O Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, em 3 de maio, chega este ano sob o alerta de um novo relatório da ONU documentando a violência online contra mulheres na vida pública, incluindo jornalistas, profissionais da mídia, escritoras e comunicadoras.
O documento da ONU Mulheres mostra que, entre jornalistas e trabalhadoras da mídia, a parcela que relatou ter denunciado incidentes de violência online à polícia dobrou desde 2020, passando de 11% para 22,4%, e quase a metade (45%) delas se autocensura nas redes para evitar abusos.
Nesse mesmo grupo, 24,7% relataram diagnóstico ou tratamento para ansiedade e ou depressão associado à violência online sofrida.
O estudo também aponta que, entre todas as mulheres na vida pública pesquisadas, incluindo jornalistas, uma em cada quatro sofreu abuso assistido por inteligência artificial.
Violência online contra mulheres jornalistas cresce na era da IA
O relatório “Tipping point: Online violence impacts, manifestations and redress in the AI age” integra uma série sobre como a violência online limita a participação de mulheres na vida pública na era da inteligência artificial.
Ele é fruto de uma parceria da ONU Mulheres com pesquisadores do The Nerve, iniciativa fundada pela jornalista detentora do Nobel da Paz Maria Ressa, e da City St. George’s, University of London, em colaboração com o International Center for Journalists e a Unesco.
O questionário foi distribuído em cinco idiomas: árabe, inglês, francês, português e espanhol. Foram analisadas respostas de 874 participantes de 119 países, das quais 641 se identificaram como mulheres.
O estudo consolida as experiências de mulheres cujas atividades de liderança ou profissionais envolvem a exposição em redes sociais ou sites, divididas em três grupos: defensoras de direitos humanos e ativistas; jornalistas e profissionais da mídia, e escritoras e outras comunicadoras públicas.
Segundo o relatório, a violência online contra mulheres na vida pública é frequentemente deliberada e coordenada. O objetivo, de acordo com o documento, é silenciar essas mulheres e prejudicar sua credibilidade profissional e reputação pessoal.
Abusos incluem deepfakes e imagens manipuladas
Entre todas as mulheres pesquisadas, 12% relataram o compartilhamento não consensual de imagens pessoais, incluindo conteúdo íntimo ou sexual. Outras 6% disseram ter sido alvo de deepfakes ou de outros tipos de imagens e vídeos manipulados.
O relatório mostra que a exposição a esses abusos varia conforme a atividade profissional. O compartilhamento não consensual de imagens pessoais foi relatado por 9,1% das mulheres jornalistas e profissionais da mídia, 14,5% das defensoras de direitos humanos e ativistas e 15,3% das escritoras e outras comunicadoras públicas.
Em relação a deepfakes e imagens ou vídeos manipulados, 4,5% das jornalistas e trabalhadoras da mídia disseram ter sido alvo desse tipo de abuso, em comparação com 8,4% das defensoras de direitos humanos e ativistas e 9,7% das escritoras e outras comunicadoras públicas.
Em agosto de 2025, um site pornô italiano foi fechado depois de exibir imagens manipuladas de deputadas, jornalistas, celebridades e até da primeira-ministra do país, Giorgia Meloni.
O relatório também aponta que 27% das respondentes receberam abordagens sexuais indesejadas por mensagens diretas ou privadas, incluindo imagens íntimas não solicitadas, “cyberflashing”, insinuações sexuais e “sexting” sem consentimento.
Nesse recorte, o percentual foi de 23,8% entre jornalistas e profissionais da mídia, 40,3% entre defensoras de direitos humanos e ativistas e 32,9% entre escritoras e outras comunicadoras públicas.
Autocensura atinge quase metade das jornalistas
O relatório mostra que a violência online tem impacto direto sobre a participação pública e profissional das mulheres pesquisadas.
Entre todas as respondentes, 41% disseram se autocensurar nas redes sociais para evitar abusos. Outras 19% afirmaram se autocensurar no trabalho.
Entre mulheres jornalistas e trabalhadoras da mídia, os índices são mais altos: 45,3% desse grupo afirmou se autocensurar nas redes sociais em resposta à violência online. Em 2020, esse percentual era de 30%.
No ambiente de trabalho, 21,7% das mulheres jornalistas e trabalhadoras da mídia disseram se autocensurar por causa de ataques recebidos pela Internet.
Ansiedade, depressão e estresse pós-traumático
A violência online produz danos pessoais duradouros para muitas mulheres, segundo o relatório.
Entre todas as mulheres pesquisadas que responderam à pergunta sobre impactos pessoais, 24,4% disseram ter sido diagnosticadas ou tratadas por ansiedade e ou depressão relacionada à violência online. Outras 12,8% relataram diagnóstico ou tratamento para transtorno de estresse pós-traumático.
No grupo de mulheres jornalistas e trabalhadoras da mídia, 24,7% relataram diagnóstico ou tratamento para ansiedade e ou depressão. Outras 12,8% disseram ter sido diagnosticadas ou tratadas por transtorno de estresse pós-traumático.
O relatório também mostra diferenças entre grupos profissionais. Entre escritoras e outras comunicadoras públicas, 38,7% relataram ansiedade e/ou depressão, e 21,9% transtorno de estresse pós-traumático.
Entre defensoras de direitos humanos e ativistas, os percentuais foram de 26% e 14,9%, respectivamente.
Denúncias à polícia dobraram desde 2020
O estudo aponta aumento nas tentativas de buscar reparação. Entre todas as mulheres que sofreram violência online, 25% disseram ter relatado os casos à polícia, enquanto 15% afirmaram ter iniciado alguma ação legal contra agressores, facilitadores da violência online, plataformas ou empregadores.
No caso das mulheres jornalistas e profissionais da mídia, 22,4% disseram ter denunciado incidentes à polícia em 2025. Em 2020, esse percentual era de 11%.
Também houve aumento nas ações legais iniciadas por esse grupo. Em 2025, 13,6% das mulheres jornalistas e trabalhadoras da mídia disseram ter iniciado medidas legais. Em 2020, eram 8%.
O relatório afirma que esses dados podem refletir o aumento da violência online contra mulheres na esfera pública, a maior conscientização sobre o problema e a busca por responsabilização.
Denunciar nem sempre leva à responsabilização
O relatório também aponta limites nas respostas institucionais. Entre as mulheres que relataram violência online às autoridades, apenas 10% disseram que acusações foram formalmente apresentadas contra os agressores.
Outras 27% afirmaram ter enfrentado resistência ou recusa da polícia em investigar os casos.
Além disso, 24% das mulheres que procuraram autoridades relataram tratamento percebido como culpabilização da vítima.
O mesmo percentual disse ter sido levado a se sentir responsável por se proteger de novas violências, como sair das redes sociais, evitar falar publicamente sobre temas controversos, assumir funções menos visíveis no trabalho ou se afastar da carreira.
Proteção legal ainda é limitada
O relatório cita dados do Banco Mundial sobre lacunas na proteção legal contra a violência online. Segundo a instituição, menos de 40% dos países têm leis para proteger mulheres contra assédio virtual ou perseguição online.
Como resultado, 44% das mulheres e meninas no mundo — cerca de 1,8 bilhão de pessoas — permanecem sem acesso a proteção legal contra esse tipo de violência.
O estudo completo pode ser visto aqui.
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