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Guerra com imprensa

Trump se irrita no 60 Minutes após jornalista ler manifesto de atirador: ‘você é uma desgraça’

Presidente reagiu a perguntas sobre a motivação do homem que interrompeu jantar de correspondentes da Casa Branca ao tentar invadir o local armado

Donald Trump em entrevista ao programa 60 Minutes

Trump foi entrevistado pelo 60 minutes no dia seguinte ao jantar com correspondentes da Casa Branca, interrompido por um atirador (foto: reprodução YouTube CBS)




Um dia após fazer um discurso em tom conciliador na sequência do Jantar dos Correspondentes da Casa Branca, interrompido por um atirador, Donald Trump voltou ao seu padrão de embates com a imprensa e se irritou durante uma entrevista ao programa 60 Minutes, da CBS.

A tensão surgiu quando a jornalista Norah O’Donnell leu trechos do manifesto atribuído ao homem que abriu fogo no evento e quase conseguiu entrar no salão do Washington Hilton, em Washington.

Trump reagiu com fúria, chamando os jornalistas de “pessoas horríveis” e a entrevistadora de “desgraça” por reproduzir no ar acusações feitas pelo suspeito.

A entrevista foi gravada na tarde seguinte ao ataque, ocorrido durante o jantar anual que reúne autoridades, jornalistas e convidados da imprensa em Washington.

Trump, a primeira-dama Melania Trump, o vice-presidente J.D. Vance, integrantes do governo e mais de 2.500 convidados estavam no local quando os disparos foram ouvidos.

O caso ocorreu no mesmo hotel onde Ronald Reagan sofreu uma tentativa de assassinato em 1981, ao deixar um evento. No episódio envolvendo Trump, o presidente foi retirado do salão pelo Serviço Secreto.

Manifesto de atirador provoca reação de Trump

O ponto mais tenso da entrevista veio quando O’Donnell passou a tratar do manifesto atribuído ao suspeito. De acordo com a CBS, o homem, descrito como um professor de 31 anos da Califórnia, enviou o documento a familiares pouco antes do ataque.

No texto, segundo a emissora, ele dizia mirar integrantes da administração Trump. Ao ler trechos do manifesto, O’Donnell afirmou que o documento parecia indicar uma motivação para o ataque.

Entre as passagens citadas pela jornalista estavam acusações violentas contra Trump e referências a autoridades do governo como alvos.A jornalista pediu uma opinião sobre um trecho que não mencionava Trump diretamente, mas se referia a condutas sexuais.

“Eu não estou mais disposto a permitir que um pedófilo, estuprador e traidor cubra minhas mãos com seus crimes.”

O presidente interrompeu a leitura, disse que já esperava que ela fosse mencionar aquele trecho e rejeitou as acusações atribuídas ao atirador.

“Não sou pedófilo. Com licença. Com licença. Não sou pedófilo. Você leu aquela porcaria de uma pessoa doente? Eu me associei a tudo que não tem nada a ver comigo. Fui totalmente inocentado. Seus amigos do outro lado [os democratas]  são os que estavam envolvidos com, digamos, Epstein ou outras coisas.”

Quando O’Donnell observou que aquelas eram palavras do próprio suspeito, Trump insistiu que ela não deveria ler aquele conteúdo no 60 Minutes. Em seguida, chamou a jornalista de “desgraça” e disse que ela deveria se envergonhar.

“Você não deveria estar lendo isso no 60 Minutes. Você é uma desgraça. Mas vá em frente. Vamos terminar a entrevista.”

Para Trump, CBS deu espaço a acusações falsas

A jornalista tentou seguir no tema e mencionou outro trecho do documento, no qual o autor criticava a segurança do evento.

Trump respondeu dizendo que o próprio atirador também havia sido incompetente, já que acabou preso, e voltou a defender a atuação dos agentes de segurança.

O’Donnell também citou publicações atribuídas ao suspeito com retórica anti-Trump e anticristã. Segundo ela, ele fazia parte de um grupo chamado Wide Awakes e havia participado de um protesto “No Kings”, na Califórnia.

Trump reagiu à menção ao protesto dizendo que não é rei. Depois, acrescentou que, se fosse, não estaria “lidando” com a jornalista.

Presidente volta a associar imprensa e democratas

A entrevista também mostrou que o ataque não mudou o tom de Trump em relação à imprensa. Questionado por O’Donnell se o episódio poderia alterar sua relação com os jornalistas, o presidente respondeu que discorda da imprensa em vários temas, especialmente sobre crime.

Em seguida, ampliou a crítica e afirmou que imprensa e democratas seriam quase a mesma coisa.

“Não é tanto a imprensa; é a imprensa mais os democratas, porque eles são quase uma coisa só.”

Mais adiante, ao ser questionado sobre violência política, voltou a culpar seus adversários.

O’Donnell lembrou que várias pessoas presentes no jantar tinham ligação direta com episódios de violência política nos Estados Unidos, entre elas Robert F. Kennedy Jr., Kerry Kennedy, Erika Kirk e o republicano Steve Scalise. A jornalista perguntou se havia algo que Trump, como presidente, poderia fazer para mudar essa trajetória.

Trump respondeu que a violência política sempre existiu e disse não ter certeza de que o problema seja maior agora do que em outros períodos da história. Em seguida, afirmou que o discurso de ódio dos democratas é perigoso para o país.

“Acho que o discurso de ódio dos democratas, muito mais, é muito perigoso. Realmente acho que é muito perigoso para o país.”

Trump diz que não sabia se era o alvo

Além do manifesto, a entrevista reconstruiu os momentos de tensão no salão. O’Donnell perguntou se Trump sabia se ele era o alvo do atirador. O presidente respondeu que não sabia, mas disse ter lido o manifesto e descreveu o suspeito como alguém radicalizado.

Segundo Trump, o homem teria passado por uma mudança religiosa extrema, e familiares já estavam preocupados com ele. O presidente afirmou que o suspeito parecia ser uma pessoa provavelmente “muito doente”.

O’Donnell, que também estava no jantar, relatou ter ouvido algo parecido com tiros ou uma confusão. Disse ainda que pessoas próximas sentiram cheiro de pólvora e que todos foram orientados a se jogar no chão.

Questionado sobre o quanto se preocupou com a possibilidade de haver feridos, Trump respondeu que não ficou preocupado. Em seguida, comentou que o mundo é “louco”.

Melania percebeu o perigo antes, diz Trump

A jornalista também perguntou sobre o momento em que o presidente percebeu que havia algo errado. Ela lembrou que Trump estava sentado ao lado de Melania enquanto o artista Oz Pearlman, conhecido como The Mentalist, interagia com a plateia.

Trump respondeu que percebeu algo estranho mais ou menos naquele momento e mencionou a expressão da primeira-dama. O’Donnell disse que Melania parecia alarmada e perguntou se ela ficou assustada.

O presidente evitou responder de forma direta. Disse que as pessoas não gostam de ouvir que ficaram com medo, mas reconheceu que seria natural se assustar em uma situação como aquela.

Segundo Trump, Melania percebeu antes que o barulho poderia ser de bala, e não de uma bandeja caindo.

“Eu queria ver o que estava acontecendo”

Trump também comentou a atuação do Serviço Secreto. O’Donnell descreveu a rapidez com que os agentes retiraram o vice-presidente e cercaram o presidente, e perguntou por que, em determinado momento, ele apareceu no chão.

Trump disse que parte da demora foi causada por ele próprio, porque queria entender o que estava acontecendo. Segundo o presidente, ele chegou a pedir aos agentes que esperassem um pouco antes de retirá-lo.

Depois, explicou que ele e Melania foram orientados a se abaixar porque ainda estavam expostos no salão. O presidente disse que já havia passado por situações de risco antes, mas que a primeira-dama não havia vivido nada daquela dimensão.

Trump afirmou que Melania reagiu bem, seguiu as instruções dos agentes e entendeu a gravidade do momento.

Presidente defende novo jantar em até 30 dias

Apesar do ataque, Trump disse que queria voltar ao jantar naquela mesma noite. Segundo ele, não seria aceitável permitir que uma pessoa “louca” cancelasse o evento.

O presidente defendeu que o Jantar dos Correspondentes seja remarcado em até 30 dias, com reforço de segurança. Também afirmou que há pessoas “ótimas” e “justas” na imprensa, embora tenha voltado a dizer que a maior parte dela é liberal ou progressista.


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