A situação de Zhang Zhan, jornalista chinesa presa em seu país por ter transmitido notícias sobre a Covid-19 a partir da cidade de Wuhan em 2020, agravou-se nos últimos dias, motivando novo clamor internacional por sua libertação.

Ela foi condenada a quatro anos de prisão por ‘brigar e provocar problemas’ em um tribunal de  Shanghai em dezembro de 2020, em mais um episódio de censura na China, aplicada também a plataformas de mídias sociais como o LinkedIn, que deixou o país. 

Entrou em greve de fome parcial em junho de 2020, e segundo sua família, já não consegue andar nem levantar a cabeça sem ajuda. Zhang, de 38 anos, tem 1,77m de altura e está pesando menos de 40 quilos. 

Governo chinês pressionado 

“Pedimos à comunidade internacional que pressione o regime chinês e garanta a libertação imediata de Zhang Zhan antes que seja tarde demais”, disse o chefe do Gabinete do Leste Asiático da organização Repórteres Sem Fronteiras, RSF, Cédric Alviani. 

“Ela estava apenas cumprindo seu dever de repórter e nunca deveria ter sido detida, sem falar na pena de quatro anos de prisão”.

Zhang foi hospitalizada pela última vez em agosto por 11 dias. A greve de fome é para protestar contra a condenação. Ela é advogada e mantinha um blog, pelo qual revelou a gravidade da situação da Covid-19 na cidade em que o surto se originou. 

Seu irmão postou no Twitter uma foto antiga dela, com uma mensagem dizendo que gostaria que o mundo lembrasse como ela era antes. 

Desde que iniciou sua greve, Zhang é alimentada à força por uma sonda nasal. Devido ao seu enfraquecimento, teve de comparecer ao seu julgamento, realizado em dezembro de 2020, em uma cadeira de rodas.

De acordo com uma mensagem enviada pela mãe de Zhang a um grupo de seguidores nas redes sociais em agosto, Zhang teve de ser hospitalizada em 31 de julho. Ela disse temer que os órgãos da filha falhem devido à desnutrição.

Carta aberta pediu libertação

Em uma carta conjunta publicada em 17 de setembro de 2021, a Repórteres sem Fronteiras e uma coalizão de 44 ONGs de direitos humanos instaram o presidente chinês Xi Jinping a exonerar e libertar Zhang Zhan.

Segundo a RSF, junto com Zhang Zhan, pelo menos 10 outros defensores da liberdade de imprensa detidos na China podem em breve sofrer um destino mortal , incluindo o repórter investigativo e premiado pela liberdade de imprensa da RSF, Huang Qi , o editor suecoGui Minhai e o jornalista uigur Ilham Tohti , ganhador do Prêmio Václav Havel e Prêmio Sakharov . 

A entidade disse também que Kunchok Jinpa , uma das principais fontes de informação sobre o Tibete para jornalistas, morreu em fevereiro de 2021 como resultado de maus-tratos na prisão. 

Inconformado com o que considera interferência, o governo chinês abriu uma guerra contra a entidade. Em outubro, utilizou um artigo de opinião assinado pelo editor do jornal estatal The Global Times para atacar frontalmente a organização

Ilustração do artigo mostrava uma “fábrica de pinóquios” da mídia ocidental 

O texto dizia que o remédio seria “carregar um porrete na bagagem para combater o cão selvagem que assombrará a estrada da China de tempos em tempos”.

A China, classificada em 177º lugar entre 180 no Índice de Liberdade de Imprensa Mundial da RSF de 2021 , é o maior capturador de jornalistas do mundo, com pelo menos 122 detidos.

O crime 

Ex-advogada e residente em Xangai, Zhan foi sozinha para Wuhan em 1º de fevereiro e notabilizou-se por transmitir notícias sobre a pandemia via WeChat, Twitter e YouTube a partir da cidade chinesa onde o primeiro foco do coronavírus foi identificado.

Os vídeos curtos, feitos em diferentes partes de Wuhan depois que a cidade foi colocada sob estritas regras de bloqueio, mostravam entrevistas com residentes e imagens de crematórios, estações de trem, hospitais e do Instituto de Virologia da cidade.

Num dos vídeos postados no YouTube, ela revelou, logo no início da pandemia:

“Pessoas comuns dizendo algo casualmente no WeChat podem ser convocadas e advertidas. Como tudo está encoberto, este é o problema que este país enfrenta agora.”

Em outros vídeos, ela acusou as autoridades de violar os direitos básicos das pessoas e pediu a libertação de outros jornalistas-cidadãos que haviam sido presos por reportar em Wuhan.

Acusação de transmitir “informações falsas” sobre a epidemia

A promotoria sustentou que Zhang “especulou maliciosamente sobre a epidemia de Covid-19 em Wuhan”.

No julgamento, a jornalista foi acusada de enviar “informações falsas” em textos, vídeos e outras mídias por canais da internet e de conceder entrevistas a mídias estrangeiras, entre elas a Free Radio Asia e Epoch Times.

O advogado da jornalista afirmou que o promotor apenas leu a lista de acusações, sem comprová-las. E que Zhan quase não falou durante o julgamento, mas fez questão de enfatizar que “o discurso do cidadão não deve ser censurado”.

Muitos ativistas e profissionais da imprensa estrangeira foram ao tribunal para acompanhar o caso e prestar solidariedade.

O jornal South China Morning Post noticiou na época que a entrada na sala do julgamento foi proibida pela polícia, alegando proteção contra a transmissão do vírus.

Alguns que tentaram forçar a entrada foram levados para a delegacia. A agência de notícias AFP postou nas redes sociais imagens da abordagem de policiais aos jornalistas, tentando impedir o seu trabalho.

Na reportagem em que noticiou a sentença de Zhang, o South China Daily entrevistou uma moradora de Wuhan que foi a Xangai acompanhar o julgamento. Identificada apenas como “Xiaomu”, a mulher disse ter conhecido Zhang Zhan em abril, enquanto ela fazia sua cobertura jornalística:

“Estávamos cheios de medo sobre o vírus durante o bloqueio de Wuhan, e então agradecemos a Zhang Zhan por ter ido à cidade. Tão corajosa. Ouvi dizer que ela comprou uma passagem de trem para Chongqing e desceu em Wuhan, sozinha.

Condenação teve repercussão mundial

O julgamento e a condenação de Zhang ocorreram em 28 de dezembro, seguindo a prática da China de aproveitar o período de festas natalinas para anunciar sentenças enquanto a maioria dos governos e ONGs ocidentais estão em recesso.

A notícia da condenação foi anunciada via redes sociais pelo advogado da jornalista e ganhou destaque na imprensa de todo o mundo.

A Federação Internacional dos Jornalistas denunciou que a condenação foi baseada em acusações vagas e subjetiva, e que tal procedimento é comumente usado em casos políticos pelas autoridades chinesas:

“Acusações vagas contra jornalistas servem para deslegitimar o sistema legal da China e o protesto de Zhang destaca a necessidade urgente de a China reformar suas leis de liberdade de imprensa e criar uma estrutura legislativa justa e razoável.”