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Magnata da mídia na França criticado por “gestão do terror” quer aumentar império e vira tema de documentário

(Divulgação/RSF)

Os planos de aquisição de um novo grupo de comunicação pelo bilionário francês Vincent Bolloré lançaram luz sobre as atividades de um empresário que não é tão conhecido como outros magnatas da mídia global, como Michael Bloomberg ou Rupert Murdoch. Mas que tem sua trajetória envolvida em controvérsias. 

Para chamar a atenção sobre o empresário criticado por ter “traumatizado” as redações de veículos de imprensa adquiridos por seu grupo, a organização Repórteres sem Fronteiras (RSF), que tem sede na França, produziu um documentário em que expõe as práticas de Bolloré.

A RSF faz um alerta sobre os riscos de concentração de mercado e as ameaças à independência dos veículos que ele planeja adquirir, pedindo ao governo que adote medidas para prevenir os riscos que enxerga nessas operações. 

O empresário já controla o grupo Vivendi, que possui grandes empresas como a Havas, na publicidade, o Universal Music Group, na música e o grupo Canal Plus. Este último reúne produções para TV e cinema e possui o terceiro maior acervo cinematográfico do mundo, segundo a revista Variety.

Para piorar a situação, Bolloré fez uma oferta para adquirir o controle do grupo Lagardère, dono de marcas como o jornal Paris Match, as rádios Europe 1 e Virgin, e o licenciamento da revista Elle, no que pode gerar uma concentração de mercado prejudicial à liberdade de imprensa na França, segundo a RSF. 

O fundador do grupo alvo da nova cobiça de Bolloré foi Jean-Luc Lagardère, que na década de 70 se casou com uma modelo brasileira. Beth Lagardère entrou para o jet-set internacional e se tornou herdeira do grupo quando o empresário morreu, em 2003.  O conglomerado é uma companhia aberta, com ações listadas na Bolsa de Paris. 

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O grupo Bolloré

A partir de 1981, Bolloré começou a transformar uma empresa familiar de embalagens de cigarros e bíblias fundada no século 19 em um império listado entre as 500 maiores corporações do mundo. Ele expandiu o negócio para a comunicação e estendeu sua influência para as áreas de publicidade e mídia. 

O Grupo Bolloré atua ainda nos ramos de energia e logística, além de ter participação na Telecom Italia, no grupo Mediaset de comunicação do italiano Silvio Berlusconi, e em diversas outras empresas de comunicação.

Segundo a Forbes, a fortuna de Bolloré é avaliada em US$ 9,3 bilhões (R$ 50 bilhões).

Demissões e assédio judicial colocam Bolloré como vilão da mídia na França

O documentário produzido pela Repórteres sem Fronteiras expõe as práticas de “terror” de Bolloré, com demissões e processos judiciais contra jornalistas. E faz um alerta sobre os riscos de concentração de mercado e a ameaça à independência dos veículos que ele planeja adquirir. 

Batizado de “O Sistema B”, o documentário traz o depoimento de jornalistas franceses que em algum ponto de suas carreiras bateram de frente com Bolloré. Um dos episódios é o da greve da redação da emissora de TV iTélé que durou um mês em 2015, em protesto contra demissões e interferências no jornalismo promovidas pelo empresário. 

Em retaliação, Bolloré acabou demitindo a quase totalidade da redação e fundou um novo canal, o CNews, criticado por por atuar como uma emissora de opinião, em favor dos interesses do empresário.

“Qualquer conteúdo que não lhe agrade, ele derruba. Qualquer direção que não seguir exatamente seus interesses e propósitos, ele decapita.”

Profissionais da mídia na França ouvidos pela RSF descrevem como o grupo do empresário usa o método de assédio judicial, processando jornalistas que investigam assuntos indesejados por Bolloré, como seus negócios na África, que chegaram a lhe render uma prisão em 2018 por usar a agência Havas em esquemas de corrupção em Togo e Guiné.

Na época, o grupo concordou em pagar € 12 milhões (R$ 79,1 milhões) como parte do acordo com a Justiça para crimes financeiros na França.

No Canal+, um documentário sobre o Credit Mutuel, banco cooperativo francês, teve sua exibição proibida.

“Eu pensei sinceramente que isso não aconteceria, que iríamos negociar e ele entenderia, mas não conseguimos”, afirma o jornalista Jean-Pierre Canet, ex-funcionário da TV e autor do livro Vincent Tout-puissant (Vincent Todo-poderoso, em tradução livre).

Lei aprovada para garantir independência jornalística da mídia na França

A Lei Bloche, aprovada pelo Parlamento francês em 2017, foi apelidada de “lei anti-Bolloré”, por defender a independência jornalística, a proteção de fontes e o direito de informar dos veículos de comunicação na França, usualmente controlados financeiramente por empresários. 

Além do vídeo, a RSF publicou sete recomendações em que pede providências ao poder público e órgãos reguladores para o que classifica como uma ameaça à independência dos veículos de propriedade de Bolloré e também uma situação de concentração irregular de mercado.

Para a organização, o Estado, acionista da Vivendi através do banco público Caisse des Dépôts et Consignations, “deve convocar a Assembleia Geral da Vivendi para adotar uma moção pedindo a independência editorial de todos os meios de comunicação do grupo a ser garantida”.

A RSF insta também o Conselho Superior do Audiovisual (CSA), órgão regulador de mídia na França, para “se basear na legislação existente, em particular no conceito de “honestidade de informação” previsto na lei Bloche, e punir ataques à independência editorial e ao pluralismo que possam ser observados na mídia do grupo Bolloré”.

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Bolloré transformou canal de notícias em emissora de opiniões, diz RSF

Sobre o canal CNews, a organização chama a atenção para o que classifica como uma mudança na natureza da emissora. “O CSA tem o direito de revisar a convenção da CNews, que se tornou uma mídia de opinião, mais do que um canal de notícias. Tal revisão teria a vantagem de desestimular a reprodução de tal transformação na Europa 1 [rede de rádio prestes a ser controlada por Bolloré]”.

No ramo editorial, a RSF destaca o fato de que, se controlar o grupo Lagardère, Bolloré será dono das editoras dos livros Informar não é um Crime e Vincent Todo-Poderoso, contra os quais o empresário moveu processos judiciais tentando evitar sua publicação.

O secretário geral da RSF, Christophe Deloire, ressalta o perigo que o poder crescente do magnata da mídia francesa representa à democracia:

“Essa concentração da mídia nas mãos de um empresário que tem uma visão puramente utilitária da informação e que ataca sistematicamente os jornalistas que o investigam representa uma ameaça óbvia para o debate democrático”.

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