De Londres e de São Paulo, notícias, ideias e tendências em jornalismo, informação, desinformação e plataformas digitais

Classic Nudes | Série do PornHub com obras de arte famosas promovida por Cicciolina revolta museus

O melhor da pornografia de todos os tempos só pode ser encontrado nos museus, diz o PornHub, o site pornográfico mais clicado do mundo

“A pornografia pode não ser considerada arte, mas alguma arte pode ser considerada pornografia”. Assim a ícone mundial da pornografia, a ítalo-húngara Cicciolina apresenta o novo lançamento do site de vídeos pornográficos mais clicado do mundo, o PornHub.

Trata-se do “Classic Nudes”, um guia interativo que comenta mais de cem obras clássicas que representam o melhor da arte erótica exibida em seis dos principais museus do mundo, e que vem gerando muita polêmica. Não pelo conteúdo, mas por ter sido feito sem a autorização dos museus para o uso de seus nomes e obras.

Mesmo às vésperas de completar 70 anos, a ex-mulher do artista plástico pop Jeff Koons (que a convenceu a colaborar na série de obras “Made in Heaven” em que ambos faziam sexo em variadas posições), foi escolhida para estrelar a campanha publicitária.  

Leia também: Usuários de redes sociais jovens como TikTok e Snapchat preferem se informar com influencers

Para esconder a passagem do tempo, Cicciolina (ou Ilona Staller para os íntimos), posou de collant cor de pele para reproduzir o quadro “O Nascimento de Vênus”, de Botticelli, enquanto disparava para atrair seguidores para o lançamento:

 “Vou contar a vocês um segredinho: o melhor da pornografia de todos os tempos não está no PornHub. Só pode ser encontrado em um museu.”

Uffizi e Louvre, os primeiros museus a reagir

O PornHub diz que, além de obviamente buscar mais audiência e adeptos, a iniciativa teria o objetivo de incentivar seus usuários a experimentar a arte e assim estimular a visitação aos museus.

O argumento não convenceu a Galleria degli Uffizi, de Florença (Itália), justamente a detentora dos direitos do quadro de Botticelli, que não foi consultada e não recebeu qualquer centavo pelo uso da imagem.

E não foi só a Uffizi. Outros museus proprietários das obras utilizadas, que incluem o Louvre e o D’Orsay (França), o Prado (Espanha), a National Gallery (Inglaterra) e o MOMA – Metropolitan Museum of Modern Art (Estados Unidos), também não foram consultados.

Isso deverá dar origem a uma nova série, só que desta vez de batalhas nos tribunais. De acordo com a agência de notícias italiana Adkronos, a Uffizi e o Louvre serão os primeiros a acionar a MindGeek Holing, empresa com sede em Luxemburgo que é dona do PornHub (e também de várias outras marcas de conteúdo adulto, como YouPorn e RedTube).

A atriz Kim, da dupla MySweetApple, interpreta A Maja Nua, em vídeo pornô (Reprodução do site)

Obras inspiram vídeos eróticos

O caso é ainda mais complicado porque não envolve apenas o uso indevido dos nomes e das obras dos museus.

Envolve também uma “livre interpretação” bem apimentada de como algumas das principais obras poderiam continuar, em vídeos que variam de um a dois minutos.

Leia também: Príncipe Harry vai abordar “altos e baixos” em biografia: “Temos mais em comum do que imaginamos”

Para cada museu, foi escolhida uma obra icônica que serviu de inspiração para performances do casal de atores pornô que forma a dupla “MySweetApple”, com a utilização de diferentes posições e atos sexuais para cada uma delas.

Uma das performances é inspirada na pintura A Maja Nua, de Goya, de propriedade do Museu do Prado. Outra retrata Adão e Eva, de Jan Gossaert, da National Gallery, mostrando os primeiros momentos depois de o casal ter mordido o fruto da tentação. No total são seis filmes bem explícitos, que certamente não serão exibidos em nenhum museu.

Perigos da associação de marcas

O PornHub funciona um pouco como o YouTube. Qualquer pessoa pode abrir um canal e começar a enviar vídeos. Assim, ao longo dos anos, a plataforma foi preenchida com conteúdo publicado muitas vezes sem o consentimento das pessoas retratadas, dando margem a casos de pornografia de vingança (revenge porn) e voyeurismo. 

Vídeo erótico da série (Reprodução)

A plataforma passou a permitir a publicação de vídeos apenas para canais verificados, mas a estratégia parece não funcionar. Em junho passado, 34 mulheres abriram processos contra o PornHub por hospedar vídeos postados sem consentimento. Não espanta o cuidado dos museus em não querer associar suas marcas com a iniciativa.

Um guia para cada museu

A ideia de Classic Nudes é contar a pornografia na história da arte por meio de várias formas. As obras podem ser acessadas por app ou pelo site phclassicnudes.com.

O site oferece um guia para cada um dos seis museus. Todos têm mapas mostrando a localização das obras, cada uma com um texto explicativo bem humorado. Algumas também têm um áudio-tour com a voz de Asa Akira, atriz pornográfica e embaixadora da marca Pornhub, que assim descreve a iniciativa:

“Junte-se a nós em um tour por algumas das cenas mais sexy da história exibidas pelos museus mais famosos do mundo. Passaremos pelas pinturas puritanas e levaremos você diretamente para o que há de bom: representações do corpo nu em toda a sua glória artística!”

Nus de brancos pintados por brancos são maioria

O guia com o melhor da arte clássica erótica apresenta 18 obras do Museu do Prado, 16 tanto do Metropolitan como do Louvre, 12 da Galleria degli Uffizi e 11 tanto do D’Orsay como da National Gallery.

No entanto, a seleção mostra como a arte ocidental apresenta predominantemente corpos brancos pintados por artistas brancos. 

Leia também: Facebook e Twitter cedem e entregam perfis ligados a racismo contra atletas da seleção da Inglaterra

Para equilibrar as ofertas esmagadoramente eurocêntricas que os museus escolhidos oferecem, foi criado um sétimo guia, chamado “Outra Perspectiva”, que mostra 22 obras de arte da Índia, Japão, China e Américas retratando corpos não brancos. 

Almoço na Relva, de Manet, abre o guia do Museu D’Orsay (Reprodução do site)

“Manet inventou o gênero pornô da realidade”

Os passeios por cada museu são recheados de bom humor. Os comentários de Akira são impagáveis, apresentando de uma forma completamente inusitada alguns dos principais clássicos da história da arte. Sobre o D’Orsay, ela diz que o museu guarda “alguns dos mais belos nus impressionistas e pós-impressionistas já produzidos”, entre eles o Almoço na Relva, de Manet:

“Foi chocante naquela época ver mulheres nuas retratadas em um cenário contemporâneo quando todos estavam acostumados a vê-las como deusas ou ninfas encantadas das florestas. Assim, Manet inventou o gênero pornô da realidade.”

Mas Akira ressalta que no D’Orsay ninguém vai querer perder a pièce de résistance de Gustave Coubert no final do passeio. O quadro em questão é A Origem do Mundo, pintado em 1866 para atender uma encomenda do diplomata Khalil-Bey, que solicitou uma pintura com um close do nu feminino no primeiro plano:

“Um quadro inovador e profundamente controverso na época. Courbet rompeu com todas as normas artísticas estabelecidas para retratar a nudez, permitindo ao espectador, pela primeira vez na história da arte ocidental, ficar cara a cara com o que o artista descreve literalmente como a origem do mundo. Como se costuma dizer na França: Ooh la la!”

O nude mais famoso da série

Na Galleria degli Uffizi, Akira destaca O Nascimento de Vênus como o nude mais famoso de toda a série. Por quê? Ela explica: “Antes de essa obra ser produzida, praticamente ninguém pintava um nu feminino na arte ocidental desde os dias do Império Romano”.

Leia também: Representação LGBTQ em desenhos animados tem boom em uma década, mostra levantamento

Comentando sobre o nascimento de Vênus de uma concha, Akira diz:  “E se você pensava que aquela concha era um símbolo para o órgão genital, então você estava absolutamente certo!”

A Maja Nua, de Goya, abre a seção do Museu do Prado (Reprodução do site)

A primeira obra com pelos púbicos femininos

No Museu do Prado, outro dos pontos altos apresentados por Akira é A Maja Nua pintada por Francisco Goya no finzinho do século 18:

“Embora saibamos que ela ainda está bonita aos 220 anos, por favor, tente manter suas mãos longe dela… Curiosamente, esta pintura também é a primeira vez na história da arte ocidental em que os pelos púbicos de uma mulher são mostrados.

Ela aponta também nesse museu “a maior e mais incomum orgia da história da arte”, referindo-se a O Jardim das Delícias Terrenas, pintado no início de 1500 pelo mestre holandês Hieronymus Bosch, obra que ela descreve como uma “orgia de proporções bíblicas.

A Morena Odalisca, de François Boucher, abre o guia do Louvre (Reprodução do site)

Quem quer ver Mona Lisa?

O Louvre é apresentado como o “a crème de la crème do mundo dos museus”:

“Ele abriga algumas das maiores obras-primas da história, como a Mona Lisa e o Retrato de Luís XIV. Mas os dois estão totalmente vestidos e você está aqui para ver os nus, então vamos fazer um tour pelo lado mais sedutor deste museu!”

Uma das obras destacadas é A Morena Odalisca, pintada em 1745 por François Boucher, assim descrita por Akira:”O quadro retrata uma espécie de trabalhadora do sexo oriental. O ambiente familiar da cama intensamente desarrumada nos convida a imaginar que já houve – e sem dúvida haverá mais – travessuras sensuais  em andamento.”

 

Nu Masculino, de Edgar Degas, abre a seção do Metropolitan (Reprodução do site)

Homem nu deitado em vez de matando dragões

No Metropolitan, um dos pontos altos do tour destacados por Akira é Nu Masculino, pintado por Edgar Degas em 1856:

“Ao apresentar a forma masculina de uma maneira incomum para a época, deitada em vez de matando dragões, diz-se que Degas está retratando um aspecto totalmente diferente da masculinidade, mais sensual e delicado.”

Os comentários bem-humorados se sucedem. O museu londrino é assim apresentado:

“A National Gallery de Londres foi fundada há 196 anos, quando vestir roupas leves significava usar apenas 9 camadas de roupa por vez. Felizmente, seus fundadores tiveram a clarividência de preencher seus salões com nus dignos de um rei ou de uma rainha”.

Nesse museu uma das obras que Akira destaca é Adão e Eva, pintada em 1520 por Jan Gossaert:

O casal acabou de participar de um ato particularmente pecaminoso: comer o fruto proibido. Eva tenta esconder a maçã enquanto Adão tenta limpar as evidências de sua barba.

Como resultado desse conto bíblico tão famoso, a maçã tem sido frequentemente usada para representar a tentação, a luxúria e o desejo sexual. E todo esse tempo pensamos que a banana era a fruta mais sexy!”

Tudo bem divertido, mas os representantes dos museus não estão achando a menor graça. Tommaso Galligani, porta-voz da Uffizi, assim resumiu a iniciativa: “Este é um golpe publicitário do Pornhub e não queremos transformá-lo em um grande caso internacional.”

Independentemente da vontade dos museus, parece que já está se tornando.

Leia também

Washington Post é processado por repórter proibida de cobrir casos de assédio sexual por já ter sido vítima

Dua Lipa é novo capítulo da briga paparazzi vs. celebridades por direito de imagem

 

Direitos autorais reservados. Reprodução do conteúdo integral não autorizada. Reprodução do primeiro parágrafo autorizada desde que com link para a matéria original.
Aldo De Luca
Jornalista brasileiro radicado em Londres, é co-fundador e articulista de MediaTalks by J&CIa. Fa parte da FPA London (Foreign Press Association).

1 comentário

  1. Os corpos estão trocados. Colocaram muita gente magra, quando em se tratando de renascentistas e impressionistas, o predomínio era da mulher gorda. Apenas sensacionalismo. E quanto à obra de Boticelli, sua Vênus é uma mulher horrorosa.

O que você achou? Comente aqui.