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História

Dia da Mentira: 10 trotes históricos de 1º de abril que enganaram a imprensa no Brasil e no mundo

A revista Veja entrou para a história das pegadinhas ao noticiar o revolucionário Boimate, fusão de boi com tomate, em 1983

Trote de primeiro de abril anunciando ida de Maradona para o futebol soviético

Em um trote clássico de primeiro de abril, Maradona foi anunciado como novo reforço do futebol soviético (reprodução Museum of Hoaxes)




Os trotes no dia 1º de abril eram uma tradição na imprensa britânica e em alguns países da Europa, que por décadas trataram o Dia da Mentira como um espaço autorizado para o humor em forma de notícia.

Com o tempo, porém, a prática foi perdendo força diante de questionamentos sobre confiabilidade, da crise de credibilidade do jornalismo e da dificuldade crescente de separar sátira, boato, fake news e, mais recentemente, deepfakes.

Em 2017, jornais da Suécia e da Noruega chegaram a anunciar oficialmente que deixariam a tradição de lado para não contribuir para esse ambiente de confusão informativa.

O primeiro de abril na imprensa: histórias inesquecíveis

Enquanto a tradição durou,  no entanto, o 1º de abril produziu alguns dos episódios mais engraçados da história da mídia.

Houve superproduções memoráveis, como a falsa colheita de espaguete exibida pela BBC em 1957 e o país imaginário San Serriffe, inventado pelo Guardian em um suplemento de sete páginas publicado em 1977.

Mas em alguns momentos, o caçador virou caça. Jornais, revistas, emissoras de TV e agências de notícias também foram enganados por histórias plantadas por terceiros, por comunicados corporativos e por peças de humor publicadas em outros veículos.

O site Museum of Hoaxes, dedicado a reunir esse tipo de episódio, ajuda a reconstituir uma história das pegadinhas que não fisgaram apenas leitores e espectadores, mas também redações, repórteres e editores. Entre elas, uma do Brasil, o célebre caso do Boimate.

O Boimate que enganou a Veja

Em 1983,  revista Veja transformou em reportagem uma brincadeira publicada pela revista britânica New Scientist na edição de 1º de abril. O texto descrevia o primeiro híbrido bem-sucedido entre planta e animal: um tomate com genes de vaca, de casca grossa e coriácea, com porções de proteína animal entremeadas pela polpa do fruto.

Matéria sobre o falso Boimate na Veja, brincadeira de primeiro de abril

Havia sinais de humor no texto original, inclusive nos nomes dos pesquisadores citados, mas a publicação brasileira tomou a história por verdadeira, rebatizou a criatura de Boimate e ainda produziu um gráfico para explicar ao leitor como teria ocorrido a hibridização entre vaca e tomate.

O Financial Times e o falso “Guinness Mean Time”

Para consolo da Veja, ela não está em má companhia entre grandes veículos que foram enganados. Em 31 de março de 1998, o Financial Times publicou uma reportagem sobre um suposto acordo entre o Old Royal Observatory, em Greenwich, e a cervejaria Guinness.

A matéria dizia que a marca seria a patrocinadora oficial das comemorações do milênio no observatório e que o tradicional Greenwich Mean Time passaria a se chamar Guinness Mean Time.

Matéria do Financial Times resultado de trote de primeiro de abril

Mais do que isso: os segundos, historicamente marcados pelos famosos pips, passariam a ser contados em “pint drips”, em alusão ao copo em que se toma cerveja nos pubs.

O jornal chegou a lamentar o que considerava um novo rebaixamento do marketing corporativo. Só depois percebeu que havia embarcado em um press release preparado para divulgação em 1º de abril. Na sequência, publicou uma breve retratação.

A Associated Press e a falsa origem do Dia da Mentira

Até o próprio Dia da Mentira virou tema de um trote bem-sucedido. Em 1º de abril de 1983, a Associated Press distribuiu a centenas de jornais a história de que a origem da data havia sido finalmente descoberta por Joseph Boskin, professor da Boston University especializado em estudar humor.

Segundo a versão publicada, a tradição remontaria ao século 4, quando o imperador Constantino nomeou, em tom de brincadeira, um bobo da corte chamado Kugel para governar por um dia. Como governante temporário, Kugel teria decretado que só o absurdo seria permitido no reino naquela data — e assim teria nascido o 1º de abril.

Semanas depois, Boskin admitiu que tudo fora inventado como piada durante a entrevista e que o repórter havia levado a história a sério. O próprio nome do personagem era uma pista: kugel é também um prato da culinária judaica.

Neste vídeo, o professor, que morreu em 2025 aos 95 anos, conta a história.

A CNN e a WNYW e a parada que nunca existiu

No ano 2000, o dia 1º de abril voltou a ser tema de uma pegadinha que enganou a imprensa. Um comunicado enviado à mídia informava que a 15ª edição da Parada do Dia da Mentira de Nova York sairia ao meio-dia da Rua 59 rumo à Quinta Avenida.

Entre os carros alegóricos anunciados estavam uma frota policial dedicado a “brutalidade, corrupção e incompetência” e outro com referências ao racismo no beisebol. A CNN e a WNYW, afiliada da Fox em Nova York, enviaram equipes para a cobertura, conta o Museum of Hoaxes.

Os repórteres chegaram ao local, aguardaram o início do desfile e só então descobriram que não havia desfile algum. A peça era obra de Joey Skaggs, veterano especialista em pregar trotes na imprensa, que havia transformado a parada inexistente em tradição anual que segue até hoje.

AP de novo: Maradona jogando no time de futebol soviético

No dia 1o de abril de 1988, o jornal soviético Izvestia informou que o mundialmente famoso astro do futebol argentino Diego Maradona estava em negociações para se juntar ao Spartak Moscou, que lhe pagaria US$ 6 milhões para jogar em seu time em dificuldades.

trote de primeiro de abril com Maradona anunciado como indo jogar em time soviético

A Associated Press rapidamente distribuiu a notícia aos seus assinantes, mas teve que publicar uma retratação depois de consultar Izvestia para obter mais detalhes e receber a resposta de que eles deveriam estar atentos à data (1o de abril).

Segundo o site Museum of Hoaxes, a AP acreditou na história porque os jornais soviéticos nunca haviam publicado uma farsa do Dia da Mentira. A súbita demonstração de humor foi creditada à política de glasnost de Mikhail Gorbachev, ou abertura, instituída no ano anterior.

O Daily Express e os capacetes de pele de urso que continuavam crescendo

Na edição de abril de 1980, a revista Soldier, publicação oficial do Exército britânico, informou que a pele dos tradicionais capacetes usados pelos guardas no Buckingham Palace continuava crescendo e, por isso, precisava ser aparada regularmente.

A matéria vinha acompanhada de uma foto de guardas tendo os capacetes “cortados” em uma barbearia militar.

Capacete de guarda real britânico sendo aparado, em trote de primeiro de abril

Os capacetes teriam sido feitos originalmente com pele de ursos russos, cuja espessura conservaria hormônios e gorduras animais suficientes para manter o crescimento dos pelos quase indefinidamente em climas temperados.

Com o fim do fornecimento russo durante a Guerra Fria, a solução teria sido recorrer à pele de ursos canadenses, com as mesmas propriedades. O jornal Daily Express repassou a história aos leitores como se fosse informação real.

Jornais do mundo todo e o corpo de Nessie

Outra tradição britânica, o mistério em torno do monstro do Lago Ness, já foi tema de muitos trotes ao longo da história, e alguns também enganaram a imprensa além das fronteiras do país. Em 1º de abril de 1972, jornais de vários países noticiaram com entusiasmo que o corpo do monstro do Lago Ness havia sido encontrado.

A história dizia que uma equipe ligada ao Flamingo Park Zoo, de Yorkshire, localizara a carcaça enquanto trabalhava na região. Quando os pesquisadores tentaram levar o corpo de volta para a Inglaterra, teriam sido impedidos pela polícia escocesa, com base numa antiga regra que proibia a retirada de “criaturas não identificadas” do lago.

A revelação veio no dia seguinte: o suposto Nessie era, na verdade, um grande elefante-marinho do Atlântico Sul. O responsável pela armação, John Shields, confessou ter usado o corpo de um animal morto dias antes em outro zoológico, alterado sua aparência e mantido tudo congelado antes de deixá-lo discretamente no lago.

Não foi só a Veja: outros embarcaram em trotes científicos

O Chicago Tribune e o mamute-lanoso “ressuscitado”

A história lembra a da Veja, e aconteceu no ano seguinte. Em 1984, a Technology Review, do MIT, publicou uma falsa reportagem sobre um projeto soviético para trazer o mamute-lanoso de volta à vida. A equipe seria liderada pelo fictício Dr. Sverbighooze Yasmilov, que teria extraído DNA de mamutes preservados no gelo da Sibéria e o inserido em células de elefantes, depois gestadas por fêmeas da espécie.

Trote de primeiro de abril anunciando geração de mamute-lanoso extinto

Apesar das pistas de humor, como o nome do cientista e o desenho que acompanhava o texto, o Chicago Tribune tratou a história como verdadeira e a distribuiu por seu serviço de notícias. Meses depois, o mesmo mamute reapareceu na Family Weekly, suplemento dominical distribuído em centenas de jornais, que depois pediu desculpas por seu “erro mamutal”.

A BBC Radio News e a rodovia de mão única em Londres

A mesma BBC que muitas vezes divertiu o público com suas superproduções foi vítima de uma delas. Em 1º de abril de 1991, o jornal britânico The Times publicou um plano supostamente elaborado pelo Departamento de Transportes britânico para resolver o congestionamento da M25, a rodovia circular de Londres.

A proposta era tão simples quanto absurda: fazer os dois lados da estrada operarem no mesmo sentido, alternando o fluxo horário e anti-horário conforme o dia da semana.

A matéria parecia suficientemente convincente para que a BBC Radio News a levasse a sério e fosse entrevistar moradores de Swanscombe, que reagiram com irritação à ideia que absurdamente transformaria um trajeto curto em um desvio gigantesco dependendo do dia da semana.

O The New York Times e a arma soviética que capturaria a energia da atmosfera

Se na era da telefonia e da internet os trotes ainda conseguiram enganar a imprensa, isso era mais fácil ainda quando as comunicações ainda engatinhavam e checagens eram mais difíceis.

Um dos exemplos clássicos desse tempo é o do The New York Times, registrado em 3 de abril de 1923. O jornal deu destaque a uma reportagem sobre uma nova arma criada por um cientista soviético chamado Figu Posakoff. Segundo o texto, o invento seria capaz de “aproveitar a energia latente da atmosfera” para lançar objetos de qualquer peso a distâncias praticamente ilimitadas.

A descoberta era apresentada como um feito de alcance geopolítico, capaz de garantir aos soviéticos superioridade militar sobre o resto do mundo. No dia seguinte, porém, o jornal reconheceu que a notícia teria sido importante “se fosse verdadeira”.

Não era: tratava-se de um trote publicado dois dias antes em um jornal alemão. O Los Angeles Times também repercutiu a história, assim como outros jornais americanos nas semanas seguintes.

1º de abril: tradição é mantida na propaganda

Hoje, quando a própria noção de verdade factual disputa espaço com montagens hiper-realistas, boatos virais e campanhas coordenadas de desinformação, sobra pouco espaço para o antigo ritual do 1º de abril jornalístico.

Mas a tradição persiste entre marcas comerciais, que usam o Dia da Mentira para divertir consumidores e atrair atenção para os seus produtos de forma bem-humorada.


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