A nova empreitada da Fox nos Estados Unidos (EUA), com a operação de um novo canal de streaming de previsão do tempo, o Fox Weather, gera os esperados debates sobre a concorrência em um mercado saturado, mas tem também contornos à la 2021: como irá uma emissora do magnata australiano Rupert Murdoch, conhecido pelo negacionismo em relação à mudança climática, tratar do assunto?

O serviço da Fox Weather está disponível online, no site e nos aplicativos da rede para smartphones, e iniciou a produção de conteúdo na última segunda-feira (25/10), às vésperas da Cúpula do Clima da ONU (Organização das Nações Unidas), que começa no dia 31 de outubro.

Na entrada ao vivo do enviado especial (que não estava em Glasgow, e sim em Edinburgh), eventos climáticos extremos ocorridos nos Estados Unidos foram associados ao aquecimento do planeta. 

O novo produto não foi o único movimento de Murdoch em relação ao clima — na Austrália, a News Corp, grupo do magnata, promoveu uma grande campanha em jornais este mês (veja mais abaixo).

O ceticismo em relação ao novo serviço da Fox vem da posição de outro canal do grupo nos EUA, o Fox News, que durante a gestão de Donald Trump encampou as bandeiras do negacionismo climático e também em relação a medidas de prevenção da Covid-19.

A emissora foi recentemente caracterizada pela ex-chefe de imprensa da Casa Branca como “TV estatal” do período em que o republicano esteve na Presidência. Stephanie Grasham lançou um livro em outubro como uma apoiadora arrependida, revelando um ambiente tóxico no governo Trump.

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Fox Weather emprega uma centena de profissionais e vai usar pessoal da Fox News

Agora, com a entrada de Murdoch no negócio da previsão do tempo, surgem perguntas na mídia especializada sobre como a Fox Weather explicaria uma onda de calor massiva, ou furacões e cheias extremas provocadas pela mudança climática nos EUA.

Além dos boletins nacionais e locais nos EUA, os usuários do Fox Weather poderão acessar previsões de longo alcance e mapas meteorológicos locais em 3-D.

O investimento inicial passa de US$ 10 milhões (R$ 56,2 milhões) segundo informações do jornal Los Angeles Times, com uma equipe de cerca de 100 pessoas, incluindo 40 meteorologistas, que terão ainda apoio dos 120 meteorologistas em estações de televisão da Fox em todo o país. 

Ainda de acordo com o jornal californiano, o quartel-general em Nova York opera com 32 sistemas gráficos de tempo, mapas de radar e câmeras ao vivo pelos EUA.

Especialistas são céticos quanto a uma “nova filosofia” na Fox quanto ao clima

O passado da Fox gera inquietação a respeito de como deve ser a abordagem da Fox Weather sobre o clima em momentos extremos. O que se vê a princípio são notícias sobre o tempo focadas no momento, sem muito espaço para comentários ou análises inter-relacionando eventos.

Uma análise sobre o furação Sandy, que surpreendeu os EUA em 2012 levando destruição à Costa Leste do país, apesar de ouvir especialistas de diferentes origens, não toca na questão do aquecimento das temperaturas do planeta, apenas caracteriza o fenômeno como “anormal”.

Uma notícia sobre Haloween, o Dia das Bruxas comemorado em 31/10, comenta sobre o calor em algumas partes dos EUA que diminui colheitas de abóbora (usada no tradicional enfeite) e seu armazenamento.

Mas se concentra apenas em dar dicas como “deixar a abóbora na sombra e não passar água sanitária”, sem comentar que a Califórnia, por exemplo, teve um de seus maiores incêndios florestais da história nesta temporada, e que o calor que afeta as colheitas pode ser efeito da mudança climática.

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A notícia sobre o fim das queimadas na Califórnia, veiculada no portal esta semana, igualmente não relaciona ou aborda o tema da mudança climática como fator associado a eventos extremos. Credita o fim do fogo às chuvas na região, que ajudaram a extinguir os incêndios.

“Desserviço a americanos”

“Se a Fox decidir usar seu acesso e credibilidade para informar a audiência sobre as realidades das mudanças climáticas e seus impactos no clima, isso pode mudar o jogo. Por outro lado, se optar por perpetuar a desinformação para promover objetivos políticos, será um enorme desserviço a todos os americanos — conservadores, liberais e moderados”, afirmou o professor Edward Maibach, diretor do Centro de Comunicação sobre Mudanças Climáticas da George Mason University, dos EUA, em entrevista ao jornal The Guardian.

Já em conversa com o Washington Post, Michael Mann, destacado cientista climático da Universidade Estadual da Pensilvânia, nos EUA, que já foi alvo de ataques da Fox News, se mostra cético quanto a uma mudança real de paradigma.

“[A Fox Weather] teria a responsabilidade de dizer a verdade. Mas Murdoch demonstrou ser constitucionalmente incapaz de fazer isso. Devemos presumir, a menos que seja provado o contrário, que esta rede será usada para promover ainda mais a negação do clima e os pontos de discussão da indústria de combustíveis fósseis”.

Procurado pelo Post, um porta-voz da Fox Weather disse, sobre as declarações de Mann: “Cientistas presumindo que qualquer coisa é muito perigosa”.

Na Austrália, News Corp surpreendeu ao assumir a mudança climática, ainda que com ressalvas

Executivos ligados a Murdoch deram algumas sinalizações de que a Fox passaria a tratar a mudança climática como algo factual,  tanto em declarações de executivos da Fox News quanto de uma campanha lançada este mês em tabloides da Austrália, lar da News Corp, o grupo do empresário.

Jornais como The Daily Telegraph, Herald Sun e Courier Mail, veicularam a campanha “missionzero2050”, uma iniciativa anunciada para colocar “a Austrália no caminho para um futuro com zero emissões”.

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Com isso, o grupo de Murdoch passou por uma pequena “repaginada” no que diz respeito à abordagem sobre a mudança climática, assumindo a questão como algo real e preocupante, algo que surpreendeu críticos e provocou bastante barulho nas redes sociais, como aponta a pesquisadora Gabi Mocatta em artigo no portal The Conversation.

“A mudança surpreendeu os observadores da mídia australiana e, sem dúvida, os consumidores da mídia devido à posição de negação climática de longa data da News Corp, que está bem documentada em comentários públicos e pesquisas.”

Ainda assim, segundo a especialista, nas reportagens, que seguiram as regras estabelecidas para o jornalismo climático, de contar histórias humanizadas e focar em soluções, em vez de problemas, foi possível identificar discursos que ainda favorecem a indústria de combustível fóssil, entre outras bandeiras anteriormente encampadas por publicações do magnata contra medidas para frear o aquecimento global.

Na análise da pesquisadora, o movimento do conglomerado, “a voz mais poderosa da política” na Austrália, segundo o ex-primeiro-ministro Malcom Turnbull, vai na direção de preparar seus leitores para uma mudança de discurso do governo australiano, que sofre pressão para anunciar metas mais ousadas na COP26, nos próximos dias.

Outro ex-primeiro-ministro, Kevin Rudd, ironizou a guinada editorial da News Corp. “Murdoch passou anos trabalhando para assustar as pessoas e fazê-las pensar que não têm futuro além da mineração de carvão. Essa reversão prova que tudo foi uma mentira de motivação política”, afirmou.

Negacionismo na News Corp levou filho de Murdoch a deixar o grupo

Outro precedente importante na história de negação da mudança climática em empresas de Murdoch foi a saída de seu filho, James, do conselho da News Corp em julho de 2020, após criticar a cobertura de veículos da corporação sobre incidentes climáticos, como o Black Summer, como a temporada de incêndios florestais daquele ano ficou conhecida na Austrália.

Na época, o executivo expressou suas preocupações sobre a “negação contínua” da mudança climática na News Corp em face de “evidências óbvias do contrário”.

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Em uma declaração conjunta publicada no site americano The Daily Beast, James Murdoch e sua esposa, Kathryn, disseram que suas “opiniões sobre o clima estão bem estabelecidas e sua frustração com parte da cobertura da News Corp e da Fox sobre o assunto também é conhecida.”

Em entrevista ao Financial Times em janeiro, James afirmou que o ataque ao Capitólio em Washington, quando cinco pessoas morreram, foi uma consequência da desinformação eleitoral defendida pelo presidente Donald Trump e divulgada pelos meios de comunicação.

O executivo e sua mulher publicaram novo comunicado conjunto, atacando a mídia. “Espalhar desinformação — seja sobre a eleição, saúde pública ou mudança climática — tem consequências no mundo real. Muitos proprietários de mídia têm tanta responsabilidade por isso quanto as autoridades eleitas que sabem a verdade, mas preferem propagar mentiras.”

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