cuidado das pessoas sobre as quais estou escrevendo ou estou usando-as para os interesses de minha matéria? Essa reportagem fará diferença para as vidas envolvidas, políticas públicas ou soluções climáticas? E, por último, como evoluí durante o processo de apuração?

Nos melhores casos, acho que me preocupo mais profundamente e vejo a emergência climática de uma nova maneira, porque dediquei tempo para conhecer as pessoas mais afetadas por ela.


Este artigo foi compartilhado pela Covering Climate Now, uma colaboração jornalística global destinada a ampliar e aprimorar a cobertura da imprensa sobre a emergência climática. O MediaTalks by J&Cia integra a iniciativa.

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