Londres – A Rússia desceu mais um degrau na avaliação de liberdade de imprensa das organizações internacionais, desta vez com a expulsão do jornalista Tom Vennink, correspondente em Moscou do jornal holandês Volkskrant.

O visto de Vennink foi revogado pelo Ministério de Assuntos Internos da Rússia no dia 1º de novembro, sob a alegação de “violações administrativas”. O jornalista deixou o país na quarta-feira (3), proibido de voltar até janeiro de 2025.

O caso de Vennick não é isolado. Há três meses, uma correspondente da rede britânica BBC também foi expulsa da Rússia, só que para sempre.

Rússia é um dos piores países em liberdade de imprensa  

No último ranking de liberdade de imprensa da Repórteres Sem Fronteiras, a Rússia já ocupava a 150ª posição entre os 180 países analisados, e atos recentes vêm agravando a situação da mídia independente local e de jornalistas estrangeiros. 

A perseguição não diminuiu depois que o país teve um jornalista como vencedor do Prêmio Nobel da Paz.

Dmitry Murakov, que dividiu o prêmio com a flilipina Maria Ressa, é uma das principais vozes críticas ao governo de Vladmir Putin. O Nobel concedido a ele parece ter aumentado as tensões do governo de Vladimir Putin com a mídia. 

No dia seguinte ao prêmio, o governo enquadrou mais jornalistas e veículos na Lei do Agente Estrangeiro. 

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Holanda classifica expulsão de jornalista de inaceitável 

O jornal Volkskrant disse que a decisão era um “mistério”. O Ministério de Relações Exteriores da Holanda a classificou de inaceitável. Em sua conta no Twitter, ao anunciar um podcast para discutir a expulsão, o jornal pergunta:

“Por que as flechas de Moscou foram apontadas precisamente para ele?”

Jornalista escrevia contra o governo Putin

Tom Vennink escrevia frequentemente sobre temas incômodos para o governo russo. Na semana passada,  ele relatou em uma reportagem que o rapper mais popular da Rússia se meteu em apuros por duvidar da utilidade das paradas militares anuais de vitória.

“Morgenstern, o nome artístico de Alisher Valeev, ousou esta semana descrever os desfiles que comemoram a vitória sobre a Alemanha nazista como caros e desatualizados”, dizia a matéria. 

Segundo o jornalista holandês, o porta-voz de Putin, Dmitri Peskov, acusou Morgenstern de “falta de conhecimento”. O rapper de 23 anos pediu desculpas no Instagram, mas já era tarde demais. 

A matéria informou ainda que um canal de entretenimento cancelou a estreia de um programa que Morgenstern deveria apresentar, e a promotoria pública estava investigando se o rapper pode ser processado sob a lei contra a ‘reabilitação do nazismo’.

Embaixador russo acusa a imprensa holandesa 

As relações entre a Holanda e a Rússia foram afetadas desde que um avião da Malaysia Airlines foi abatido em 2014 quando sobrevoava a Ucrânia, matando todos os seus passageiros, dois terços deles holandeses.

As investigações apontaram como causa um míssil trazido de uma base militar russa em Kursk e disparado por separatistas apoiados pela Rússia. 

A animosidade parece continuar. Dias após a expulsão de Tom Vennink, o embaixador da Rússia em Haia, Alexander Shulgin, foi além do caso dele, criticando toda a mídia holandesa.

Alexander Shulgin Russia
Alexander Shulgin (foto: Twitter)

Em sua manifestação, ele disse que a imprensa da Holanda busca publicar matérias negativas sobre a Rússia,  acusando o país de ações como espionagem e de uso de hackers. 

Bellingcat, site investigativo que incomoda a Rússia

O jornal em que Vennink trabalha nem é tão conhecido fora das fronteiras holandesas. Mas outro veículo baseado na Holanda e de influência global, o site investigativo Bellingcat, tem feito diversas denúncias envolvendo o país.

Ele acaba de ser indicado entre os finalistas do Prêmio Liberdade de Imprensa 2021 da organização Repórteres sem Fronteiras, na mesma categoria que o Intercept Brasil. 

O Bellingcat, com sede na Holanda, investigou os envenenamentos do crítico do Kremlin Alexei Navalny e do ex-agente duplo Sergei Skripal, bem como as atividades de inteligência militar russa na Europa. 

Moscou o acusa repetidamente de estar ligado à inteligência ocidental, uma afirmação que seus jornalistas negam. Ele está entre os veículos atingidos pela lei do agente estrangeiro utilizada para silenciar a mídia crítica. 

Violações menores do passado foram usadas para negar visto

Em entrevista ao Volkskrant, Vennink disse que a dificuldade para a renovação de seu credenciamento de imprensa junto ao Ministério do Interior começou no início do ano, apesar de ele já ter feito esse procedimento várias vezes, por trabalhar como correspondente em Moscou desde 2015.

No comunicado em que informaram por escrito a revogação do visto e da autorização de residência do jornalista, as autoridades citaram duas multas que ele teve que pagar por duas violações ligadas a processos burocráticos impostos pelo governo. 

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A primeira, em 2019, ocorreu porque Vennink deixou de registrar seu endereço residencial em Moscou após retornar de outro município, o que é uma exigência para estrangeiros.

Na segunda vez, ele não pediu permissão prévia do governador local antes de sua visita à província de Chukotka, no norte do país, em janeiro de 2020.

O editor-chefe da Volkskrant, Pieter Klok, disse que as autoridades russas não explicaram por que esperaram tanto tempo para levantar questões antigas.

O próprio Vennink disse que era notável que tais violações menores do passado tenham sido usadas para que seu visto fosse revogado.

Correspondente britânica expulsa em agosto não poderá voltar 

A saída forçada de Vennink acontece três meses depois da expulsão da correspondente britânica da BBC Sarah Rainsford. Ela teve que deixar a Rússia no final de agosto, depois de ter sido apontada como uma “ameaça à segurança” e não ter seu visto renovado.

Sarah Rainsford era correspondente da BBC em Moscou e teve que deixar o país. (Reprodução)

Segundo a correspondente britânica, o caso dela foi ainda pior. Ela disse que as autoridades lhe disseram que ela não poderia voltar nunca mais à Rússia.

Efeito intimidador nos demais correspondentes estrangeiros

Vennink disse que a sua expulsão certamente terá um efeito “intimidador” em outros jornalistas.

Ele disse que a expulsão anterior da britânica Sarah Rainsford já tinha sido uma surpresa para os correspondentes estrangeiros estabelecidos no país, já que os jornalistas russos vinham sendo os alvos preferenciais da ação do governo.

Rússia acusa jornalistas de atuar como agentes estrangeiros

No mês passado, outro jornalista a serviço da BBC, o russo Andrei Zakharov, foi incluído entre os nomes de vários repórteres e veículos enquadrados pelo regime de Putin na lei do “agente estrangeiro”.  

Coincidentemente, a acusação russa aos representantes da imprensa foi feita no mesmo dia em que dois jornalistas foram agraciados com o Prêmio Nobel da Paz, entre eles o russo Dmitry Muratov, editor do jornal independente Novaya Gazeta.

As tensões com o Reino Unido são cada vez maiores, desde que agentes russos foram acusados do envenenamento de Sergei Skripal em solo britânico. 

A rede de TV estatal RT (Russia Today) já foi multada pelo órgão regulador de TV britânico por violar regras de imparcialidade no caso do envenenamento, além de ter tido seu credenciamento negado para cobrir uma grande conferência de liberdade de imprensa em Londres há dois anos. 

(reprodução TV)

Em outubro, a RT teve dois canais em alemão banidos pelo YouTube sob a alegação de divulgar fake news a respeito da Covid-19, enfurecendo Moscou.

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Restrições à liberdade de imprensa para silenciar vozes dissidentes

Os críticos dizem que essas ações são um recrudescimento das iniciativas que vêm sendo tomadas nos últimos anos pelo governo do presidente Vladimir Putin para aumentar as restrições ao jornalismo independente e silenciar as vozes dissidentes.

O Ministério das Relações Exteriores da Holanda disse que tentou impedir a deportação de Vennink junto ao governo russo, mas  não conseguiu reverter a decisão. 

Comitê para Proteção dos Jornalistas pede revogação da expulsão

No dia 4 de novembro, o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) pediu às autoridades russas que revoguem sua decisão e permitam que o jornalista  retorne para continuar seu trabalho na Rússia.

“A expulsão de Vennink cheira a censura e envia uma mensagem perturbadora a todos os correspondentes internacionais baseados na Rússia”, disse Gulnoza Said, coordenador do programa do CPJ para a Europa e Ásia Central, em Nova York.

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