Londres – No movimento de apoiar o Taleban, que tomou o poder no Afeganistão, a China usou sua mídia estatal numa tentativa de dar legitimidade ao grupo extremista islâmico, atacando duramente os Estados Unidos (EUA), que teriam fracassado e apenas feito os contribuintes americanos enriquecerem barões da indústria armamentista.

Neste domingo, o Global Times, jornal estatal chinês em língua inglesa, publicou matérias favoráveis ao Taleban, criticou a atuação dos EUA em um editorial e deu espaço para manifestações de internautas por meio das redes sociais. A narrativa insufla o sentimento antiamericano e prepara o terreno para uma provável formalização do reconhecimento do novo governo.

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O editor-chefe do jornal,  Hu Xijin, postou uma mensagem no Twitter dizendo que internautas chineses estavam fazendo piadas com a transição de poder no Afeganistão, sugerindo que havia sido  “mais tranquila” do que a transferência presidencial americana, em alusão aos conflitos no Capitólio, em Washington, que deixaram cinco mortos em janeiro. 

Hu estava fazendo referência a uma postagem feita no Weibo, a versão chinesa do Twitter, de um usuário chamado Chen Zen, que escreveu: “Que piada. Em Cabul hoje, a passagem do governo foi ainda mais estável do que quando os EUA mudaram de presidente”.

No mesmo dia, o jornal publicou uma reportagem sobre o avanço do Taleban sobre a capital Cabul. 

A matéria afirma que “muitos internautas em todo o mundo compararam a situação atual com a evacuação dos EUA de Saigon (agora chamada de Ho Chi Minh City), no Vietnã em 1975, para zombar do fracasso dos EUA e das ações militares inúteis no mundo em desenvolvimento, bem como daquelas pessoas que ainda têm pensamentos positivos quando se trata do governo dos EUA”. 

A reportagem chinesa cita ainda usuários do Weibo, dizendo que “aquelas pessoas que acreditam profundamente nos EUA nunca aprendem a lição, apenas são abandonadas pelos americanos como lixo” e “a guerra de 20 anos termina como um piada. Soldados americanos morreram por nada, o Taleban voltou, e a única mudança é que mais pessoas morreram e os contribuintes americanos desperdiçaram seu dinheiro para alimentar os magnatas militares-industriais dos EUA.”

Diplomacia chinesa já havia se encontrado com o Taleban

Na última semana de julho, o conselheiro de Estado chinês e ministro das Relações Exteriores, Wang Yi, reuniu-se na China com a delegação visitante liderada pelo chefe da Comissão Política do Taleban Afegão, Mullah Abdul Ghani Baradar, em Tianjin.

O Global Times noticiou que Wang “reiterou a esperança da China de que o Taleban coloque os interesses do país em primeiro lugar, mantenha bem alto a bandeira das negociações de paz, estabeleça a meta da paz, construa uma imagem positiva e busque uma política inclusiva”.

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Neste domingo, outra reportagem destacou a possibilidade de a China participar do esforço de reconstrução do Afeganistão, e minimizou a violência do grupo extremista. O texto ridiculariza a atuação americana, que levou a uma “derrota humilhante”. 

A matéria cita entrevista com o Zhu Yongbiao, diretor do Centro de Estudos do Afeganistão na Universidade de Lanzhou, que relatou não ter visto massacres ou mulheres sendo abusadas, e que a maioria das grandes cidades foi capturada sem luta.

“Há algumas acusações contra o Taleban, mas não vimos evidências concretas ainda. A evacuação da embaixada dos EUA também não foi interrompida ou atacada. Tudo isso mostra que a guerra não terá um fim violento “, disse Zhu.

Editorial ressalta derrota dos EUA, campanha ocidental da mídia e minimiza intenções do Taleban

No editorial deste domingo, o Global Times segue com o mesmo discurso: 

“A mudança drástica na situação do Afeganistão é, sem dúvida, um duro golpe para os EUA. Declarou o fracasso total da intenção dos EUA de remodelar o Afeganistão. Nesse ínterim, o plano de retirada desesperado dos EUA mostra a falta de confiabilidade dos compromissos dos EUA com seus aliados: quando seus interesses exigirem o abandono de aliados, Washington não hesitará em encontrar todas as desculpas para fazê-lo.”

O texto afirma que a mídia ocidental “exagera” sobre a possibilidade de o Taleban vir a apoiar grupo terrorista Movimento Islâmico do Turquestão Oriental (ETIM), na Região Autônoma Uigur de Xinjiang, o que estaria preocupando a China.

O editorial ainda culpa o Ocidente pela violência na região:

“Os EUA e o Ocidente defenderam os terroristas em Xinjiang em nome dos “direitos humanos”, embelezaram seus atos terroristas como “resistência contra o regime chinês” e instigaram os “Três Males” em Xinjiang ideologicamente. 

O Ocidente até fez vista grossa quando as forças terroristas internacionais visaram a China. Os padrões duplos do Ocidente são o maior desafio para os esforços de contraterrorismo da China.”

“A China nunca cairá na armadilha que a opinião ocidental criou especialmente para a China. A guerra antiterror dos EUA falhou. São os EUA e o Ocidente que devem enfrentar o maior desafio da situação em mudança no Afeganistão.”

Porta-voz do Taleban entrou ao vivo na BBC 

Enquanto isso, o Taleban também demonstra um esforço para melhorar a sua imagem internacional. Neste domingo, um porta-voz do grupo extremista, Suhail Shaheen, ligou para apresentadora Yalda Hakim, da BBC, ao vivo no ar, e deu uma longa entrevista. 

Falando em inglês, ele disse que os extremistas querem uma “transferência pacífica de poder”. Shaheen afirmou que não houve uso de força, questionou a veracidade de assassinatos atribuídos ao Taleban nos últimos dias e garantiu que os afegãos estavam livres para deixar as cidades tomadas, embora essa não fosse a recomendação. 

A apresentadora questionou o porta-voz sobre os planos do Taleban para o país em meio à preocupação de que os militantes imponham interpretações estritas da lei islâmica, incluindo punições corporais e proibição de meninas irem à escola.

Ofensiva extremista tem grande impacto sobre a liberdade de imprensa no Afeganistão

Com a chegada do Taleban à capital afegã Cabul e tomada das principais cidades do país, a situação dos jornalistas trabalhando no país fica ainda mais crítica, com alto risco tanto para correspondentes estrangeiros quando para profissionais locais. A IFJ (Federação Internacional de Jornalistas) lançou na última sexta-feira uma campanha para apoiar as vítimas da onda de violência e contra as ameaças a meios de comunicação do país. 

Membros da organização Repórteres sem Fronteiras visitaram o país na última semana de julho para avaliar a situação, constatando que mais de 50 meios de comunicação (principalmente estações de rádio e TV locais) já tinham naquele momento encerrado operações em áreas controladas pelo Taleban.

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Segundo a IFJ, 10 veículos fecharam no dia 11 de agosto na província de Baghlan, tomada pelo grupo.  

Os que continuaram operando passaram a transmitir apenas conteúdo religioso, semelhante ao transmitido pela “A Voz da Sharia”, a estação de rádio oficial do Taleban — e conteúdo imposto pelos rebeldes islâmicos. 

A federação formulou um plano de ação para salvaguardar a imprensa, encaminhado às autoridades locais, mas sua aplicação torna-se cada vez mais improvável diante da tomada do poder pelo grupo extremista.

Últimas semanas tiveram registros de jornalistas assassinados no país

Nas últimas semanas foram assassinados dois jornalistas afegãos, um fotógrafo da agência Reuters e o chefe do Centro de Mídia e Informação do país, Dawa Khan Minapal, em Cabul.

A IFJ ressalta que as jornalistas são particularmente visadas, tanto por seu trabalho quanto por causa da percepção do Taleban sobre as normas sociais.

Nos últimos meses, centenas de mulheres jornalistas foram forçadas a fugir, proibidas de trabalhar ou mesmo submetidas a ataques assassinos direcionados.

A organização afirma que todos os profissionais da mídia que cobrem a situação no Afeganistão estão atualmente arriscando suas vidas. A Associação de Jornalistas Independentes do Afeganistão e a União Nacional de Jornalistas do Afeganistão estão fornecendo apoio emergencial para ajudar os jornalistas a tomarem medidas de proteção e buscarem segurança. 

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