A violência letal contra jornalistas no México atingiu uma marca trágica, com a morte do oitavo profissional de imprensa em apenas dois meses e meio.

Armando Linares, diretor e editor do site mexicano Monitor Michoacán, foi morto a tiros na tarde de terça-feira (15), em frente à sua casa na cidade de Zitacuaro, apenas 43 dias após denunciar a morte de um colega do mesmo veículo em um vídeo emocionado. 

Em dois meses e meio, o número de profissionais de imprensa assassinados no país já superou o total de 2021 (7), alerta o diretor do escritório da América Latina da Repórteres Sem Fronteiras (RSF), Emmanuel Colombié. 

‘Situação gravíssima’

Ao MediaTalks, Colombié, condenou a onda de violência sem precedentes contra jornalistas no México

“Em 2022, já temos oito jornalistas assassinados com relação direta com o trabalho jornalístico. São dados sem precedentes e gravíssimos. Pedimos uma reação das autoridades mexicanas nesse contexto de violência.”

Colombié também cobrou ações efetivas do governo mexicano para investigar e solucionar os crimes contra jornalistas no país.

“O presidente fez declarações dizendo que não vai ter impunidade nesses casos. Esperamos que essas frases não sejam só declarações de intenção, pois a situação de emergência justifica ações de emergência por parte das autoridades e é preciso reformar o mecanismo de proteção a jornalistas.”

Oitava morte de 2022 expõe riscos para jornalistas no México

Em 31 de janeiro, por meio de um vídeo postado no Facebook, Armando Linares denunciou a morte do colega Roberto Toledo, que era operador de câmera e editor de vídeo do Monitor Michoacán, site conhecido por denunciar a corrupção das autoridades no estado mexicano Michoacán.

A equipe do veículo jornalístico já vinha recebendo ameaças há meses. “Expor administrações, funcionários e políticos corruptos levou à morte de um de nossos colegas”, afirmou Linares, na ocasião.

“Hoje as ameaças são finalmente cumpridas e um de nossos colegas perdeu a vida pelas mãos de três pessoas que atiraram nele de maneira cruel e covarde.”

Após a morte de Toledo, Linares disse à agência Associated Press que havia recebido várias ameaças de morte depois de se inscrever no programa de proteção a jornalistas do governo.

Questionado sobre quem ele achava que estava por trás das ameaças, Linares afirmou que eram pessoas que “se fazem passar por uma gangue criminosa, mas não podemos verificar se isso é verdade ou não.”

Criminosos no México muitas vezes afirmam que fazem parte de um cartel de drogas para ameaçar suas vítimas, mesmo que isso seja falso. Nos últimos anos, os principais alvos têm sido jornalistas.

Segundo a Federação Internacional de Jornalistas (IFJ, na sigla em inglês), Linares não integrava mais o programa de proteção a jornalistas do México.

Ele e outro colega, Joel Vera, que também atuou como diretor do Monitor Michoacán, denunciam ameaças desde 2019 e responsabilizaram o procurador-geral do Estado, Adrián López Solís, por atos de corrupção e intimidação, além de um ex-procurador regional de Zitacuaro.

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Entidades cobram investigações sobre mortes de jornalistas no México

A RSF e demais entidades defensoras da liberdade de imprensa alertam para a crescente violência letal contra comunicadores sob o governo de Andrés Manuel López Obrador.

Relatório recente da ONG analisou os programas de proteção a jornalistas nos quatro países mais perigosos da América Latina para o trabalho da imprensa – México, Honduras, Colômbia e Brasil.

Juntos, esses países foram responsáveis por 90% dos assassinatos de jornalistas na última década. Para as quatro nações avaliadas, a RSF aponta que há uma urgência de se reformarem os mecanismos de proteção disponíveis, além das próprias leis que protegem a imprensa.

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O Sindicato Nacional de Repórteres de Imprensa (SNRP) também se expressou sobre este novo crime.

“Hoje nosso colega Armando Linares López está morto e mais uma vez pensamos na facilidade com que os jornalistas são assassinados no México. O SNRP deplora este novo assassinato e pedimos que as autoridades dos três níveis procurem e encontrem os assassinos”.

Em nota, a IFJ cobrou investigação imediata para encontrar os responsáveis ​​pelos assassinatos de Armando Linares e Roberto Toledo.

“Para isso, é essencial que o protocolo aprovado seja aplicado em ambos os casos para investigar crimes contra a liberdade de expressão e que as ameaças recebidas por eles e seus colegas do Monitor Michoacán, aos quais deve ser garantida proteção efetiva e urgente, sejam investigadas em profundidade.”

México é um dos países mais mortais para jornalistas

O México ficou em uma péssima posição no último Ranking de Liberdade de Imprensa, divulgado pela RSF, em 2021. Avaliado junto com outras 180 nações, o país ficou em 143º lugar.

Segundo a ONG, o índice revela que o México continua sendo um dos países mais mortais do mundo para jornalistas.

No levantamento, a entidade destaca que o conluio entre autoridades e o crime organizado representa uma séria ameaça à segurança dos profissionais de imprensa e paralisa o sistema judicial em todos os níveis.

Jornalistas que cobrem matérias políticas delicadas ou crimes, especialmente em nível local, são avisados, ameaçados e muitas vezes mortos a sangue frio. Outros são sequestrados e nunca mais vistos, ou fogem para o exterior como única forma de garantir sua sobrevivência. 

A RSF também apontou que o presidente mexicano não adotou medidas necessárias para conter a violência e impunidade em crimes contra jornalistas.

Paralelo a isso, as grandes empresas de mídia do país são extremamente concentradas, enquanto mídias comunitárias alternativas são perseguidas e reprimidas por usarem frequências de transmissão sem licenças, segundo a organização. 

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