Londres – A COP26, 26ª conferência do clima, realizada pela ONU (Organização das Nações Unidas) em Glasgow, foi encerrada com críticas pela redação final do acordo climático, mas registrou avanços importantes, sendo um deles o aumento da consciência da sociedade para a emergência da crise. 

Em uma avaliação sobre a participação do Brasil, Claudio Angelo, diretor da organização Observatório do Clima, acha que o Itamaraty evitou o pior para a imagem do Brasil, enquanto o publicitário Washington Olivetto destaca o stand da sociedade civil no pavilhão da conferência como ação de comunicação bem-sucedida, permitindo o diálogo entre os diversos atores envolvidos nas questões ambientais.  

As opiniões fazem parte de um relatório produzido pela MediaTalks com análises de correspondentes estrangeiros em seis países e especialistas de diversas áreas sobre os acontecimentos em Glasgow e seus desdobramentos (acesse aqui).


Desafios globais para conter as mudanças climáticas

Ao reunir mais de 100 líderes globais, incluindo alguns das potências mais poderosas do planeta, a conferência foi marcada por negociações entre países em temas como metas de redução de emissão de CO2, limites para o desmatamento e financiamento para países menos desenvolvidos implantarem as mudanças necessárias. 

Muitos deles foram alvo de protestos, alguns bem-humorados, como o da ONG Zero Hour, com personagens encarnando os líderes mundiais (incluindo o presidente Jair Bolsonaro) em um banquete com a pergunta: “quem paga a conta”?

No entanto, os efeitos do que se debateu em Glasgow vão além das conversas políticas. Para Washington Olivetto, alguns setores e marcas devem ficar mais expostos, e o consumidor vai continuar seu processo de mudança para alternativas menos poluentes. 

“É um processo irreversível”, alerta o publicitário, que vive em Londres. 


Eco-ansiedade, o medo aumenta

Esse comportamento deve ser acelerado pelo fenômeno da eco-ansiedade, que afeta principalmente os jovens. O relatório destaca uma pesquisa feita na Universidade de Bath, no Reino Unido, mostrando que oito em cada dez entrevistados consideram que as pessoas falham em cuidar do planeta, e 56% acham que a humanidade está “condenada”. 

Por isso, muitos hesitam em ter filhos, e os jovens brasileiros são maioria entre eles: 48% não planejam formar uma família, atribuindo a decisão à ameaça do clima. 

Mas nem todos estão dispostos a mudar de hábitos. Outra pesquisa apresentada no relatório, feita pela Kantar Public em 10 países,  constatou que poucas pessoas acham que devem fazer mudanças significativas em seus estilos de vida por causa das mudanças climáticas, embora 62% delas não duvidem que o problema exista. 

Um dos entrevistados para o relatório, Robert Haigh, diretor de estratégia da consultoria britânica Brand Finance, concorda que a maioria dos consumidores ainda não está tomando decisões com base na crise climática. Para ele, no entanto a tendência deve se acelerar depois da COP26, e “marcas retardatárias” podem ficar expostas se não se adequarem aos anseios da sociedade e dos consumidores.  

Imprensa: jornalismo implacável

O papel da imprensa é destacado no documento.

O diretor-geral da coalizão de veículos globais Covering Climate Now, Mark Hertsgaard, afirma que é preciso um “jornalismo implacável” a partir de agora.  

E Emmanuel Colombié, diretor da ONG Repórteres Sem Fronteiras para a América Latina, fala sobre o risco a que jornalistas que cobrem situações de conflito envolvendo clima estão submetidos na região. 

Países em foco na COP26

O relatório avalia as percepções da sociedade e como a imprensa retratou a conferência em seis países.

Mesmo entre os campeões do clima, as pressões internas foram grandes. Claudia Wallin, correspondente baseada na Suécia, observou que o país viveu um “superaquecimento” das críticas contra sua política ambiental considerada modelo no mundo. 

Greta Thunberg, a sueca que comandou uma manifestação de mais de 100 mil pessoas em um sábado chuvoso em Glasgow durante a COP26, não é uma estrela apenas em seu país natal. A correspondente Fernanda Massaroto, baseada em Milão, relatou que ela “roubou a cena” na Itália. 


Especial COP26 – veja o relatório completo


E não é por falta de exemplos locais. A jornalista lembrou que uma jovem ativista italiana, Federica Gasbarro, também ganhou visibilidade no período da conferência da ONU.

No entanto, na avaliação de Massaroto, ela não será capaz de virar “uma nova Greta”. Com ela concorda Edoardo Vigna, editor de cadernos especiais do jornal Corriere dela Sera, entrevistado para o relatório. 

Enquanto isso, na Argentina a conferência não teve o mesmo espaço, perdendo terreno para problemas locais, como relatou a correspondente Márcia Carmo, que vive em Buenos Aires há mais de 20 anos.

Segundo ela, problemas como a inflação alta e os efeitos da pandemia fazem com que o debate sobre o clima fique mais restrito a especialistas, investidores de determinados setores mais afetados por questões ecológicas e ambientalistas. 

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Imagem: Wikipedia (public domain)

No Estados Unidos, a questão ambiental está diretamente ligada à política, depois do mandato do presidente Donald Trump marcado por medidas extremas como a retirada do país do Acordo de Paris.

Silvana Mautone, correspondente que colaborou para o relatório a partir dos EUA, comenta sobre pesquisas mostrando a diferença de opinião sobre a crise ambiental entre pessoas que apoiam o partido Conservador e o Republicano. 

Já na Austrália, a mídia e a sociedade viram a COP26 com “desapontamento”, conforme relatou a correspondente Liz Lacerda.

O país saiu da conferência como uma das ovelhas negras, por ser grande produtor e consumidor de carvão, uma das formas de energia mais poluentes. E por não ter aceitado reduzir suas emissões como quer a ciência. 

No entanto, Lacerda observa que os governantes não têm apenas a opinião pública para se preocupar, pois tribunais australianos já começam a reconhecer a responsabilidade de autoridades públicas sobre doenças causadas pelos efeitos das mudanças climáticas. 

O relatório sobre a COP26 destaca um documento produzido há 40 anos pela agência de inteligência da Austrália, alertando o governo sobre a iminência do aquecimento global e das possíveis pressões da sociedade e da imprensa para redução de emissões, com impacto direto sobre o setor de carvão. 

Imagem: Hangela/Pixabay

A Índia foi outro país que saiu com sua imagem afetada da conferência da ONU, já que na última hora fez com que os termos do acordo fossem revistos para não haver compromisso de tempo com a eliminação do uso do carvão como fonte de energia. Mas o país não gostou de ser apontado como vilão, relataram os jornalistas Florência Costa e Shobhan Saxena. 

Chandra Bushan, CEO da organização iForest, acha que a Índia acabou fazendo papel de “policial mau”, preservando a imagem da China, que também não quis assinar o acordo da forma como estava originalmente redigido. 

Negacionismo climático no especial COP26

O negacionismo da gravidade da emergência climática ou do papel da ação humana e industrial sobre a crise é um dos obstáculos para a solução. O relatório sobre a COP26 apresenta como a fake news avançaram durante a conferência, que contou com uma “força-tarefa” de especialista mapeando boatos em tempo real para evitar que se propagassem e ameaçassem as discussões. 

Mas é pouco diante do universo de teorias conspiratórias que circulam nas redes sociais. Um estudo destacado no relatório apontou dois medos que se cruzaram: Covid e clima.

Negacionistas ou pessoas contrárias a mudanças para reverter o aquecimento global passaram a difundir a ideia de que “bloqueios climáticos” poderiam ser adotados por governos, a exemplo dos lockdowns impostos para limitar o avanço do coronavírus. 

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Enquanto isso, as plataformas digitais são recriminadas por não agirem com a velocidade necessária para evitar a propagação de fake news sobre o clima. Um estudo mostrou que US$ 2,6 bilhões estavam sendo gastos por grandes corporações para veicular anúncios em sites com desinformação. 

 A negação pode também ser parte de uma estratégia de negócio de setores mais afetados. O relatório apresenta um estudo feito por dois pesquisadores de Harvard com um histórico das campanhas publicitárias realizadas por empresas petrolíferas nos Estados Unidos desde a década de 90.

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Primeiro eles negavam a existência do aquecimento global, chegando a usar ironia para sugerir haver pânico infundado. Depois passaram a admitir, mas sem assumir que os combusteis fósseis são responsáveis pelo problema. 

Sociedade tem que se informar sobre mudanças climáticas

Entre os entrevistados do relatório especial COP26 está Luca Mercalli, uma das figuras mais conhecidas na área de divulgação científica da Itália. Ele preside a Sociedade Meteorológica Italiana, e frequentemente dá entrevistas e faz apresentações sobre as questões ambientais em seu país. 

Mercalli disse ver um aumento da conscientização de empresas privadas sobre a necessidade de controlar o impacto de suas atividades sobre o planeta. Mas afirma que os cidadãos também precisam fazer a sua parte: 

“Espero que com a COP26 os governantes tirem do papel medidas importantes. E que a população tome mais consciência da emergência climática”.

Leia o relatório completo, com análises de especialistas sobre os acontecimentos em Glasgow e como eles vão influenciar o futuro 

MediaTalks Especial COP26 | Dezembro 2021