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Jornalismo ambiental

Guia da Global Investigative Journalism Network traz 10 recomendações para a cobertura de desastres naturais

Lista elaborada pela rede internacional de jornalismo investigativo ajuda a imprensa a fiscalizar falhas, prevenção e resposta pública

Aréa afetada por inundação em Caraguatatuba/SP.

Destruição causada por enchentes no litoral norte de São Paulo em 2023 (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)




Em muitas tragédias relacionadas a fenômenos naturais, a natureza era historicamente apontada como a principal responsável – mas isso está mudando.

As mudanças climáticas  passsaram a ser associadas a esses eventos, em linha com a ciência da atribuição. No entanto, nem sempre esses eventos são completamente inesperados.

A Global Investigative Journalism Network (GIJN), uma rede mundial de jornalistas investigativos, elaborou uma lista com 10 perguntas a serem feitas na cobertura de tragédias naturais.

Qual o papel da imprensa após inundações e outros desastres?

Já faz anos que os cientistas alertam para o aumento do volume de tempestades e outros eventos extremos e reafirmam a necessidade de, além de conter o avanço da crise, sejam adotadas ações de mitigação climática

Se as autoridades costumam se esquivar de suas responsabilidades e erros do passado, cabe à imprensa fiscalizar o que tem sido feito para evitar novas inundações e outros desastres naturais que podem ser prevenidos, como desabamentos devido a construções irregulares em encostas.

Ou atuar de forma mais eficiente antes e depois de um evento climático que não pode ser evitado.

A lista da GIJN foi criada no contexto do terremoto na Turquia, uma tragédia verdadeiramente natural, mas que poderia ter tido um impacto humano e econômico muito menor se o governo tivesse atuado previamente para mitigar os impactos, como acontece em tantos outros desastres ambientais mundo afora.

10 perguntas para investigar eventos posteriores a tragédias

Confira a lista da GIJN com 10 perguntas que jornalistas devem usar como base em reportagens investigativas.

1. Para onde foi o dinheiro da ajuda – e onde estão os pontos de estrangulamento que interrompem seu fluxo?

Os desastres desencadeiam a liberação de milhões de reais em ajuda, subsídios de reconstrução e recursos para o socorro às vítimas. Além de casos de corrupção, os jornalistas frequentemente revelam erros alarmantes de distribuição e falhas na entrega que desviam ou paralisam esse dinheiro.

Algumas perguntas importantes que podem ser feitas para seguir o rastro do dinheiro:

  • “Quem são as figuras-chave na cadeia de distribuição – e quem supervisiona?”;
  • “As provisões de emergência ou alimentos foram roubados ou desviados para serem vendidos no mercado negro?”; e
  • “Como foram escolhidos os prestadores de serviços privados, e eles cumpriram seus contratos?”

2. O desastre foi agravado por ações humanas — antes e/ou depois do evento?

Essa pergunta pode desencadear vários ângulos de investigação – desde matérias sobre falhas de planejamento e falhas de comunicação até reportagens mais aprofundadas sobre os efeitos de longo prazo das mudanças climáticas.

Com poucas exceções, os desastres naturais são geralmente previsíveis e podem ser mitigados com planejamento, alocação de recursos e — em casos como desabamentos, furacões, erupções vulcânicas e tsunamis — até mesmo alertas públicos no tempo certo para que a população deixe áreas de risco.

E os danos e a perda de vidas podem ser limitados pela mobilização efetiva e coordenada do governo, como foi visto na resposta bem-sucedida ao terremoto de magnitude 7,1 em Canterbury, na Nova Zelândia, em 2010 – que matou apenas uma pessoa.

3. O desastre pode ter causado vazamentos ou contaminação tóxica de locais próximos?

O desastre nuclear de Fukushima – e os erros técnicos e de comunicação envolvidos – após o tsunami de 2011 no Japão é o exemplo mais conhecido que envolveu uma combinação de tragédias.

Mas terremotos, inundações e tsunamis podem desencadear efeitos em cascata, como contaminação de refinarias de petróleo danificadas, bases militares e fábricas de produtos químicos, fatos que muitas vezes não são revelados sem investigação jornalística.

4. O número de mortos foi agravado pela corrupção ou clientelismo político?

Segundo um estudo da revista Nature, 83% de todas as mortes causadas por desabamentos de prédios devido a terremotos nas últimas décadas ocorreram em países caracterizados pela corrupção sistêmica.

Os autores observaram que as más práticas de construção são “em grande parte responsáveis ​​por transformar terremotos moderados em grandes desastres”.

Em outros casos, líderes irresponsáveis ​​instalaram pessoas sem capacidade em postos importantes de resposta a emergências, enquanto a corrupção e o desvio ilícito de fundos de ajuda levaram à perda de mais vidas.

5. O que os dados dizem sobre problemas nas agências de gerenciamento de emergência ou disparidades na assistência a desastres?

Em 2021, o jornalista de dados do Washington Post, Andrew Ba Tran, vasculhou profundamente os bancos de dados do governo americano para mostrar que a taxa de aprovações de assistência da Agência Federal de Gerenciamento de Emergências (FEMA) dos EUA caiu de 63% em 2010 para apenas 13% em 2021.

A equipe também comparou dados de assistência com categorias raciais nos dados do censo para mostrar que a assistência foi sistematicamente negada aos sobreviventes de desastres negros no “Sul profundo” da América.

A situação dos EUA se agravou no governo Trump, que desmantelou diversas estruturas federais, mas o exemplo citado no guia mostra como é possível revelar essas disparidades.

6. Como noticiar saques e ilegalidades entre os sobreviventes de maneira ética?

Este não é exatamente um ângulo investigativo, mas vale a pena observar: tenha cuidado com estereótipos e preconceitos.

Como a pesquisadora Nadia Dawisha descobriu em uma análise da cobertura jornalística do desastre do furacão Katrina em 2005, nos EUA, os sobreviventes negros eram frequentemente descritos em termos de ilegalidade, enquanto os brancos eram retratados como buscando ajuda.

Ela apontou como um afro-americano visto carregando comida de uma loja foi descrito como um “saqueador”, enquanto um branco fazendo o mesmo estava “encontrando comida”.

Os especialistas enfatizam que os jornalistas devem tomar cuidado para evitar estereótipos e relatar incidentes desse tipo no contexto das condições enfrentadas por cada comunidade afetada.

7. O que podemos aprender com novos atores que participam da resposta a emergências?

Como Josephine Schmidt, editora executiva do The New Humanitarian, disse ao GIJN, a resposta a desastres – e a “indústria de ajuda humanitária de US$ 30 bilhões” – não são mais assunto exclusivo dos governos, das Nações Unidas.

Os esforços de resgate agora podem incluir indivíduos particulares, comunidades online e até bombeiros voluntários que viajam para desastres por conta própria.

Essas pessoas podem fornecer fatos independentes importantes e confiáveis, acesso valioso e até mesmo atuar como denunciantes.

8. Que ameaças à saúde pública podem ter sido desencadeadas pelo desastre inicial?

Novas condições criadas por desastres – especialmente água potável contaminada e falhas de saneamento – muitas vezes criaram novas ondas de mortes por doenças após desastres naturais – como aconteceu com o aumento dos casos de malária no Paquistão após inundações recentes.

Além disso, é bom estar atento e examinar a interrupção em serviços de saúde essenciais – o que vai da distribuição de comprimidos para tuberculose e hipertensão a cuidados pré-natais.

9. Quem lucra com o desastre?

Em muitos desastres naturais foram registrados casos alarmantes de golpes e oportunistas tentando lucrar com a tragédia, e colocar até a imprensa em risco.

Semanas após o terremoto no Haiti, em 2010, um funcionário de folga no danificado aeroporto internacional de Port-au-Prince tentou extorquir o repórter Rowan Philp, da GIJN, e um piloto particular em troca de seus direitos de saírem da cidade, usando uma gangue local para intimidá-los.

10. O que está faltando aqui?

Desde a falta de profissionais qualificados necessários para projetos de reconstrução até comunidades pobres abandonadas à própria sorte durante as calamidades, existem diversas questões que se seguem após um desastre natural.

É muito provável que os jornalistas que cobrem a tragédia não consigam acompanhar tudo e estejam em constante debate sobre quais pautas noticiar.

Por isso, é importante também que a comunidade se engaje para ajudar nesse serviço de cobertura e reconstrução das áreas afetadas, notificando os órgãos de imprensa sobre possíveis abusos que tenham identificado ou dos quais suspeitem.


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