Londres – Marcando o 69º aniversário do presidente russo Vladimir Putin e também o 15º aniversário do assassinato da jornalista investigativa russa Anna Politkovskaya, comemorados neste 7 de outubro, a organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) realizou atos diante das embaixadas do país em vários países, em protesto contra a falta de liberdade de imprensa na Rússia.

Os manifestantes soltaram balões pretos com a hashtag #UnhappyBirthdayMrPutin nos pontos de encontro.

Segundo a entidade, o objetivo foi protestar contra a impunidade pela morte da jornalista, cujos assassinos até hoje não foram identificados e punidos. E lembrar ao aniversariante do dia que desde sua posse, quase 40 jornalistas foram mortos no país.  

Os protestos contra Putin ganharam ainda um reforço, com o jornalista russo Dmitry Muratov premiado junto com a filipina Maria Ressa com o Nobel da Paz 2021, pelos esforços em prol da liberdade de expressão e de imprensa.

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Além de estar escrita nos balões, a hashtag crítica a Putin ganhou espaço também nas redes sociais. 

Em Londres, a representante da RSF e diretora de campanhas, Rebecca Vincent, soltou os balões diante da embaixada.

Anna Politkovskaya investigava torturas e sequestros na Chechênia

Assassinada a tiros dentro do elevador do prédio em que morava em Moscou, em 7 de outubro de 2006, Anna ficou famosa por sua cobertura sobre a segunda guerra da Chechênia, feita para o jornal Novaya Gazeta.

Ela denunciou o governo Putin por corrupção, violações de direitos humanos e abusos cometidos por autoridades russas durante o conflito.

Várias entidades lembraram o aniversário de sua morte, lamentando a impunidade. 

Segundo a Associação de Jornalismo Investigativo do país, Politkovskaya estava reunindo relatos de testemunhas com fotografias de corpos torturados para um artigo que preparava para o Novaya Gazeta, a ser publicado dois dias depois de sua morte.

“Nós nunca recebemos o artigo, mas ela tinha provas sobre estas pessoas [sequestradas] e havia fotos”, afirmou o editor do Novaya, Vitaly Yerushensky, para uma rádio russa na época do assassinato.

Em Moscou, os balões foram colocados diante da casa de vítima da repressão à imprensa na Rússia.

Em sua cobertura, a jornalista se tornou a única porta-voz das vítimas do conflito e um símbolo da luta pela liberdade de imprensa na Rússia.

Christophe Deloire, secretário-geral da RSF, lamentou que, mesmo após quinze anos, aqueles que ordenaram o assassinato da jornalista ainda não foram identificados, apontando a não resolução do caso como falta de vontade policial. 

“A impunidade é ainda mais trágica porque o assassinato prescreve hoje”, disse. 

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Segundo a RSF, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos decidiu em 2018 que o assassinato de Anna não foi devidamente investigado, mas as apurações não avançaram desde então.

“Vladimir Putin poderia oferecer a seu país um verdadeiro presente em seu aniversário – um ataque frontal à impunidade em um país onde quase 40 jornalistas foram mortos desde que ele assumiu”, disse a RSF. 

Houve protestos também em Paris, Genebra e na Espanha, com os balões pretos simbolizando o luto. 

Governo Putin e a liberdade de imprensa

No ranking anual de liberdade de imprensa da RSF, que avalia a situação em 180 paíes, a Rússia ficou em 150º lugar em 2021. O Brasil está em 111º. 

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Vladimir Putin tem um lugar de destaque na galeria de “predadores da liberdade de imprensa” que a RSF publicou em julho, da qual o presidente Jair Bolsonaro também faz parte. 

Alguns dos líderes ranqueados estão há mais de duas décadas em atividade, enquanto outros estrearam este ano na lista, que pela primeira vez incluiu duas mulheres e um europeu.

Segundo a organização, “todos são chefes de Estado ou de governo que espezinham a liberdade de imprensa criando um aparato de censura, prendendo jornalistas arbitrariamente ou incitando à violência contra eles, quando não têm sangue nas mãos porque, direta ou indiretamente, pressionaram para que jornalistas fossem assassinados”.

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Contra a lei do agente estrangeiro 

As perseguições não cessam. Na última semana de agosto, os principais veículos da imprensa independente do país publicaram um manifesto pedindo o fim da política de corrosão da imprensa livre do governo Putin.

A Rússia tem desde 2017 uma lei que permite rotular publicações e jornalistas como agentes estrangeiros, e também obriga a imprensa independente a revelar em suas reportagens os financiadores do veículo. 

Diversas publicações fecharam com a fuga de investidores, temerosos pela exposição. Jornalistas foram tachados como inimigos do Estado, tendo que sair da Rússia sob pena de acabarem presos.   

Além do estrangulamento político e financeiro, a imprensa na Rússia denuncia ainda espancamentos e detenções de jornalistas em comícios e manifestações públicas.

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Mídias sociais no alvo 

O governo de Vladimir Putin tem se voltado também para as mídias sociais, impondo leis restritivas criticadas por cercearem a liberdade de expressão e dificultarem o ativismo. 

No embate mais recente, sobrou para o governo da Alemanha, depois que a emissora Russia Today, a “BBC russa”, teve dois canais em alemão banidos pela plataforma de vídeos do Google sob a alegação de divulgar fake news a respeito da Covid-19.

A reação de Moscou foi ameaçar bloquear tanto o YouTube quanto veículos alemães como a rede Deutsche Welle no país.

Dmitry Peskov, o porta-voz do Kremlin, acusou o YouTube de violar a lei russa e invocou “tolerância zero” para o que vê como ato de censura da empresa americana.

Conflitos como esse não são novidade no Reino Unido, onde a RT  já foi multada pelo órgão regulador de TV por violar regras de imparcialidade no caso do envenenamento de ex-agentes secretos russos em 2019, além de ter tido seu credenciamento negado para cobrir uma grande conferência de liberdade de imprensa em Londres há dois anos. 

*texto atualizado em 8/10.

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