Como pesquisadora que investiga como a estimulação elétrica cerebral pode melhorar a capacidade de memória das pessoas, frequentemente me perguntam como ela funciona — e o que podemos fazer para usá-la de forma mais eficaz. Felizmente, décadas de pesquisa nos deram algumas respostas claras para ambas as questões.
A memória funciona essencialmente em três estágios, com diferentes regiões do cérebro contribuindo para cada um deles.
A memória sensorial, que pode durar apenas milissegundos, registra informações brutas, como imagens, sons e cheiros. Estas são primeiro processadas pelos cinco córtices sensoriais primários do cérebro — córtex visual para imagens, córtex auditivo para sons e assim por diante.
A memória de trabalho, ou memória de curto prazo, mantém e manipula uma pequena quantidade de informação por alguns segundos ou mais.
É como se fosse o espaço mental de trabalho do cérebro: o sistema que permite fazer contas de cabeça, seguir instruções e compreender o que a pessoa está lendo. Por isso, ela envolve principalmente o córtex pré-frontal — a parte frontal do cérebro que sustenta a atenção, a tomada de decisões e o raciocínio.
Por fim, a memória de longo prazo armazena informações de forma mais permanente, de minutos a uma vida inteira. Isso inclui tanto memórias “explícitas” — fatos e acontecimentos da vida — quanto memórias “implícitas” — habilidades, hábitos e associações emocionais.
O que cada tipo de memória faz
Nas memórias de longo prazo, o hipocampo e os lobos temporais — localizados em regiões profundas do cérebro, nas laterais da cabeça, perto das têmporas — contribuem amplamente para memórias envolvendo fatos ou acontecimentos da vida, enquanto a amígdala (próxima ao hipocampo), o cerebelo (na parte de trás do cérebro) e os gânglios da base (em regiões profundas do cérebro) processam memórias emocionais ou procedimentais.
A memória de trabalho frequentemente atua como uma porta de entrada consciente para a memória de longo prazo — mas ela tem limites. Em 1956, o psicólogo americano George Miller propôs que conseguimos manter cerca de sete “blocos” de informação na memória de trabalho ao mesmo tempo.
Embora o número exato continue em debate até hoje, o princípio permanece válido: a memória de trabalho é limitada. E essa limitação pode determinar a eficácia com que aprendemos e nos lembramos das coisas.
Mas também é possível fazer a memória funcionar de forma mais eficaz. Aqui estão cinco passos simples para melhorar tanto a memória de trabalho quanto a memória de longo prazo.
1. Guarde o celular
Os smartphones reduzem a capacidade da memória de trabalho. Até simplesmente ter um celular por perto — não importa se está virado para baixo e no silencioso — pode reduzir o desempenho em tarefas de memória e raciocínio.
A razão é que parte do seu cérebro ainda está monitorando-o de forma sutil.
Resistir ao impulso de checar notificações também consome recursos mentais — e é por isso que pesquisadores às vezes chamam os smartphones de “dreno cerebral”.
A solução é simples: deixar o celular em outro cômodo quando precisar se concentrar. Fora de vista ele realmente libera capacidade mental.
2. Pare de deixar a mente disparar
Estresse e ansiedade podem ocupar um espaço mental valioso. Quando você está preocupado com alguma coisa ou distraído por pensamentos acelerados, parte da sua memória de trabalho já está em uso.
Treinamentos de relaxamento e práticas de mindfulness podem melhorar tanto a memória de trabalho quanto o desempenho acadêmico, provavelmente por reduzirem os níveis de estresse.
E, se meditação parecer intimidadora, experimente técnicas de respiração, como o “suspiro cíclico”. Inspire profundamente pelo nariz, faça uma segunda inspiração mais curta e depois expire lentamente pela boca.
Repetir isso por cinco minutos pode acalmar o sistema nervoso e criar melhores condições para aprender.
3. Faça ‘chunking’
Qualquer pessoa pode ampliar a memória de trabalho usando a técnica do chunking — agrupar informações em unidades significativas. Na verdade, muitos já fazem isso para lembrar números de telefone ou listas de palavras, dividindo sequências longas em pequenos blocos que o cérebro consegue recordar como um minigrupo.
Os mesmos princípios se aplicam se a pessoa estiver fazendo uma apresentação, para ajudar o público a se lembrar dos pontos principais com mais eficácia.
O “chunking”envolveria agrupar dez estudos de caso, por exemplo, em três ou quatro temas, cada um com um título curto e uma única conclusão principal.
Essa estrutura deve ser repetida em cada slide: uma ideia, alguns detalhes de apoio até prosseguir para o próximo item. Ao organizar a informação em padrões significativos, a carga cognitiva é reduzida e se torna mais memorável.
4. Torne-se alguém que recupera
No século 19, o psicólogo alemão Hermann Ebbinghaus demonstrou a rapidez com que as pessoas esquecem informações depois de aprendê-las.
Em cerca de 30 minutos, perde-se aproximadamente metade do que se aprendeu, e muito mais desaparece ao longo do dia seguinte. Ebbinghaus chamou isso de curva do esquecimento.
No entanto, existe uma forma de garantir que mais conteúdo seja assimilado quando se está tentando aprender muita informação em um curto período de tempo: a prática de recuperação.
Ao se preparar para fazer uma apresentação ou estudar para uma prova, em vez de simplesmente reler anotações, é importante continuar testando o quanto a pessoa se lembra. Usar flashcards, responder a perguntas práticas ou tentar explicar o material em voz alta sem consultar as anotações são recursos úteis.
A memória funciona por meio de associações. Cada vez que se recupera uma informação com sucesso, esse material é vinculado a novos estímulos, exemplos e contextos. Isso cria mais pistas para acessar a informação e fortalece cada via da memória. Muitas vezes, quando “esquecemos”, a memória não desapareceu — nós apenas não temos a pista certa para recuperá-la.
5. Dê um tempo a si mesmo
Pesquisas mostram que a memória é mais eficaz quando as sessões de estudo ou prática são espaçadas, em vez de concentradas. Se você está estudando para uma prova, inclua blocos sólidos de tempo livre no seu cronograma de revisão.
Um estudo sugere deixar intervalos entre cada sessão de revisão equivalentes a 10% a 20% do tempo restante até a prova ou apresentação.
Então, se seu prazo é de cinco dias e você estuda várias horas por dia, ainda assim deveria tirar entre meio dia e um dia inteiro de folga entre as sessões. Em outras palavras, não exagere — provavelmente você não verá os benefícios.
Lembrando do que leu neste artigo
Se você guardar apenas uma coisa deste artigo sobre como melhorar a memória, que seja isto:
Memória não é apenas uma questão de inteligência, é uma questão de estratégia.
Pequenas mudanças na forma como se estuda ou trabalha podem fazer uma diferença real na qualidade — e na duração — daquilo de que a pessoa se lembra.
Este artigo foi publicado originalmente no portal acadêmico The Conversation e é republicado aqui sob licença Creative Commons.






