Na correria do dia a dia, as telas ficam ligadas para distrair as crianças e os bebês enquanto os pais precisam se concentrar no home office ou nas tarefas da casa, mas se o aplicativo escolhido for o YouTube Kids, pode haver riscos. 

Uma nova pesquisa da Tech Transparency Project (TTP), iniciativa da ONG americana Campaign for Accountability, revelou que o conteúdo do aplicativo não é tão inofensivo como parece. 

A TTP criou três contas para simular a experiência da jovem audiência do YouTube Kids e encontrou conteúdos perturbadores que não são adequados à faixa etária de 0 a 12 anos, o público-alvo da plataforma. Vídeos sobre drogas, armas e apresentando a cultura da dieta para crianças são alguns dos conteúdos impróprios identificados pela organização.

Pesquisa identifica riscos em vídeos do YouTube Kids

O YouTube é de propriedade do Google, empresa que nos últimos anos enfrentou diversas ações judiciais por permitir a exibição de conteúdos impróprios para crianças. No YouTube Kids, as reclamações são as mesmas: vídeos violentos e obscenos eram frenquentemente permitidos na plataforma infantil.

Além disso, o YouTube Kids foi alvo de escrutínio por legisladores dos Estados Unidos por causa da grande quantidade de propaganda e conteúdos comerciais disfarçados de entretenimento para os pequenos.

A plataforma não é a única no radar de reguladores por causa do seu impacto nas crianças. O Instagram anunciou em setembro que estava adiando o lançamento de um aplicativo infantil após revelações de que o Facebook sabia há anos que a rede social era tóxica para meninas adolescentes.

O próprio Facebook e o rival TikTok também estão na mira de procuradores dos EUA para apurar os prejuízos aos jovens que esses aplicativos podem causar.

Para os pesquisadores da TTP, os problemas e riscos persistentes do YouTube Kids são preocupantes, pois, no ano passado, a plataforma se gabou de ter mais de 35 milhões de usuários semanais em todo o mundo — um público em sua totalidade altamente vulnerável.

“O YouTube Kids diz que fornece conteúdo apropriado para crianças. Mas a plataforma continua permitindo que vídeos nocivos alcancem seu público jovem vulnerável”, diz o levantamento da organização.

A plataforma infantil diz que “investiu pesadamente ao longo dos anos” para tornar seu aplicativo YouTube Kids “um lugar mais seguro e familiar para as crianças explorarem sua imaginação e curiosidade”.

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Mas a TTP descobriu que conteúdo impróprio continua a passar pelos algoritmos e moderadores humanos do site:

“O TTP encontrou vídeos no YouTube Kids que falam positivamente sobre cocaína e metanfetamina, dão instruções sobre como esconder uma arma, incentivam o clareamento da pele e apresentam a cultura da dieta para as crianças.

Outros vídeos identificados pelo TTP parecem violar a política do YouTube Kids contra conteúdo ‘excessivamente comercial ou promocional’.”

Para o levantamento, a entidade criou três contas do YouTube Kids – uma para cada configuração de idade do site: pré-escolares de quatro anos ou menos; crianças de cinco a oito anos e o grupo mais velho, de nove a 12 anos.

Para fins da pesquisa, a organização não ativou recursos de controle dos pais, como desligar a reprodução automática e limitar os canais acessíveis às crianças. Usando esses perfis-teste, a TTP pesquisou por termos relacionados a conteúdo censurável e obteve resultados impróprios rapidamente.

Riscos do YouTube Kids: vídeos sobre drogas e armas são exibidos para crianças

A TTP destaca que o YouTube Kids se autodenomina uma “versão filtrada do YouTube”, criada para fornecer uma “experiência contida e apropriada à idade” para crianças.

“Trabalhamos para identificar conteúdo adequado à idade, que adere aos nossos princípios de qualidade e seja diversificado o suficiente para atender aos diversos interesses das crianças em todo o mundo”, diz a plataforma.

No entanto, não foi isso que a pesquisa encontrou em suas buscas no site. Um vídeo que ensinava a tocar a música “Cocaine”, de Eric Clapton, no baixo era acessível a crianças de até cinco anos.

“A música continha letras como: ‘Quando você tem más notícias, você quer chutar o blues, cocaína’ e ‘Quando você está sentindo se foi, e você quer seguir em frente, cocaína’.”

Segundo os pesquisadores, para crianças de cinco a oito anos, o YouTube Kids diz que os vídeos podem ter uma “exibição não focal de álcool ou tabaco”, mas não diz nada sobre permitir a menção de drogas pesadas.

Em outro exemplo, um vídeo destinado a crianças de cinco anos ou mais mostrou como construir uma versão no jogo Minecraft do trailer que aparece na série “Breaking Bad”.

Na ficção, o veículo é usado como laboratório de metanfetamina pelo personagem principal, Walter White, um professor do ensino médio que virou traficante da droga.

“No vídeo, o jogador do Minecraft sugeriu colocar no interior do veículos itens que pareciam ‘meio que metanfetamina’.

O criador do vídeo “Minecraft RV”, MagmaMusen, oferece o mesmo conteúdo no site principal do YouTube, com uma descrição que diz:

“Um tutorial para a van icônica da série Breaking Bad, onde a metanfetamina é preparada! Delicioso..:).”

A investigação do TTP também identificou uma série de vídeos relacionados a armas no YouTube Kids.

Um vídeo, disponível para crianças de cinco a 12 anos, avaliou as almofadas de recuo, que protegem os atiradores do contragolpe de uma arma de fogo.

Outro vídeo, do mesmo canal Ezvid Wiki, avaliou os contêineres de armazenamento de munição, descrevendo produtos que podem “armazenar balas de todos os tamanhos”. A pesquisa alerta:

“Esse conteúdo pode servir para normalizar a cultura de armas para crianças e chega em um momento em que os fabricantes de armas estão usando cada vez mais as mídias sociais para atingir crianças, principalmente meninos, com mensagens de marketing.”

Um dos conteúdos analisados mostrou como esconder uma arma dentro de casa. O vídeo, do criador JerryRigEverything, deu instruções passo a passo sobre como construir uma prateleira com um compartimento oculto.

“Quando o vídeo descreveu que tipos de ‘guloseimas’ podem ser armazenadas na prateleira, o primeiro exemplo foi uma arma. O vídeo, disponível para crianças de nove a 12 anos, foi posteriormente removido do YouTube Kids; não está claro há quanto tempo esteva na plataforma.”

A TTP explica que as políticas de conteúdo do YouTube Kids para crianças de nove anos ou mais permitem certas representações de armas – “armas de brinquedo irreais no contexto de brincadeiras” e “armas de aparência realista em jogos e conteúdo animado” – mas nenhuma exceção se aplica aos vídeos avaliados na pesquisa.

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Clareamento da pele e cultura da dieta são apresentados para crianças

Outro alarme sobre os riscos do YouTube Kids que a TTP faz é sobre os vídeos relacionados a claramento da pele e cultura da dieta, ambos conteúdos visulizados sem restrições durante a pesquisa.

Em um vídeo disponível para crianças de nove a 12 anos, uma jovem ensinava como misturar um produto descolorante facial em casa e aplicá-lo no rosto.

A criadora de conteúdo, Saba Ibrahim, tem mais de dois milhões de assinantes no YouTube; sua conta no Instagram indicou que ela é uma blogueira e influenciadora de estilo de vida em Mumbai, na Índia.

“Os produtos para clareamento da pele geralmente contêm ingredientes tóxicos como mercúrio, e especialistas dizem que perpetuam o preconceito de colorismo em todo o mundo, que valoriza mais a pele de cor mais clara”, explicam os pesquisadores.

O título do vídeo era “TUDO SOBRE O BRANQUEAMENTO FACIAL | COMO EU CLAREIO MEU ROSTO EM CASA”, sem fazer mistério sobre seu conteúdo.

“As políticas do YouTube Kids para crianças mais velhas permitem ‘análises de produtos de beleza’ e ‘conteúdo educativo sobre saúde e bem-estar’, mas não abordam diretamente a prática de clareamento da pele, que tem implicações raciais e de saúde significativas.”

Alguns conteúdos questionáveis ​​no YouTube são embalados em “desenhos fofos”.

Por exemplo, um vídeo descoberto pela TTP mostrava uma animação de batatas, algumas delas com roupas de ginástica, cantando sobre a “importância de queimar calorias”.

A organização explica por que esse tipo de conteúdo é considerado nocivo para o público infantil:

“O vídeo, que estava disponível para todas as faixas etárias, apresentou a ideia de perder peso para crianças pequenas.

Há preocupações crescentes sobre as formas como a cultura da dieta, que idolatra a magreza, está se enraizando nas crianças – parte de uma crescente conscientização de como as mídias sociais incentivam distúrbios alimentares em jovens.”

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‘Unboxing’ continua como um dos grandes riscos do YouTube Kids

O YouTube Kids anunciou em agosto passado que começaria a remover “conteúdo excessivamente comercial ou promocional ”, incluindo vídeos que se concentram em “embalagens de produtos” ou que incentivam diretamente as crianças a gastar dinheiro.

A nova política parecia ter como alvo os famosos vídeos de unboxing de brinquedos, que explodiram no YouTube nos últimos anos. Nesse tipo de conteúdo, os influenciadores mostram o passo a passo de um produto novo sendo desembalado, mostrando todos os itens e acessórios que o acompanham, bem como a qualidade da embalagem.

Segundo a TTP, críticos aos unboxing dizem que esses vídeos não têm valor educacional e geralmente não passam de conteúdo patrocinado.

Apesar das novas restrições para minimizar os riscos do YouTube Kids, a organização descobriu que a plataforma segue repletas de conteúdos desse tipo.

“Um vídeo, chamado ‘Super Mega Haul Unboxing’, mostrou um indivíduo desembrulhando e abrindo vários recipientes de plástico em forma de ovo cheios de doces, adesivos e brinquedos e jorrando sobre o conteúdo.

Outros apresentavam unboxings detalhados de playsets para Polly Pocket e Peppa Pig.

Cada um desses vídeos tinha a palavra “unboxing” no título, não escondendo o tema. Todos eles vieram de criadores do YouTube com muitos seguidores. O criador do vídeo do ovo de plástico, CookieSwirlC, tem 17,7 milhões de seguidores no YouTube.”

A pesquisa da TTP mostra que, apesar de suas promessas de promover um ambiente seguro para crianças, o YouTube Kids continua a permitir que conteúdo impróprio passe por seus filtros humanos e algorítmicos, “expondo as crianças a mensagens potencialmente prejudiciais ou excessivamente comerciais.”

“Dado o público da plataforma de milhões de crianças, o site infantil do YouTube tem uma responsabilidade especial de fazer as coisas direito e proteger seus usuários vulneráveis.”

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