O premiado violinista canadense Ashley MacIsaac moveu um processo contra o Google após o recurso de resumos gerados por inteligência artificial da plataforma, IA Overview, publicar informações falsas que o identificavam como um agressor sexual.
Segundo documentos judiciais obtidos pela agência de notícias Canadian Press nesta segunda-feira (4), o músico afirma que tomou conhecimento do erro em dezembro de 2025, quando organizadores de um festival na Sipekne’katik First Nation, ao norte de Halifax, o confrontaram com o resumo gerado pela ferramenta AI Overview e cancelaram um concerto.
A comunidade posteriormente divulgou um pedido público de desculpas, ao tomar conhecimento de que as informações incorretas teriam sido originadas de artigos sobre outro homem com o mesmo sobrenome na região atlântica do Canadá.
MacIsaac estaria buscando ao menos 1,5 milhão de dólares canadenses (equivalente a R$ 5,5 milhões) em indenização.
Processo contra IA do Google cita falsas acusações criminais
Celebridade na cena cultural canadense, Ashley MacIsaac é um violinista, cantor e compositor de Cape Breton, na Nova Escócia, associado à música celta tradicional da região e a fusões com rock e pop.
Ele recebeu três Juno Awards, principal premiação da música canadense, e ficou conhecido por levar o violino de Cape Breton a uma sonoridade contemporânea.
De acordo com a ação apresentada em fevereiro à Superior Court of Justice de Ontário e só agora tornada pública, o AI Overview afirmava que MacIsaac havia sido condenado por crimes como agressão sexual, aliciamento infantil pela internet e violência causando lesões corporais.
O resumo também dizia que o músico constava no registro nacional de agressores sexuais. MacIsaac nega as alegações, que, segundo o processo, não têm fundamento.
A ação afirma:
“Como criador e operador do AI Overview, o Google também é responsável por danos e perdas decorrentes do design defeituoso do recurso. O Google sabia, ou deveria saber, que o AI Overview era imperfeito e poderia retornar informações falsas.”
O documento também que “o Google não admitiu responsabilidade pelas declarações difamatórias, nem sequer que eram falsas, nem procurou MacIsaac, nem ofereceu um pedido de desculpas, nem fez uma retratação completa e justa.”
O Google Canadá emitiu um comunicado em dezembro dizendo que seus resumos de IA são frequentemente alterados para fornecer as informações mais “úteis” e, quando o conteúdo on-line é mal interpretado, esses erros são usados para melhorar o sistema.
Ashley MacIsaac relata medo após erro de IA
Em entrevista à Canadian Press quando o caso se tornou público, MacIsaac relatou ter sentido medo ao subir ao palco dias depois de descobrir o erro.
“Eu senti aquele medo tangível por algo que foi publicado por uma empresa de mídia. Eu temi pela minha própria segurança ao subir ao palco por causa do rótulo que me colocaram”, afirmou o músico.
Ele observou a diferença entre os resumos da IA do Google e os resultados de uma pesquisa normal em buscadores:
“Este não era um mecanismo de busca apenas examinando as coisas e dando a história de outra pessoa”, disse ele, acrescentando que não pretendia falar com nenhum outro meio de comunicação sobre o caso.
“[O conteúdo] foi publicado por eles. E para mim, isso é difamação. As salvaguardas não estavam lá para impedir que a IA do Google publicasse esse conteúdo.”
Em declaração à agência canadense, o músico afirmou:
“Quando descobri as falsas declarações que o Google estava publicando sobre mim, senti que precisava falar com a mídia para limpar meu nome e chamar atenção para o problema. Agora que a ação foi apresentada, não tenho mais comentários sobre esta fase inicial do processo.”
O processo segue em fase inicial, sem decisões judiciais ou audiências divulgadas.
Google IA Overview sob críticas
O Google IA Overview enfrenta críticas, processos e investigações em vários países e regiões desde que foi lançado, em 2025, por motivos diversos.
Um deles é o impacto sobre o jornalismo, já que fornece resumos que desestimulam os leitores a entrarem nos sites de notícias afetando tráfego e receita, como alegam editores europeus em uma queixa antitruste apresentada em fevereiro.
O mesmo movimento está acontecendo no Brasil. Em abril, o plenário do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) transformou um inquérito administrativo que estava sendo analisado sobre a questão em um processo administrativo.
O órgão vai aprofundar a análise sobre um possível “abuso exploratório de posição dominante” do Google, em relação aos produtores de conteúdo jornalístico, que geram as informações utilizadas no “resumo de IA” e não são remunerados por isso.
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