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Tabloide no banco dos réus

Harry, Elton John e outros famosos vão ao tribunal em Londres para julgamento de ação contra Daily Mail

Processo por violação de privacidade mira grupo editorial acusado de práticas ilegais sistemáticas no Reino Unido

Príncipe Harry chegando ao tribunal para julgamento do processo contra o jornal Daily Mail

Príncipe Harry chega ao tribunal para julgamento do processo contra o jornal Daily Mail (foto: divulgação Archewell Foundation via Instagram)



Harry, Elton John, Liz Hurley e outras figuras públicas estão no tribunal em Londres para a abertura do julgamento contra a editora do Daily Mail, acusada de violações sistemáticas de privacidade.


Começou na manhã desta segunda-feira (19), em Londres, o julgamento movido pelo príncipe Harry e outras figuras públicas contra a editora Associated Newspapers, responsável por veículos como o Daily Mail, Mail on Sunday e MailOnline.

Ao chegar ao Tribunal Superior de Justiça, o duque de Sussex não fez comentários à imprensa. Limitou-se a dar bom dia a jornalistas e pessoas do público que estavam diante do prédio desde cedo, e agradeceu a uma pessoa que lhe desejou boa sorte.

O caso marca mais um capítulo da série de enfrentamentos de Harry com a imprensa britânica e envolve outros nomes de destaque da vida pública do Reino Unido.

Além do príncipe Harry, também são autores da ação o cantor Elton John e seu marido, o cineasta David Furnish, a atriz e empresária Elizabeth Hurley, a atriz e diretora Sadie Frost, a baronesa Doreen Lawrence — ativista e mãe de Stephen Lawrence, assassinado em 1993 — e o ex-parlamentar liberal-democrata Sir Simon Hughes.

Todos acusam a editora de violações graves de privacidade, com práticas que teriam ocorrido ao longo de quase três décadas. Os trabalhos devem durar nove semanas.

Julgamento do jornal em processo aberto em 2022

A ação coletiva, apresentada inicialmente em 2022, afirma que a Associated Newspapers contratou investigadores particulares para obter ilegalmente informações privadas de diversas formas. Entre as práticas denunciadas estão:

  • Instalação clandestina de escutas em residências e veículos;
  • Grampo de conversas telefônicas em tempo real;
  • Acesso indevido a contas bancárias, históricos de crédito e transações financeiras;
  • Pagamento a policiais com vínculos com investigadores particulares para obtenção de informações internas;
  • Obtenção de registros médicos por meio de identidade falsa em hospitais e clínicas privadas.

Os autores afirmam ter tomado conhecimento dessas práticas por meio de novas evidências, consideradas “altamente angustiantes”, que revelariam atividades “criminosas e abjetas”, além de “graves violações de privacidade”.

A editora, por sua vez, nega todas as acusações e afirma que o processo se baseia em “calúnias absurdas”.

Segundo a Associated Newspapers, trata-se de uma “fishing expedition” (tentativa especulativa de encontrar provas) conduzida pelos autores e seus advogados, e todas as reportagens publicadas teriam sido feitas com base em informações legítimas.

O que os autores do processo alegam

Harry diz que artigos baseados em conversas privadas tiveram efeitos profundos em sua vida, contribuindo para tensão em seus relacionamentos e até impactando sua imagem pública.

O músico Sir Elton John e seu marido, o cineasta David Furnish, afirmam ter sido informados pela amiga e também autora Elizabeth Hurley de que eram alvo do jornal Daily Mail.

Segundo eles, o telefone residencial do casal foi grampeado por um investigador privado e houve tentativa deliberada de acessar dados médicos ligados ao nascimento do filho.

Elton John descreveu a invasão como “abjeta” e afirmou que ultrapassa “os padrões mais básicos de decência humana”.

A atriz e empresária Elizabeth Hurley relatou que teve microfones instalados nas janelas de sua casa e descreveu a invasão de sua privacidade como “brutal”.

Sadie Frost, atriz e diretora, afirmou que jornalistas do Daily Mail agiram com frieza na cobertura de sua separação com o ator Jude Law e de questões de saúde envolvendo o filho do casal.

Ela contou que chegou a ser acusada injustamente por Law de vazar informações à imprensa.

“É horrível ser acusada pela pessoa que você ama de algo que não fez, e receber ligações acusando você ou seus amigos de passar informações”, afirmou em depoimento.

A baronesa Doreen Lawrence, ativista que teve o filho Stephen Lawrence assassinado em um crime racial em 1993, declarou que, mesmo enquanto o jornal Daily Mail conduzia uma campanha pública por justiça, a editora buscava obter informações confidenciais sobre a investigação de forma ilegal.

“Esqueletos no armário”: as alegações do advogado na abertura

No início da sessão desta segunda-feira, o advogado David Sherborne – ele próprio uma celebridade por já ter representado vários famosos – fez a declaração de abertura em nome do príncipe Harry e dos demais autores do processo.

Ele começou mencionando o Inquérito Leveson, instaurado após escândalos de escutas telefônicas pela imprensa britânica.

Segundo Sherborne, os dirigentes da Associated Newspapers prestaram depoimento ao inquérito e “negaram enfaticamente” qualquer atividade ilegal, buscando afastar qualquer impressão de irregularidades.

Essas negações, afirmou o advogado, tiveram “o efeito desejado”, mas segundo a acusação, eram falsas.

“Longe de serem ‘calúnias absurdas’, houve um uso claro, sistemático e contínuo de obtenção ilegal de informações”, declarou Sherborne ao tribunal.

Ele disse ainda que as atividades ilegais ocorreram durante pelo menos duas décadas no Daily Mail e no Mail on Sunday, e que a editora sabia que suas negativas não eram verdadeiras.

“A Associated sabia que essas negações enfáticas não eram verdadeiras. Eles sabiam que tinham esqueletos no armário.”

Sherborne acrescentou que a equipe jurídica apresentará provas ao longo do julgamento para demonstrar a falsidade das negativas da editora.

Ele revelou ainda que os serviços ilegais realizados por investigadores particulares custaram mais de 3 milhões de libras.

O que está em jogo no julgamento

O julgamento deve se estender por nove semanas. Todos os autores deverão prestar depoimento e serão interrogados pelos advogados da Associated Newspapers.

O príncipe Harry deve comparecer ao banco das testemunhas ainda nesta semana, na quinta-feira.

O juiz determinou que o processo se concentre na análise de reportagens específicas, que os autores afirmam ter sido produzidas com base em informações obtidas de forma ilícita.

A editora será representada por ex-executivos e jornalistas seniores. Entre os que deverão depor está Paul Dacre, ex-editor do Daily Mail e atual editor-chefe da DMG Media, braço editorial da empresa.

Este é o segundo julgamento em que o príncipe Harry depõe contra um grupo de mídia britânico. Em 2023, ele se tornou o primeiro membro da família real em mais de 130 anos a testemunhar em tribunal, em um processo bem-sucedido contra o grupo responsável pelo Daily Mirror.

A família real britânica não comentou o caso e tem se mantido afastada dos processos judiciais movidos por Harry e Meghan Markle contra a imprensa do Reino Unido.

David Sherborne, o advogado de casos midiáticos

David Sherborne é um advogado britânico conhecido por atuar em processos de alto perfil que atraem ampla atenção da mídia.

Sherborne representou o ator Johnny Depp em sua ação por difamação no Reino Unido contra a editora do jornal The Sun, em 2020.

Também defendeu Coleen Rooney no notório julgamento apelidado pela imprensa de “Wagatha Christie”, movido por Rebekah Vardy em 2022.

Entre outros clientes famosos do advogado estão a princesa Diana, o ator Michael Douglas e a modelo Kate Moss. Sua presença no caso reforça o peso simbólico e jurídico da ação contra a Associated Newspapers.

Acusações de fraude e disputa entre advogados

Na última quinta-feira (15), dias antes da abertura oficial do julgamento, uma audiência preliminar final foi realizada para tratar de pontos pendentes, incluindo um embate entre as equipes jurídicas dos dois lados.

A defesa dos autores contestou a inclusão, por parte da Associated Newspapers, de trechos nos argumentos iniciais que traziam “acusações sérias” de fraude e desonestidade contra integrantes da equipe jurídica dos autores.

David Sherborne afirmou em uma petição por escrito que “as alegações feitas pelos réus são excepcionalmente graves: fraude, desonestidade e má conduta profissional”. E acrescentou: “Elas não podem ser introduzidas por simples afirmações em petições iniciais escritas, nem são meros comentários sobre questões já apresentadas.”

Antony White KC, que representa a editora, respondeu dizendo que as declarações representavam um ataque à credibilidade de algumas testemunhas. “Não é necessário apresentar um novo caso se as testemunhas do outro lado não estão dizendo a verdade”, declarou no tribunal.

O juiz decidiu que a nota de abertura da editora precisaria ser modificada em nome da imparcialidade. Ele afirmou: “Na minha avaliação, o esquema de camuflagem usado pelos réus vai muito além de um ataque à credibilidade.”

White indicou que as alegações seriam condensadas na versão final do documento de abertura, a ser apresentado nesta semana.

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