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Segregação racial e abusos na história dos EUA viram munição para militância negra antivacina

(Ehimetalor Akhere/Unsplash)

A segregação racial nos Estados Unidos (EUA), além de deixar marcas combatidas até hoje por movimentos como o Black Lives Matter, acaba virando também munição na mão de influenciadores que se colocam entre os negros e a Covid-19 no país.

Embora mais de 75% dos americanos já tenham tomado pelo menos uma dose da vacina contra a Covid-19, a taxa de adesão é de apenas 43% entre os negros, que são os que mais morrem da doença nos EUA. E um dos motivos que contribui para esse quadro, embora não o único, é a desinformação nas redes sociais. 

A agência de checagem de fatos First Draft fez um estudo examinando postagens direcionadas a pessoas negras, trocadas entre elas ou tratando de temas de seu universo, como o racismo.

E descobriu um vasto terreno de fake news e conteúdo enganoso colocando a população negra em dúvida a segurança da imunização, associando a vacina à discriminação racial e alimentando desconfiança nas instituições de saúde americanas. 

Influenciadores negros antivacina seguem impunes, observa agência

O estudo sobre o impacto da desinformação envolvendo negros e a Covid-19 analisou conteúdo postado em Facebook, Instagram e Twitter entre novembro de 2020, antes de as vacinas estarem aprovadas, e junho de 2021, quando os programas de imunização já estavam avançados em vários países, incluindo os EUA. 

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Com base nos resultados, a First Draft cobrou das empresas de rede social mais rigor em casos de violações de políticas da comunidade por populares influenciadores negros, que segundo a agência, seguem impunes. 

E pediu ao Facebook e ao Instagram que facilitem o acesso aos dados para pesquisadores e jornalistas que investigam os tipos de informações apresentadas às comunidades negras nessas plataformas. 

Recomendou ainda a jornalistas e pesquisadores que “não fiquem na superfície” ao tratar da baixa taxa de vacinação entre negros, atribuindo-a apenas à desinformação e deixando de lado questões estruturais, como barreiras ao acesso a saúde.

O trabalho foi feito pelas pesquisadoras Kaylin Dodson (First Draft), Jacquelyn Mason (Media Democracy Fund) e pelo jornalista Rory Smith, também da First Draft.

O estudo coletou postagens de páginas e grupos não verificados do Facebook e de contas no Instagram e Twitter. Também foram monitorados influenciadores negros nas mesmas plataformas. 

Desconfiança da população negra com a vacina se apoia no receio com instituições 

A falta de confiança em relação às instituições oficiais é um dos temas propagados por influenciadores. Conteúdos com o objetivo de ganhar a confiança dos negros na vacina foram frequentemente recebidos com desconfiança e suspeita por vozes negras nas redes, que os apresentaram como tentativas de coagi-los a tomar a vacina. 

“Onde a desconfiança nas instituições já é alta, essas mensagens, que são emotivas e acompanhadas de reivindicações antivacina, podem ser ainda mais potentes.”

A pesquisa constatou também que a retórica antivacina alimenta teses de racismo sistêmico. “Conteúdo falso sobre vacinas dirigido ao público negro nas redes sociais costumam ser baseados em danos médicos do passado e em exemplos de racismo institucional atual, como a crise de saúde materna negra”, diz o estudo. 

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Um exemplo citado é o de uma reportagem no jornal Washington Post explicando ser apropriado enviar a vacina Johnson & Johnson contra Covid-19 para comunidades mais difíceis de alcançar porque é uma vacina de injeção única, mais fácil de armazenar do que as vacinas Moderna e Pfizer.

A distinção foi percebida por muitos nas comunidades negras em redes sociais como representando um “sistema de vacina de duas camadas”, com a distribuição das vacinas segregando classes e raças.

Influenciadores negros antivacina permanecem impunes, alerta agência

No estudo, a First Draft reclamou da impunidade desfrutada por influenciadores negros antivacina.  

“Embora algumas dessas postagens contivessem alguma de verdade, o que pode complicar os esforços de moderação, muitas delas eram exemplos claros de desinformação sobre vacinas. 

Essas postagens permanecem ativas nas redes sociais, especificamente no Facebook e Instagram, onde a maioria das postagens relacionadas à teoria da conspiração aparece.”

Segundo a pesquisa, muitas postagens antivacina no Instagram receberam apenas uma notificação de isenção de responsabilidade sobre o conteúdo. 

O recurso é aplicado indiscriminadamente a postagens que mencionam Covid-19 ou vacinas, independentemente de conterem informações incorretas.

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Mas os pesquisadores dizem ser importante lembrar que se preocupar com a segurança das vacinas contra a Covid-19 não significa que uma pessoa seja um ativista antivacinação.

 “Ser hesitante é muito diferente de ser ‘antivacina’ —  confundir indivíduos hesitantes com ‘antivacina’ pode resultar em estigmatização.”

Migração de narrativas antigas se coloca entre negros e a Covid-19 nos EUA

Os temas encontrados não são exclusivamente associados a pessoas negras. Os pesquisadores identificaram narrativas falsas comuns a outros grupos populacionais, como as de que as vacinas são perigosas para as mulheres ou causam infertilidade. 

A ideia de que as vacinas podem causar efeitos reprodutivos se disseminou entre os influenciadores brancos antes de migrar para as comunidades negras.

Postagens feitas em abril pelo influenciador Imani Cohen e pela cantora Summer Walker ajudaram a espalhar essas afirmações para a maioria do público negro. 

Mas a First Draft atribui a difusão e crença nessas teses à desconfiança de alguns negros nas instituições de saúde e ao efeito de anos de racismo institucional, exploração e experimentação médica em populações não-brancas.

O exemplo mais citado é o de Tuskegee, um estudo clínico para testar um medicamento contra sífilis realizado entre 1932 e 1972. O caso virou referência de abuso por parte do governo e de instituições médicas, pois um grupo de participantes não recebeu tratamento, e muitos não sabiam do risco que corriam. 

Várias postagens encontradas pela pesquisa compararam o programa de imunização da Covid-19 a Tuskegee.  

Outros posts sublinharam a necessidade da ciência “corrigir um erro”, apontando para o caso de Henrietta Lacks como outro exemplo em que os negros foram explorados pelo sistema médico. Ela era negra, morreu de câncer em 1951 e suas células foram utilizadas sem consentimento e sem conhecimento da família para pesquisas científicas. 

A First Draft identificou nas redes sociais conteúdo apoiando esta narrativa sob o argumento de racismo atual no sistema médico, usando a morte da médica americana Susan Moore como o mais recente exemplo do tratamento desigual que os negros recebem.

Ela morreu de Covid-19 reclamando de ter sido vítima de racismo em seu tratamento. 

Também foram encontradas várias postagens, algumas ligadas a conservadores negros como Olivia Rondeau, que referiram-se a notícias mostrando profissionais médicos negros e celebridades sendo vacinados como uma vasta campanha de marketing para incentivar a participação negra em uma vacina “insegura”. 

Segurança das vacinas também vira fonte para desinformação

Outra narrativa popular nas redes sociais e em contas de influenciadores negros monitorados pelos pesquisadores da First Draft foi a segurança da vacina para pessoas negras. 

Vários posts dos relatos de Tariq Nasheed (ativista e fundador da Foundational Black Americans) e da página do Facebook de Samantha Morlote (uma embaixadora do grupo conservador Lexit) apontaram para as mortes de afroamericanos proeminentes logo após receberem a vacina Covid-19, incluindo Hank Aaron, Karen Hudson-Samuels e a estrela da televisão Midwin Charles, como evidência de que as vacinas não são seguras. 

Em um tweet sobre a morte de Charles, Nasheed postou “… todos parecem suspeitosamente calados sobre a causa potencial da morte. Eu quero saber o motivo”.

Vários vídeos de uma enfermeira negra afirmando ter desenvolvido paralisia de Bell também foram usados ​​para apoiar esta narrativa, apesar de não haver registro de uma enfermeira registrada desenvolvendo a doença.

Postagens de membros do grupo Nação do Islã, como a página do Dr. Wesley Muhammad no Facebook, também apoiaram a tese, divulgando mensagens relacionadas à teoria da conspiração. 

Uma postagem da página de Muhammad dizia: “Como eu disse em ‘Além de Tuskegee Parte I’, esta luta contra a Máfia da Vacina, que tem como alvo os Negros com sua tecnologia militar experimental disfarçada de vacina, é a luta desta geração”.

Outros conhecidos disseminadores de fake news sobre vacinas, como Simone Gold e Robert F. Kennedy Jr., aproveitaram a experiência histórica de racismo médico e medos dos negros para semear mais desconfiança em torno imunização contra a Covid-19 nas comunidades negras.

Em um vídeo compartilhado nas redes sociais, Gold sugere que as agências governamentais estão realizando uma “operação secreta” para testar vacinas em negros

 

Politização da Covid-19 

O estudo observou ainda que personalidades de direita e meios de comunicação cooptaram as preocupações dos negros com a imunização para politizar o debate em torno da Covid-19. 

Campanhas para vacinar negros foram usadas para minar a confiança no governo do presidente Joe Biden e aumentar as preocupações sobre a legitimidade das vacinas.

A mídia também foi criticada em várias postagens por uma suposta tendência de se concentrar nos negros e não falar sobre a hesitação em tomar a vacina entre populações brancas, especialmente conservadoras.

Nuances não capturadas pela inteligência artificial 

Os pesquisadores lembram que as narrativas online que afetam as comunidades negras são matizadas e multifacetadas, e não monolíticas. 

E que mecanismos de inteligência artificial treinados em conteúdo geral de mídia social relacionado a vacinas podem perder sinais importantes específicos para comunidades negras , o que leva a representá-los incorretamente. 

Para evitar isso, defende o uso de modelos treinados especificamente em dados relacionados à vacina nos espaços online mais utilizados pelas populações negras. 

Recomendações

Com base no relatório, a First Draft fez uma série de recomendações para plataformas, legisladores, profissionais de comunicação, jornalistas e pesquisadores, que desempenham papel essencial para garantir que o acesso a informações confiáveis ​​relacionadas a vacinas seja equitativo e chegue às comunidades negras.

A número um é o rigor maior por parte das plataformas de mídia social quanto à desinformação sobre vacinas contra a Covid-19, não permitindo que influenciadores com muitos seguidores violem as regras de comunidade. 

Os pesquisadores criticaram a política atual: 

“Remover contas menores que disseminam desinformação prejudicial às comunidades negras é inadequado enquanto contas mais proeminentes — como as de Summer Walker e Chakabars Clarke — compartilham informações antivacinas para milhões de seguidores com consequências aparentemente mínimas.”

Para a agência de checagem, simplesmente direcionar isenções de responsabilidade de conteúdo a postagens antivacina contra Covid-19 — isenções de responsabilidade que também aparecem em muitos conteúdos relacionados a vacinas genéricas — provavelmente não diminuirá o impacto sobre os seguidores dessas contas. 

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“Sem moderação consistente para grandes contas, a desinformação da vacina continuará a se infiltrar nas comunidades negras”, afirma o relatório. 

O acesso a informações do Facebook e do Instagram é outra recomendação.  

“Sem acesso a mais dados, jornalistas e pesquisadores enfrentam dificuldades para investigar até que ponto as comunidades negras estão expostas a informações perigosas sobre saúde, e não vêem como as políticas de moderação diferem entre os diferentes grupos demográficos.

 Sem um melhor acesso aos dados, não há como garantir que as plataformas convencionais, como Facebook e Instagram, garantam acesso equitativo a informações confiáveis. “

Jornalistas e pesquisadores 

Há alertas para jornalistas e pesquisadores que investigam desinformação dirigida a negros sobre a Covid-19. A First Draft sugere que prestem mais atenção às plataformas alternativas de mídia social populares entre as comunidades negras. 

“O conteúdo relacionado a vacinas que começa em aplicativos apenas de áudio, como o Clubhouse, pode migrar facilmente para sites marginais, como o Lipstick Alley, ou para plataformas mais convencionais, como o Twitter. Facebook, Instagram e Twitter continuam a ser espaços importantes para monitorar a desinformação e identificar narrativas relevantes para as comunidades negras. “

Por isso, é importante monitorar plataformas alternativas populares para identificar narrativas de desinformação que afetam os negros antes de atingirem um público mais amplo, segundo a agência. 

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Outra recomendação é de que jornalistas busquem identificar as origens da desconfiança dos negros em torno das vacinas Covid-19 e sejam menos reducionistas em suas reportagens, para evitar narrativas enganosas e prejudiciais.  

“Embora a desconfiança nas instituições oficiais possa tornar as populações mais suscetíveis à desinformação, a desconfiança em si não equivale diretamente à produção ou crença na desinformação da vacina ou em narrativas antivacinas. 

Muitos negros pretendem ser vacinados, mas adotaram uma postura de ‘esperar para ver’.”

Embora a desinformação seja alta nas redes sociais, a agência alerta para que não se credite apenas a ela as taxas mais baixas de vacinação entre negros. 

“Ao usar a desinformação como bode expiatório, em vez de abordar a desconfiança generalizada e motivada pela desigualdade e obstáculos, como barreiras estruturais ao acesso, meios de comunicação correm o risco de enganar o público e os legisladores sobre as razões para a baixa aceitação da vacina contra a Covid-19 nas comunidades negras.”

A First Draft pede também a jornalistas e pesquisadores que não se concentrem em apenas uma narrativa, ou apenas em desinformação, pelo risco de perder sinais importantes que, quando considerados em conjunto, podem ajudar a explicar fenômenos mais profundos.

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