Os primeiros dias da cúpula do clima COP26 tiveram atenção intensa da mídia ao redor do mundo, com a conferência sendo considerada por especialistas a “última chance” para uma para combater o negacionismo climático e iniciar uma revolução tecnologica capaz de reverter os efeitos do aquecimento global.

Neste artigo, o jornalista Mark Hertsgaard, diretor executivo da coalizão global Covering Climate Now (da qual o MediaTalks faz parte), analisa o papel da imprensa na solução da crise ambiental.

Ele constata que a mídia americana aumentou a cobertura sobre temas ambientais, mas indaga se o efeito será duradouro. E manifesta preocupação com veículos que negam as mudanças climáticas, como a Fox News.


Mídia americana e a crise climática 

Covering Climate Now
Mark Hertsgaard

Uma das melhores notícias de Glasgow até agora é que a mídia dos Estados Unidos (EUA) está finalmente prestando muita atenção à crise climática.

Veremos se isso vai durar, agora que o presidente dos EUA, Joe Biden, e outros líderes mundiais voltaram para casa.

Na verdade, na quarta-feira (4/11), o terceiro dia da conferência climática COP26 da ONU (Organização das Nações Unidas), a cobertura dos principais veículos dos EUA estava começando a diminuir.

Mas geralmente é durante a segunda semana de encerramento dessas conferências que os principais acordos são ou não alcançados, então o verdadeiro teste é o que vem a seguir.

Nas primeiras 48 horas da COP26, algumas das maiores vozes da mídia dos EUA trataram as mudanças climáticas como um grande problema. Eles escreveram muitas reportagens sobre o que os líderes mundiais disseram que fariam para desarmar a crise e deram a essas matérias alta visibilidade, publicando-as no topo ou perto do topo das home pages e nas transmissões. 

A cobertura não foi perfeita — cobertura de notícias de última hora raramente é — mas qualquer um que acompanhava as notícias não poderia deixar de notá-la, e isso por si só é muito importante.

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Da Rio 92 à COP26

Como jornalista, cobri as conferências do clima da ONU desde a Cúpula da Terra de 1992, o encontro que pôs em movimento os processos que regem todas essas conferências desde então, incluindo a cúpula revolucionária de 2015, que resultou no Acordo de Paris e as atuais deliberações em Glasgow. 

Nunca as organizações de notícias dos EUA dedicaram tantos recursos da redação, produziram o volume de cobertura total ou deram ao assunto da mudança climática um espaço tão importante como fizeram nos primeiros dias da COP26.

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O Washington Post em particular foi ótimo, espalhando o assunto em toda a primeira página e fornecendo uma visão inteligente após a outra sobre uma série de questões — desde um levantador de cortina obstinado no dia anterior à cúpula até um relatório revelador sobre como o site Breitbart e a rede de televisão russa RT são os principais divulgadores da desinformação climática online. 

O Guardian, por muito tempo o padrão-ouro para cobertura climática, continua liderando o grupo.

Cúpula do clima em Glasgow ao vivo

As atualizações ao vivo da COP26 são indispensáveis. A profundidade da expertise climática do jornal ficou evidente em uma das reportagens mais encorajadoras da COP26: um relatório sobre um estudo científico descobrindo que se os países realizassem as reduções de emissões prometidas nesta cúpula, as temperaturas globais subiriam apenas 1,9 graus Celsius, a primeira vez que o limite desejado de 2 graus foi atingido. 

A cobertura do New York Times incluiu um artigo interessante sobre a emergência das mudanças climáticas como um tema no teatro, cinema e televisão contemporâneos.

As mudanças climáticas lideraram a edição matinal da NPR (National Public Radio, nos EUA), sinalizando para o público: Ouça, algo importante está acontecendo.

A televisão ficou para trás, como costuma acontecer, mas as redes americanas de forma alguma ignoraram Glasgow. A mais notável foi o ABC News, que na semana passada se juntou à coalizão de mídia global Covering Climate Now (que, sendo transparente aqui, eu dirijo) como parte de um compromisso ampliado com o acompanhamento do clima. 

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Baseando corretamente sua reportagem na ciência mais recente, a correspondente da ABC News na Casa Branca, Mary Alice Parks, enfatizou que os compromissos climáticos de Biden em Glasgow, por mais impressionantes que parecessem, eram na verdade “o mínimo do que alguns cientistas do clima dizem ser necessário” para evitar os cenários climáticos mais catastróficos. 

As grandes redes a cabo dos EUA — CNN, Fox News e MSNBC — também se destacaram, exibindo “mais de quatro horas de cobertura combinada no dia de abertura” da COP26, com a CNN liderando, segundo análise do grupo de monitoramento Media Matters.

G20 e COP em datas próximas ajudou 

Não há uma razão única pela qual a mídia dos EUA esteja repentinamente alardeando a reportagem mais importante de nosso tempo.

Mas certamente parte do crédito pertence a quem decidiu agendar a reunião do G20 literalmente no dia anterior — e uma viagem de avião de duas horas de distância — do dia de abertura da COP26.

Biden e outros líderes das 20 maiores economias do mundo — com exceção de Vladimir Putin da Rússia e Xi Jinping da China, que também estavam vergonhosamente ausentes da COP26 (uma prerrogativa da ditadura é não temer a cobertura negativa da imprensa) — estavam quase certos para participar da cúpula do G20 em Roma, o que tornou a adição de uma parada em Glasgow para a COP26 relativamente fácil. 

As viagens de um presidente ao exterior são assunto obrigatório para grandes organizações de notícias. Então elas estariam em Glasgow não importa o que acontecesse, o que mais ou menos as obrigava a cobrir a cúpula do clima.

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Fox News e o negacionismo climático 

Nem toda a cobertura foi ótima, para dizer o mínimo. A Fox, como sempre, tem sido uma celeiro de disparates anticientíficos e pontos de vista de direita. E a ampla cobertura da CNN foi ao ar principalmente fora do horário nobre, quando a audiência é mais alta.

O que mais importa, porém, é que a mudança climática ocupou uma grande parte do noticiário diário. 

O silêncio climático que grande parte da mídia dos EUA praticou nas últimas três décadas começou a quebrar dois anos atrás, quando o movimento de massa inspirado por Greta Thunberg colocou milhões de manifestantes climáticos nas ruas, mas a maioria das redações ainda está bastante silenciosa. 

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Quando a COP26 começou, elas começaram a ficar mais barulhentas, pelo menos por alguns dias.

Fazer barulho faz a diferença. Ficar calado todos aqueles anos deixou o público não apenas desinformado, mas mal informado. A propaganda da indústria e a desinformação propagada pela extrema-direita preencheram o vazio, reduzindo a pressão por uma ação climática.

Imprensa desarma negacionismo do clima

Talvez estejamos testemunhando o amanhecer de um novo dia. Como um sol nascente mata trolls, a cobertura de notícias de qualidade desarma a negação das mudanças climáticas e dissolve a passividade pública. 

A professora Katharine Hayhoe, cientista-chefe da organização Nature Conservancy, diz que a coisa mais importante a fazer a respeito da mudança climática é falar sobre ela.

Os fatos são claros, e a maioria das pessoas, quaisquer que sejam suas visões políticas, deseja um planeta habitável.

Foto: Li An Lim/Unsplash

As organizações de imprensa têm alguns dos maiores megafones do planeta. A cobertura de segunda e terça-feira foi um bom momento para o jornalismo, para o envolvimento público com a crise climática e para as chances da humanidade de se afastar do que o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, chamou de “a beira do abismo”.

Agora, os jornalistas vão manter o ritmo?


Mark Hertsgaard é o diretor executivo da Covering Climate Now, uma iniciativa de jornalismo global comprometida com mais e melhor cobertura da história do clima, da qual o MediaTalks faz parte.


Este artigo foi publicado originalmente no The Nation, e é parte da coalizão global Covering Climate Now. 

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