Demonizada por muitos que acham seus vídeos perigosos ou prejudiciais, como os “desafios TikTok” que já causaram vários acidentes, a plataforma de vídeos curtos teve seu momento de glória nos Estados Unidos. 

Uma adolescente sequestrada na Carolina do Norte foi resgatada pela polícia do estado americano de Kentucky ao usar um gesto de mão que viralizou no TikTok, e assim conseguir alertar um motorista que trafegava na estrada em que era levada pelo homem que a capturou. 

A história vem a calhar para as plataformas de mídia social, que enfrentam críticas cada vez maiores por impactos negativos causados a adolescentes, principalmente o Instagram, alvo de uma série de denúncias recentes feitas por uma ex-funcionária do Facebook. 

Suicídio no TikTok

O TikTok não chegou a ser alvo de denúncias semelhantes, mas há dois meses ampliou conteúdo informativo sobre transtornos alimentares e anunciou recursos para prevenção de suicídio

Dessa vez, no entanto, a plataforma pode ter ajudado a salvar uma vida.  

Segundo comunicado da polícia local, o autor da denúncia seguia atrás do carro onde a jovem de 16 anos estava na última quinta-feira (4/11) e notou uma passageira fazendo o sinal. 

Ele alertou a polícia, que parou o veículo, encontrou a adolescente e prendeu o motorista, James Herbert Brick, de 61 anos. O homem tinha percorrido três estados com a jovem. 

Brick enfrentará várias acusações. Além do sequestro, foi acusado de posse de imagens ilegais de menores. 

A polícia de Kentucky disse que vai ajudar a espalhar o gesto popularizado pelo TikTok para encorajar mais pessoas em situações de violência doméstica a pedir ajuda. 

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Campanha contra violência doméstica começou no Canadá

O sinal feito pela menina para pedir socorro sem ser notada pelo sequestrador foi criado pela Canadian Women’s Foundation em parceria com a agência de mídia Juniper Park em abril de 2020, no início da crise da Covid-19.

O objetivo era ajudar vítimas de violência doméstica em isolamento devido às restrições da pandemia a mostrarem silenciosamente que precisavam de ajuda por meio de vídeos ou de chamadas entre pessoas conhecidas. 

O gesto é simples e pode ser feito durante vídeos ou conversas normais. O polegar é colocado sobre a palma da mão aberta, e em seguida os quatro dedos restantes são fechados sobre o polegar. 

Um diagrama roxo mostra uma descrição de duas etapas de como realizar o sinal de mão

Neste vídeo, a fundação canadense mostra como ele pode ser usado durante uma conversa sem qualquer relação com violência doméstica. Ele já teve mais de 1,7 milhões de visualizações. 

 

 Vídeos no TikTok viralizaram 

Em entrevista ao site americano Buzzfeed na segunda-feira, Andrea Gunraj, vice-presidente de engajamento público da Canadian Women’s Foundation, atribuiu a popularidade do gesto a vídeos que viralizaram na plataforma. 

Depois do que foi postado pela fundação, muitos usuários do TikTok criaram suas próprias produções, simulando situações de pedido de ajuda. Um deles já teve mais de 3,5 milhões de visualizações. 

@per_ania

Все поняли ?😲

♬ Elevator – 𝚏𝚠𝚝𝚍𝚟𝚊𝚍𝚒𝚖

Segundo a fundação canadense, em julho de 2020 uma em cada três pessoas do país conhecia o gesto da violência doméstica.

Vídeos com o sinal também aparecem no TikTok no Brasil, explicando como utiizar o pedido de socorro.  Este teve mais de 940 mil visualizações. 

@kris.pedrosa.oficial

Sinais de Socorro #ajuda #socorro #policia #viral #emalta #help #fypシ

♬ som original – Kris.Pedrosa✅

Crescimento do TikTok

O impacto do TikTok demonstrado pela campanha contra violência doméstica criada no Canadá é sinal de seu crescimento acelerado sobretudo após a pandemia. 

E para quem  acha que o crescimento  –  mais de 1 bilhão de usuários – é uma bolha, ou que a rede social não passa de um canal para dancinhas de adolescentes e desafios malucos, o mercado de capitais dá sinais de pensar o contrário.

Uma análise publicada no site da Nasdaq, segunda maior bolsa de ações do mundo após a de Nova York, explica como a rede social chinesa tornou-se para Facebook e Google um adversário mais difícil de combater do que o inimigo doméstico Snapchat foi há alguns anos.  

Situação que se complica diante da onda de críticas e denúncias, fazendo com que a empresa criada por Mark Zuckerberg tenha que voltar atrás em lançamentos como o do Instagram para crianças.

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O artigo, assinado pelo analista de investimentos Adam Levy, é incisivo. O título é “Os clones do Facebook e do Google não impedem o crescimento da TikTok”, referindo-se aos movimentos das duas gigantes para conter o avanço do aplicativo chinês. Para ele, o algoritmo é a explicação. 

(Solen Feyissa/Unsplash)

Levy classifica o crescimento do TikTok como “insano”, indo de 55 milhões de usuários mensais em 2018 a mais de 1 bilhão atualmente. E observa que o avanço quase não diminuiu nos últimos 14 meses, com mais de 300 milhões de novos usuários nesse período.

No Reino Unido e nos Estados Unidos (EUA), o TikTok já retém seus usuários por mais tempo na rede social do que o YouTube, apontou a consultoria App Annie em setembro, em análise sobre celulares com o sistema Android. Antes, a mesma empresa mostrpu que o TikTok foi o aplicativo mais baixado de 2020.

Em maio, o usuário médio passava 24,5 horas por mês no TikTok nos EUA e quase 26 horas mensais no Reino Unido. O levantamento deixou de fora a China, um mercado importante, imenso, onde o TikTok (lá chamado Douyin) é um dos principais aplicativos.

Desafios TikTok são alvo de críticas

Queixas relacionadas aos desafios têm sido frequentes, mas o TikTok parece estar mais alerta a elas do que o Facebook, criticado por demorar a reagir quando entidades apontam riscos ou o avanço de teorias da conspiração.  A empresa removeu os vídeos dos desafios perigosos assim que os casos se tornaram públicos. 

Um dos mais recentes instava os usuários a depredarem banheiros de escolas americanas na volta do ano letivo, em setembro. Professores e diretores se alarmaram e alguns alunos chegaram a ser presos, depois de identificados por câmeras de segurança. Eles destruíram mobiliário e roubaram objetos como saboneteiras, apenas para produzir os vídeos e postar no TikTok. 

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