Londres – A jornalista Marina Ovsyannikova, que protestou ao vivo na TV estatal russa contra a guerra na Ucrânia, deixou o jornal alemão Die Welt e está retornando à Rússia.

A informação foi divulgada por ela própria nas redes sociais, justificando a saída da empresa pelo fim do contrato de três meses e uma audiência judicial pela guarda dos filhos no país de origem.

A passagem de Marina na Alemanha, no entanto, não foi bem vista pelos jornalistas do país, que questionaram sua relação de anos com a propaganda do Kremlin e protestaram por outros profissionais de mídia russos não terem a mesma oportunidade que ela na Europa – e isso pode ter relação com o fim de sua curta carreira na mídia alemã.

Contratação de jornalista russa motivou protestos na Alemanha 

Marina Ovsyannikova ficou mundialmente conhecida ao invadir ao vivo um telejornal da emissora estatal Channel One, em março, com um cartaz que denunciava a propaganda russa e pedia o fim da guerra.

“SEM GUERRA. Pare a guerra. Não acredite em propaganda. Eles estão mentindo para você aqui”, dizia a placa exibida pela jornalista russa, que também gritou palavras contra o conflito segundos antes da transmissão cortar para um VT gravado.

Marina Ovsyannikova, jornalista russa desaparecida após exibir cartaz ao vivo contra a guerra
Marina Ovsyannikova exibiu, em março, cartaz ao vivo contra a guerra em TV estatal russa (Foto: Reprodução/Twitter)

Cerca de um mês depois, o jornal alemão Die Welt anunciou a contratação de Marina como repórter freelancer para cobrir assuntos do Leste Europeu.

No primeiro artigo assinado pela russa, intitulado “The Russians Are Afraid” (“Os russos estão com medo”, em português), ela abordou as consequências legais que enfrentava desde o protesto.

“Minha vida é dividida em um antes e um depois”, escreveu a jornalista. “Em algum momento, os princípios morais eram mais importantes do que o bem-estar, a paz de espírito e a vida ordenada. A guerra na Ucrânia era o ponto sem volta e o silêncio não era mais uma opção.”

Marina também deu entrevistas para diversos canais e veículos do Ocidente, incluindo para a americana CNN.

A comoção gerada pelo protesto e potenciais riscos que a jornalista enfrentava ao desafiar as autoridades da Rússia motivaram sua contratação pelo Die Welt.

Na ocasião, Ulf Poschardt, editor-chefe do Welt Group e porta-voz do WeltN24, disse que ela teve a coragem de confrontar os espectadores russos em um momento crucial.

“Ao fazer isso, ela defendeu a ética jornalística mais importante – apesar da ameaça de repressão estatal. Estou animado para trabalhar com ela”, afirmou à agência de notícias dpa. “Seu trabalho na Die Welt lhe dará mais visibilidade e, portanto, mais segurança”, completou.

No domingo (3), a jornalista russa publicou no Instagram que terminou a parceria dela com o jornal alemão, citando o fim de um contrato de três meses — algo que, na época da contratação, não foi divulgado à imprensa.

“Foi uma experiência única no jornalismo livre. Obrigado à equipe do Die Welt por me apoiar em um momento tão difícil”, escreveu Marina. “O tempo passou sem perceber. Nosso contrato de 3 meses terminou. Eu continuo seguindo em frente.”

A presença de Marina na Alemanha, porém, não foi bem vista por colegas jornalistas do país. As críticas viraram até protestos organizados nas ruas de Berlim – e essa pressão pode ser o verdadeiro motivo para a demissão da jornalista russa.

Assim que a contratação dela foi anunciada pelo Die Welt, jornalistas de origem ucraniana que trabalham na Alemanha criticaram amplamente a decisão, alegando que eles não poderiam perdoar os anos de trabalho de Marina para a “propaganda russa”, segundo reportagem da DW da época.

“[Isso é] um golpe na cara não apenas dos ucranianos, mas também dos jornalistas da mídia de massa russa independente, que foram banidos e destruídos”, disse um crítico ao jornal alemão na ocasião.

Dias após o anúncio do Die Welt, manifestantes organizaram uim protesto em frente ao prédio do veículo, em Berlim, com cartazes dizendo: “ex-propagandistas não existem.”

Foto: Reprodução/DW

Uma petição escrita em inglês também foi aberta no site Change.org, intitulada “Não há trabalho na mídia ocidental para Marina Ovsyannikova e outros propagandistas do Kremlin”.

O autor, Ivan Kozachenko, apontou que o protesto de Marina na TV estatal russa foi uma “campanha bem planejada do Kremlin para influenciar a opinião pública no Ocidente”. Em abril, cerca de 700 pessoas tinham assinado a petição, informou o DW.

Jornalistas russos criticaram nas redes sociais a contratação de Ovsyannikova, incluindo a ex-funcionária da emissora russa Dozhd, Farida Rustamova:

“Dezenas de jornalistas independentes russos estão procurando trabalho na Europa neste momento. Eles são qualificados e todos têm boa reputação.

Mas é Marina Ovsyannikova que consegue um empredo na Die Welt. Com todo o respeito, não foi ela quem se arriscou trabalhando na Rússia de Putin.”

Em entrevista ao DW, em abril, o representante do Sindicato dos Jornalistas Alemães, Hendrik Zörner, disse que a decisão da contratação era do jornal.

“Não posso dizer se essa jornalista realmente rompeu com o sistema de Putin. Se o fez, é perfeitamente normal que ela tenha uma nova chance no Ocidente”, disse.

Ele ainda acrescentou que, para o jornal alemão, era vantajoso usar a imagem da jornalista russa naquele momento, pois ela estava famosa. Isso não signifcava, porém, que outros profissionais da Rússia teriam a mesma oportunidade.

“Gostaria muito que os jornalistas que fugiram da Rússia por causa de suas crenças – e já são muitos deles – tivessem uma nova chance na Alemanha, mas, muito provavelmente, não haverá tantas vagas nos meios de comunicação alemães”, afirmou ao DW.

Jornalista russa terá audiência de custódia no país de origem

Após anunciar sua saída do Die Welt, Marina Ovsyannikova disse que estava voltando para a Rússia. No dia 5 de julho, ela terá uma audiência de custódia para brigar pela guarda dos filhos com o ex-marido — um funcionário da emissora estatal russa RT.

“Sou forçado a voltar para a Rússia”, ela escreveu. “É muito amargo para mim voltar para um lugar onde tudo está saturado de ódio e símbolos militaristas. Mas, infelizmente, esta é minha única chance de ver meus filhos e influenciar o futuro deles.”

Ela disse que tem um filho de quase 18 anos, que tem o “direito de determinar seu próprio destino”. Mas pretende conseguir a custódia da filha de 11 anos para tirá-la do país.

“Somente fora da Rússia posso incutir nela os valores morais corretos. Ela deve crescer em uma sociedade ocidental livre, onde cada vida humana não tem preço.”

A jornalista russa ainda citou possíveis riscos que pode enfrentar no país governado por Vladimir Putin, incluindo processos e prisão.

“Não vou me esconder covardemente e ficar em silêncio. É benéfico para as autoridades que todos os manifestantes vão para o exterior. Eles são deliberadamente expulsos do país.

Talvez eles me prendam no aeroporto. As acusações serão feitas sob ‘divulgação de notícias falsas’ pelo meu protesto ao vivo no Channel One ou por minhas reportagens e postagens anti-guerra nas redes sociais.

Mas não importa o que aconteça, não vou voltar atrás em nenhuma das minhas palavras. Nenhuma força me forçará a comprometer minha própria consciência. Eu sempre chamarei a guerra de guerra.

E aqueles que desencadearam este massacre sangrento são criminosos que acabarão no banco dos réus do Tribunal Internacional.”

Leia também

Jornalistas ucranianas são ameaçadas de morte por denúncia de ‘exageros’ do governo sobre crimes da Rússia

Direitos autorais reservados. Reprodução do conteúdo integral não autorizada. Reprodução do primeiro parágrafo autorizada desde que com link para a matéria original.