Londres – A organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) contabilizou nesta terça-feira (8) os casos mais graves envolvendo jornalistas atacados por soldados russos durante a cobertura da guerra na Ucrânia.

O cinegrafista Evgeny Sakun, da Kiev Live TV, morreu após ser atingido no bombardeio da torre de televisão de Kiev, na semana passada. Outros cinco repórteres foram atacados a bala de forma deliberada desde o início da invasão russa, há menos de duas semanas. 

Em nota, a ONG reiterou o apelo às autoridades russas e ucranianas para cumprirem suas obrigações internacionais de garantir a segurança dos repórteres em campo.

Ataques não letais intimidam jornalistas na Ucrânia

O caso mais recente foi em 6 de março. Os tiros chegaram a centímetros da cabeça do fotógrafo suíço Guillaume Briquet quando supostos membros de um comando especial russo dispararam contra o carro onde ele viajava. 

Carro do fotógrafo suíço Guillaume Briquet foi baleado por tropas russas na Ucrânia (Foto: Reprodução/RSF)
Carro do fotógrafo suíço Guillaume Briquet foi baleado por tropas russas na Ucrânia (Foto: Reprodução/RSF)

O ataque ocorreu logo após o profissional de imprensa passar por um posto de controle ucraniano em uma estrada em direção à cidade de Mykolaiv, enquanto cobria o avanço russo na região.

Apesar das diversas sinalizações de “Imprensa” no carro e em seu colete à prova de balas, Briquet, um experiente repórter de guerra, foi abordado pelos soldados e teve 3.000 euros e os equipamentos de reportagem roubados.

“Eles estavam a menos de 50 metros de distância”, relatou o fotógrafo à RSF. Ele foi ferido no rosto e no braço por estilhaços de vidro de seu para-brisa.

“Eles atiraram para matar. Se eu não tivesse me abaixado, teria sido atingido. Já fui alvejado em outras zonas de guerra, mas nunca vi isso. Jornalistas que viajam pelo país sem experiência de guerra estão em perigo mortal.”

“Como este incidente ilustra claramente, os repórteres em campo são alvos de soldados russos, apesar de todas as regras que protegem os jornalistas”, disse Jeanne Cavelier, chefe do escritório da RSF na Europa Oriental e Ásia Central.

“Jornalistas são civis que mantêm o mundo informado sobre o andamento dos combates.

Eles devem ser capazes de trabalhar com segurança. Apelamos a todas as partes em conflito para que se comprometam imediatamente a proteger os jornalistas de acordo com o direito internacional.

Também recomendamos que os profissionais tenham o máximo de cautela diante dos muitos ataques de comandos russos enviados à frente como batedores”.

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Soldados russos atacam jornalistas de forma deliberada na Ucrânia

A RSF compilou outros relatos de profissionais de imprensa atacados por tropas russas enquanto cobriam a guerra na Ucrânia.

Dois jornalistas do canal de TV árabe Al-Araby com sede em Londres – o repórter Adnan Can e o cinegrafista Habip Demirci – ficaram sob fogo russo em Irpin, um subúrbio de Kiev, também em 6 de março.

Os tiros foram direcionados para o carro em que eles estavam, embora uma bandeira branca e placas de “Imprensa” estivessem afixadas no veículo. Presos em uma cidade onde ocorriam combates, eles tiveram que se abrigar com os moradores.

Carro com jornalistas britânicos foi emboscado na Ucrânia 

Uma equipe do canal de TV Sky News do Reino Unido – composta por quatro britânicos e um jornalista ucraniano – foi atacada por uma unidade de reconhecimento russa enquanto se dirigia para Bucha, nos arredores de Kiev, no quarto dia da invasão, 28 de fevereiro, mas o caso só foi divulgado quatro dias depois. 

O líder da equipe, o repórter Stuart Ramsay, sofreu um ferimento a bala na região lombar. O cinegrafista Richie Mockler também foi atingido com dois tiros em seu colete à prova de balas.

Depois de gritar que eram jornalistas e verem que o tiroteio não cessou, a equipe teve que abandonar o veículo e correr para se proteger até ser resgatada pela polícia ucraniana.

Vojtech Bohac e Majda Slamova, dois jornalistas tchecos da Voxpot, e dois jornalistas ucranianos da Central TV tiveram mais sorte durante um incidente semelhante enquanto viajavam juntos em um carro em Makariv, outra cidade nos arredores de Kiev, em 3 de março.

Eles conseguiram escapar ilesos após o carro ser baleado por soldados russos usando rifles AK-47. 

“Esta ferida no ombro, não me custou a vida por apenas alguns centímetros”, disse o jornalista dinamarquês Stefan Weichert à RSF.

Ele agora está internado na Dinamarca depois de ser retirado do país junto com seu colega, Emil Filtenborg Mikkelsen, que sofreu quatro ferimentos a bala no mesmo ataque.

Os dois repórteres do jornal dinamarquês Ekstra-Bladet foram atacados na cidade de Okhtyrka, no nordeste, em 26 de fevereiro.

“O atirador, que não conseguimos identificar, estava cerca de 15 metros atrás do nosso carro.” disse Weichert. “Ele não poderia ter deixado de ver a sinalização de ‘imprensa’ que estava claramente visível em nosso carro.”

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4 torres de TV bombardeadas na Ucrânia

Além de disparar contra repórteres em campo, as forças armadas russas também realizaram ataques a antenas de telecomunicações para impedir transmissões de TV e rádio ucranianas.

Quatro torres de rádio e TV – em Kiev, Korosten, Lyssytchansk e Kharkiv – foram alvos de ataques russos que interromperam abruptamente a transmissão de pelo menos 32 canais de TV e várias dezenas de estações de rádio nacionais.

Evgeny Sakun, cinegrafista do canal local Kyiv Live TV, estava na torre de Kiev no momento do ataque e foi morto durante o bombardeio russo.

A Ucrânia está classificada em 97º entre 180 países no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa de 2021 da RSF, enquanto a Rússia está classificada em 150º.

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