MediaTalks em UOL

George Soros e fundador do LinkedIn financiam empresa que vai combater desinformação online nos EUA

Foto: Jacob Baker / Pixabay

“A América vive uma crise de informação”. Com este diagnóstico, a organização Good Information, financiada por Reid Hoffman, fundador e ex-presidente executivo do LinkedIn, e George Soros, entre outros, foi lançada nesta terça-feira (26/10) como uma incubadora para novos modelos de jornalismo e também para fomentar a mídia local nos Estados Unidos.

O objetivo principal da empresa é o combate à desinformação, se colocando como um serviço para aqueles que se preocupam “com a ameaça urgente que o negócio da desinformação está tendo sobre a sociedade e a democracia na América”.

A organização conta com jornalistas e especialistas em comunicação, incluindo ex-funcionários da Casa Branca. 

Grupo pretende fomentar o jornalismo local nos EUA

Em sua proposta inicial, a incubadora visa a investir e formar parcerias com empresas de mídia e plataformas focadas em comunidades — um objetivo de reforço no jornalismo local,  que atenda “interesses e hábitos de consumo de mídia” dos leitores em nível regional em suas reportagens e estratégias de distribuição de conteúdo.

Leia também | Donald Trump anuncia criação da rede social Truth para combater ‘tirania das Big Techs’ sem cancelamento

Segundo o comunicado de lançamento da empresa, “há demanda do público por informações baseadas em fatos, especialmente em mercados que perderam fontes de notícias locais nos últimos anos, e entre públicos que estão sendo deixados para trás por modelos de negócios de mídia em evolução”.

O conselho editorial, com 15 profissionais entre ex-jornalistas de publicações como o Chicago Tribune e BuzzFeed, além de um ex-diretor de comunicação da Casa Branca e um ex-chefe digital do governo americano, será liderado por Tara McGowan, uma ex-estrategista do Partido Democrata (trabalhou na reeleição de Barack Obama), que dirigiu a organização sem fins lucrativos progressista chamada Acronym, focada em soluções de mídia e tecnologia para causas progressistas.

Sob a liderança de McGowan, considerada pela mídia americana uma “veterana” em estratégia política aos 35 anos, a Acronym conseguiu investir US$ 100 milhões (R$ 561 milhões) em uma campanha digital com o objetivo de convencer milhões de americanos a votarem contra Donald Trump nas últimas eleições.

“A Good Information investirá e fará parceria com empresas de mídia e plataformas que centralizam as comunidades que atendem, seus interesses e hábitos de consumo de mídia em suas reportagens e estratégias de distribuição de conteúdo”, afirma a empresa.

Mc Gowan argumenta que “as pessoas querem notícias e informações que são relevantes para suas vidas — mas estão cada vez mais recebendo “notícias” que exploram seus medos e ansiedades para gerar mais cliques e verbas publicitárias”.

Leia também | Fox News funcionava como ‘TV estatal’, admite ex-secretária de comunicação de Trump na Casa Branca

Good Information propõe bom jornalismo contra a desinformação

Embora apoiado e lançado por progressistas, o grupo afirma que seus investimentos não serão pautados pelo espectro político, mas por padrões editoriais direcionados a informações baseadas em fatos.

Na página inicial do Good Information, as fotos de Steve Bannon, ex-marqueteiro de Donald Trump, e do jornalista Tucker Carlson, um dos principais nomes da Fox News, canal frequentemente associado ao ex-presidente, são usadas para ilustrar as palavras disinformation e misinformation, sinônimos em inglês para desinformação. O grupo conspiracionista QAnon também é lembrado.

A proposta central seria conter a desinformação no momento em que ela começa a se disseminar, usando como antídoto um contra fluxo de informações de boa procedência, ou melhor dizendo, jornalismo de qualidade.

“A necessidade de novas soluções para essa crise de informação é urgente”, afirma a incubadora.

“Forças e redes antidemocráticas semeiam desinformação intencionalmente por meio de contas artificiais e manipulação de amplificação algorítmica das plataformas sociais. Mentiras disseminadas por estes atores antidemocráticos são rapidamente amplificadas, resultando em consequências perigosas no mundo real.”

Para McGowan, a crise de desinformação nos EUA aumenta a polarização e causa a erosão da confiança entre os americanos. “Esta não é mais uma disputa política sobre a verdade, mas o resultado direto de modelos de negócios não regulamentados que estão colocando comunidades inteiras ao redor do mundo em risco, e colocando a democracia em todo o mundo em perigo.”

(Reprodução)
Empresa começa com grupo de sites de notícias locais

Uma das iniciativas em curso da Good Information é adquirir o Courier Newsroom, grupo de notícias com sites locais espalhados pelos EUA, criticado por alguns por fornecer um ponto de vista partidário, no caso, democrata.

Em fevereiro, a coluna Recode, do portal Vox, apontou que o investimento inicial na nova organização seria de US$ 65 milhões (R$ 363 milhões).

“Acreditamos que haja uma necessidade urgente de regulamentação das plataformas de mídia social, bem como aumento do investimento em novos modelos que valorizem mais o serviço da verdade às comunidades do que o clickbait e a proteção da democracia contra os lucros”, afirma a empresa em sua mensagem editorial.

O portfólio inicial da Good Information conta com os títulos regionais coordenados pelo grupo Courier Newsroom: Cardinal & Pine (que atende a região da Carolina do Norte), o Copper Courier (centrado no estado do Arizona), o portal Dogwood (dedicado ao estado da Virgínia), Floricua (site de notícias em inglês e espanhol para a população da Flórida), The Gander (em Michigan), Iowa Starting Line (no estado de Iowa), The Keystone (que cobre assuntos da Pennsylvania) e por fim o Upnorth News (dedicado à audiência de Winsconsin).

Além da “herança” do grupo Courier, o FWIW, que monitora tendências políticas no ambiente digital, e também como funcionam as campanhas eleitorais online, faz parte da nova iniciativa.

Incubadora surge em “véspera” de eleição nos EUA; na Austrália, Facebook inicia projeto contra fake news

O grupo Good Information se estabelece às portas de mais uma eleição nos Estados Unidos, que no ano que vem renovará suas casas legislativas. O anúncio do começo das atividades ocorre uma semana após Trump anunciar uma nova rede social, Truth, com a qual pretende desafiar o poder das gigantes de tecnologia, bem como driblar filtros moderadores das outras redes sociais.

Na Austrália, que em 2022 também renova parte dos assentos de seu parlamento, um projeto do Facebook e da agência Australian Associated Press (AAP) inicia a partir do próximo mês o que deve ser um trabalho contínuo de educação midiática da população até as urnas.

Leia mais | Facebook lança campanha para combater a desinformação na Austrália, de olho nas eleições 2022

A campanha será composta por vídeos divulgados durante o mês de novembro nas plataformas Facebook e Instagram, e também por materiais informativos produzidos pela AAP. O Facebook prevê novas ações durante o ano eleitoral.

A campanha dá dicas para avaliar informações e promove o site da AAP FactCheck, no qual jornalistas da agência de notícias publicam os resultados de suas apurações sobre várias alegações.

As peças pedem para que diante de uma informação duvidosa, a pessoa leve em consideração qual a fonte, quais as evidências e o que fontes confiáveis falam a respeito do assunto. O objetivo é incentivar a audiência a examinar criticamente as informações online e melhorar sua educação geral sobre a mídia.

Leia também

De quem é a culpa pela invasão do Capitólio? Depende da TV a que cada americano assiste, diz pesquisa

França cria comissão para combater teorias da conspiração, um “veneno” na sociedade, segundo Macron

Sair da versão mobile