Londres – A entrada triunfal do príncipe William e de sua mulher Kate Middleton sobre um tapete verde em uma cerimônia politicamente correta do prêmio ambiental patrocinado por eles neste domingo (17/10), vestindo roupas usadas, foi o ponto alto de uma semana em que a família real britânica colocou em marcha uma ofensiva verde composta por vários movimentos. 

A semana não tinha começado fácil. Um barulhento protesto diante do palácio de Buckingham no dia 10 de outubro cobrou  da família real, maior proprietária de terras do país, o reflorestamento de suas áreas.

Os ativistas querem que o compromisso seja anunciado antes da COP26, para dar o exemplo. 

Mas para uma família conhecida como “A Firma” pelo profissionalismo com que trata sua imagem pública, o protesto não provocou maiores avarias. Seguindo o mandamento número um de sua política de comunicação – não reclame, não explique -, nenhum personagem real vestiu a carapuça.

Depois, em uma sequência de movimentos sincronizados que dificilmente podem ser atribuídos ao acaso, seus membros mais proeminentes – os príncipes Charles e William e a própria rainha – falaram ou agiram para demonstrar compromisso e até irritação com quem não colabora com o clima.

Nesta terça-feira (19/10), em raro envolvimento com questões econômicas, Elizabeth II recebe no Palácio de Windsor uma comitiva de pesos-pesados das finanças globais. Eles estão em Londres participando da Cúpula de Investimentos Globais, um encontro promovido pelo governo britânico para atrair investimentos na economia verde. O primeiro acordo anunciado foi com Bill Gates. 

Talvez o motivo do envolvimento direto da Rainha não seja só a economia, e sim a chance de engajamento na causa ambiental, como mais um elemento do roteiro bem articulado da ofensiva verde. 

Charles, o futuro rei que apoia os ativistas radicais

No início da semana, o príncipe Charles, que desde jovem se demonstrou engajado em causas ambientais, começou dando uma entrevista à BBC sobre a COP26. Disse aprovar a ação do grupo Insulate Britain, derivado do Extinction Rebellion, que passou três semanas fechando vias públicas para exigir do governo a instalação de proteção térmica nas casas.

É uma posição ousada para o futuro rei, pois o grupo é criticado por desrespeitar a lei e vem enlouquecendo as autoridades encarregadas da segurança pública.

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Na entrevista, o príncipe fez um afago nos ambientalistas mais radicais. Afirmou que os jovens preocupados com as alterações climáticas “vêem o seu futuro ser totalmente destruído” porque “ninguém quis ouvir”. 

O herdeiro do trono ganhou as manchetes também com a revelação de que seu Aston Martin foi adaptado para receber um combustível verde que charmosamente disse ser “feito de queijo e vinho”. Mas nem todos acharam graça.

“A solução pitoresca do príncipe Charles para descarbonizar seu Aston Martin usando uma alta mistura de bioetanol feito de queijo e resíduos de vinho não deve ser confundida com uma solução séria para descarbonizar veículos”, disse Greg Archer, diretor local da T&E, um grupo europeu de incentivo ao transporte limpo. 

Charles anda enroscado com escândalos envolvendo sua fundação. Embora seja ambientalista de primeira hora, tirar o foco dos problemas é conveniente. 

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A rainha irritada com os líderes globais 

Quatro dias depois, veio o momento mais emblemático da ofensiva, que parece ter sido involuntário. Na abertura dos trabalhos do Parlamento do País de Gales, na última sexta-feira ( 15 de outubro), uma conversa informal da monarca de 96 anos foi gravada a distância, e acabou se tornando pública.

Em uma roda de conversa com a nora Camilla e a presidente do parlamento, Elis Jones, ela falou com irritação sobre os líderes que não tinham confirmado ainda se participariam da COP26, incluindo alguns de países próximos ao Reino Unido, como o indiano Narendra Modi e o australiano Scott Morrison. 

Ela disse:

“Extraordinário, não é ? Tenho ouvido tudo sobre a COP. e ainda não sei quem está vindo. Nenhuma idéia.

Só conhecemos as pessoas que não vêm. É muito irritante quando eles falam, mas não fazem.”

O vídeo com a conversa rapidamente se espalhou pelas redes sociais.

Mesmo tendo sido acidental, a falta de um pedido para que a gravação não se tornasse pública e nenhuma reclamação após a divulgação são sinais de que a indiscrição encaixou bem na ofensiva verde real. 

O príncipe que não quer corrida espacial 

No mesmo dia, o neto que é o segundo na linha de sucessão, também fez seu movimento verde. Em uma entrevista, William carregou nas tintas ao falar da COP26 e da necessidade de os líderes globais se comprometerem com medidas para conter o aquecimento global. 

“Quero que as coisas que gostei – a vida ao ar livre, a natureza, o meio ambiente – estejam lá para meus filhos, e não apenas para meus filhos, mas para os filhos dos outros também”.  

E aproveitando o momento em que o mundo se encantava com o voo espacial do ator William Shatner, o Capitão Kirk do seriado Jornada nas Estrelas, patrocinado pelo empresário Jeff Bezos, William sugeriu que os empreendedores deveriam se concentrar em salvar a Terra, em vez de se dedicar ao turismo espacial.

“Os grandes cérebros e mentes deveriam estar tentando consertar este planeta, em vez de tentar encontrar o próximo lugar para ir e viver”.

Príncipe George entra no script

O roteiro da ofensiva não esqueceu um personagem mirim capaz de adicionar charme e simpatia: o príncipe George. Aos 8 anos, o garotinho que figura como terceiro na linha de sucessão ao trono foi mencionado na entrevista do pai, e também do avô. 

Em uma participação no programa COP26 – In Your Hands (COP26 – Nas suas mãos), o príncipe Charles revelou que o neto já aprendeu que o aquecimento global estava causando “as grandes tempestades e inundações, secas, incêndios e escassez de alimentos” em todo o mundo.

Charles, que apareceu segurando um globo terrestre giratório na filmagem, disse aos telespectadores: “Seu futuro depende do futuro do planeta.” 

Poder simbólico 

O poder da família real no Reino Unido é apenas simbólico. Mas há quem ache que o mundo ainda teme sua influência como no auge do Império Britânic0, onde o sol nunca se punha devido à extensão das terras dominadas. 

O presidente da COP26 é um deles. Na semana passada, o jornal conservador Daily Telegraph trombeteou que a família real iria exortar a China a fazer a sua parte durante a conferência. A informação foi atribuída justamente a Alok Sharma, a quem Boris Johnson nomeou presidente da conferência. Ele esteve no Brasil há duas semanas e foi esnobado pelo presidente Jair Bolsonaro. 

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Segundo o  jornal, “os dois futuros reis” (Príncipe Charles e Príncipe William) iriam “discursar na conferência e manter conversas com os principais líderes mundiais”. 

Eles podem até conversar com quem for a Glasgow, mas não vão conseguir falar com o líder mais central para a solução da crise climática, o presidente da China. Xi Jinping  já disse que não vai – e não deve ser por medo de encontrar os educados Charles e William e ouvir deles um sermão.

Declarações assim podem não ter qualquer consequência prática, mas são parte de uma operação bem construída para posicionar a família real como alinhada à mais importante questão social, política, econômica e científica da atualidade.

E para o governo, associar a realeza à conferência que anda meio atrapalhada, com questionamentos de patrocinadores sobre a má organização, vem bem a calhar.

Além disso, usar o charme de uma recepção real em Windsor, com todos os membros principais da família, pode ajudar a abrir os cofres de gente como o CEO do JPMorgan Jamie Dimon, o CEO do Goldman Sachs, David Solomon ou o CEO do fundo de investimentos Blackstone, Stephen Schwarzman. 

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A cerimônia politicamente correta

Mas de todos os atos, a cerimônia da entrega do prêmio Earthshot, realizada em Londres na noite de domingo (17/10), foi o que representou o melhor do show de relações públicas de que a família real britânica é capaz.

Os mínimos detalhes foram pensados para criar um ambiente totalmente verde, a começar pela cor do paletó do dono da festa, em um veludo brilhante que foi comparado ao traje usado pelo ator Daniel Craig na estreia do novo filme de James Bond.

O nome do prêmio é uma referência à ambição “moonshot” da América dos anos 1960, em que o presidente John F. Kennedy prometeu levar um homem à lua. O Earthshot vai apoiar seis projetos, que receberão doações de US$ 1 milhão para serem executados em diferentes países. 

Na chegada, o tapete era verde, e não vermelho. Os convidados receberam um pedido insólito para esse tipo de evento: não usar roupas novas e nem comprar nada especialmente para a ocasião. A máquina de propaganda fez saber que a calça usada por William tinha 20 anos de idade.

A atriz Emma Watson, uma das apresentadoras, brincou dizendo: “que alívio!”. 

Mas a falta de roupas novas não foi problema para os fotógrafos. 

A entrada de Kate Middleton em um vestido de inspiração grega assinado pelo estilista Alexander McQueen e usado em 2011, foi digna de rainha.  

Um dos jornais de segunda-feira estampou a foto na capa como o título “Kate, a deusa verde”. Quem precisa de roupa nova?

Reflorestamento das terras reais

Mas as coisas não são tão simples para os Windsor.

O movimento dos que pedem o reflorestamento das terras reais não é coisa de um punhado de ativistas. Está sendo liderado por Chris Packham, apresentador de um dos mais importantes programas ambientais da BBC, o Springwatch

Na véspera do protesto, Packham teve seu carro incediado na porta de casa. 

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A carta entregue a um funcionário do Palácio de Buckingham na manifestação da semana passada  foi assinada por mais de 100 celebridades, cientistas e entidades renomadas. A petição de apoio à carta teve mais de 100 mil assinaturas. 

O grupo Wild Card, que comanda o movimento, diz que os 850 mil acres – 1,4 por cento do Reino Unido – pertencentes à família real estão entre os  mais deteriorados do mundo, tomados por áreas livres para caça de veados e pastagens de ovelhas.

Embora a monarquia não seja uma unanimidade e a quantidade de pessoas que não apoiam sua continuidade venha aumentando, a família real é um patrimônio nacional, parte da identidade do país. 

O capital de imagem de que desfruta é imenso. Suas falhas e acidentes de percurso costumam ser relativizados, e a postura da rainha é o esteio.

Ela raramente se envolve em questões delicadas, navega de forma altiva em crises que afetaram a família e desperta empatia pela sua idade e vitalidade. 

Mas não há garantias de que o apoio dure para sempre. A causa ambiental bateu na porta do Palácio de Buckingham, e talvez em algum momento eles vão ter que assumir posição sobre as terras. Os ativistas não parecem dispostos a deixar barato. 

Em um artigo no jornal The Times publicado no dia 17/10, o ex-presidente do IPPC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas) e do IPBES (Plataforma Intergovernamental de Política Científica sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos), Robert Watson, disse: 

“Anunciar um plano de reflorestamento agora seria um ato de liderança verdadeiramente global na peça que faltava mais complicada da COP26: a necessidade de tratar a biodiversidade e o clima como parte da mesma crise”.  

Apesar do silêncio sobre o pleito, cedo ou tarde a família real terá que se pronunciar sobre o movimento. 

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